Terça, 21 de Maio de 2013
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2013-05-19 04:47:18

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO B.I. DA CULTURA AÇORIANA NO SUL DO BRASIL -- Lélia Pereira Nunes







Willy Zumblick, Glória ao Divino Espírito Santo,1980
1,25x1,10 m.

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO  B.I.  DA CULTURA  AÇORIANA NO SUL DO BRASIL --       Lélia Pereira Nunes


- FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO -
B.I. DA CULTURA AÇORIANA NO SUL DO BRASIL



Se me fosse dada a tarefa de construir um mapa cultural do Brasil e ali registrar as principais festas religiosas tradicionais que ocorrem na vastidão territorial do País, com absoluta certeza, a Festa do Divino Espírito Santo seria de longe a manifestação de maior incidência cultural em todos os vinte seis Estados da Federação e Distrito Federal, desde o Amapá até o Rio Grande do Sul ou de Sergipe à Amazônia. Se esta representação cartográfica fosse sinalizada, simbólicamente, com uma emblemática bandeirinha vermelha (a do Divino) em todos os municípios brasileiros que celebram o Espírito Santo, de um total de 5.565, o resultado quantitativo seria surpreendente. Um Brasil inteiro vestido de Espírito Santo tal é a forte presença do culto e sua celebração por terras de Vera Cruz.
Popularizado como “Culto ao Divino” tem especial visibilidade no Sul do Brasil, sobretudo em Santa Catarina, alimentada por uma tradição de 265 anos que, mesmo modificada na passagem do tempo, se faz sentir em plenitude por todo o litoral e,também, na serra catarinense onde foi levada por tropeiros paulistas, gaúchos e insulares açorianos.
A Festa do Espírito Santo constitui a maior expressão de transnacionalidade cultural a partir da emigração açoriana do Séc. XVIII para o Sul do Brasil. Paradigma de excelência de uma situação imigratória cujo estudo, apesar de ter um recorte individual, é um ótimo exemplo na abordagem da complexidade e da diversidade da cultura brasileira e, ainda, na compreenção do fenômeno social da mobilidade humana.
As mais antigas referências sobre a existência da Irmandade e a celebração da festa em Florianópolis datam de 1773, ano da instituição da Irmandade do Divino Espírito Santo da Paróquia Nossa Senhora do Desterro e de 1776, ano da realização da primeira Festa do Espírito Santo. Somente em 1806 aconteceu a primeira Festa com Coroação, sendo coroado o açoriano Capitão Manoel Francisco da Costa.
Passaram 237 anos a Festa não arrefeceu. Cresceu e se expandiu na região da Grande Florianópolis e para além, salvaguardando a sua memória cultural e evitando que enfraqueça a sua celebração.
Neste 19 de maio é o Domingo de Pentecostes, domingo da “pombinha”, da celebração do Espírito Santo. A bandeira do Divino,desde a Páscoa, realiza o seu périplo onde não falta o tambor,a viola, a rabeca, a cantoria dos foliões e o pedido de esmola para fazer a Festa em louvor ao Divino Espírito Santo.
Por todo Estado de Santa Catarina, é tempo do Espírito Santo.São os caminhos do Divino abertos por naus açorianas ou baleeiras aladas no distante século XVIII. Trilhá-los é reacender junto ao espelho da memória parte de um caminho do passado, e de agora, ancorados nos valores culturais e na religiosidade telúrica que entre signos sagrados e profanos, emerge com a força de resistência nascida da alma coletiva ou, intencionalmente, (re)inventada.
As mundividências de uma açorianidade sobrevivente por ritos ancestrais de oralidade encontram na Festa do Divino Espírito Santo o seu pulsar e o rosto de sua identidade. Eis, o R.G. da cultura açoriana temperado com o jeito maneiro de ser da nossa gente catarina.
Viva o Divino Espírito Santo!

Florianópolis,Ilha de Santa Catarina,15 de maio de 2013

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por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
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2013-05-17 03:52:35

EXPOSIÇÃO "O SAGRADO NA OBRA DE VERA SABINO

EXPOSIÇÃO  O SAGRADO NA OBRA DE VERA SABINO

Será aberta na próxima segunda-feira 20/05/2013 a mostra ¨O Sagrado na Obra de Vera Sabino¨, no Espaço Cultural Governador Celso Ramos do BRDE, com curadoria do Artespazio Escritório de Arte.
Esta exposição concentra-se em uma das principais temáticas da artista: o sagrado. Obras sacras da artista enriquecem culturalmente o cenário de igrejas da ilha de Santa Catarina, como a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, em Canasvieiras, a Igreja de Sant´Ana na praia da Armação e a Igreja de São Luiz na Agronômica, além de estar presente em muitas coleções particulares através das imagens de Santos, da procissão de Nosso Senhor dos Passos, da Festa do Divino e da Santa Ceia.

Presentes na mostra, quadros em sua técnica mais conhecida, acrílica sobre Eucatex, assim como trabalhos em nanquim sobre papel.

Imagens sacras do acervo pessoal da artista também estarão em exibição nesta mostra.

Vera Sabino busca referência nas imagens bizantinas dos ícones, sendo o uso de dourado frequente no fundo de suas imagens sacras. Outras soluções também empregadas pela artista são as referências arquitetônicas das igrejas locais criando perspectiva e o uso de elementos da natureza, presentes nas demais temáticas da carreira da artista.

O Artespazio Escritório de Arte com esta exposição faz um recorte na produção recente de Vera Sabino, reunindo peças de arte sacra de sua coleção e seus quadros que trazem em si a espiritualidade e a arte da pintora.

Artespazio Escritório de Arte

Antonio Macedo Fasanaro e Fabrício Tomazi Peixoto – marchands



O Sagrado na Obra de Vera Sabino

Abertura: 20 de maio, às 19 horas;

Visitação: 21 de maio a 07 de junho, das 9h às 19h, de segunda a sexta-feira;

Local: Espaço Cultural Governador Celso Ramos

Av. Hercílio Luz, 617 – Centro – Florianópolis

Curadoria: Artespazio Escritório de Arte

www.artespazio.com.br





por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
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2013-05-18 12:57:13

Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo" - Olegário Paz (c/áudio)

 

Açorianidade - 152 [Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo", Grupo C. das Lajes do Pico, "Hino do Espírito Santo"]

PorqueHojeEhSabado
2013.05.18

 









HYMNO DO ESPIRITO SANTO

 

POR OCASIÃO DA REPARTIÇÃO D'ESMOLAS

 

Alva pomba, que meiga appar'cestes
Ao Messias no rio Jordão;
Estendei vossas azas celestes
Sôbre os povos do órbe christão. 

CÔRO 

Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins Vos elevam, Senhor!

Quem aos pobres, seus braços estende,
Quem seus hombros encobre á nudez;
Cá no mundo, a ventura lhe rende,
E no céo, gloria eterna, talvez!

CÔRO

Vinde! etc.

Opulento! Entre-abri vosso cofre:
Se trasborda, é que tende de mais.
Vosso irmão tem de menos, e soffre,
Nada goza, e é só vós que gozaes.

CÔRO

Vinde! etc.

 Acudi com estas off'rendas,
Offertae-lh'as em nome de Deos;
Talvez sejam as unicas sendas
Que conduzam ao reino dos ceos. 

CÔRO

Vinde! etc.

Vinde irmãos! vinde todos, contrictos,
Uma esmola d'amôr offertar:
É dever consolar os afflictos,
E dos pobres, a fome matar.

CÔRO

Vinde! etc.

Traga rosas e ramos de louro,
Quem esmóla melhor, não tiver!
Pobre embora; esta offerta é thesouro,
Ganhará o brasão d'esmoler!

CÔRO

Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins, Vos elevam, Senhor!

 

 

Guilherme Read Cabral,
Em Pleno Atlantico,
Ponta Delgada, Tip. Açoriana, 1879.

 

 Guilherme Read Cabral (1821-1897), funcionário da Alfândega, político, poeta, natural de Portsmouth, Inglaterra, residiu e trabalhou nas cidades de Funchal (Madeira), Horta (ilha do Faial) e Ponta Delgada (ilha de S. Miguel) onde veio a falecer.





 



IMAGEM de Glocal Christianity (http://mattstone.blogs.com/)



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
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2013-05-15 17:03:43

O Surdo - Ana Cristina Alves




O Surdo

Não sabia o que havia de pensar de Macau. Chegara com um bom contrato, daqueles que se media em patacas. A firma dera-lhe a possibilidade de ir para um dos apartamentos, incluídos no seu património, desde que aceitasse reparti-lo com um colega. A empresa era chinesa e portanto o colega seria chinês. Tudo bem. Aceitou a proposta. Seria interessante repartir o seu espaço com um chinês. Quantos se podiam gabar dessa sorte?

Para os portugueses, mas também para muitos europeus e americanos, os chineses continuavam a ser um povo exótico e distante, multiplicando-se em acções e comportamentos inesperados. Gabriel, ainda que com algumas luzes sobre a cultura chinesa, não escapava a muitas das ideias-feitas partilhadas pelos ocidentais.

Quando meteu a chave à porta, rezou a todos os santinhos para que o seu novo colega fosse uma pessoa acessível, civilizada, educada e tivesse mais não sei quantos requisitos.

Entrou a medo. Não fosse de lá saltar um dragão ou coisa que o valha. Fénix não havia de ser, pois sendo ele do sexo masculino, aos patrões nem lhes passaria pela cabeça dar-lhe o mesmo tecto que cobriria uma airosa chinesinha, uma daquelas que apareciam nos quadros antigos: cheia de delicadeza, meio esvoaçante e enroupada até não restar dúvidas sobre a sua compostura.

Abriu a porta a medo. Na sala, sentado numa cadeira de pau, almoçava calmamente um velho chinês. Pousou os pauzinhos numa pequena taça de porcelana sem qualquer sobressalto por ver um barbudo estrangeiro a irromper-lhe casa adentro. Devia ser muito idoso, pois já se lhe notavam as rugas. Ora quando os vincos da idade surgem nestes orientais, é porque os rostos se aproximam a galope do século.

Iria então repartir o apartamento com um centenário pejado de sabedoria. Cada palavra que proferisse seria uma pérola de um mistério, difícil de decifrar. Mas ele seria um aluno atento. Queria absorver cinco mil anos de história tão rápido quanto possível. Agradou-lhe tanto a ideia que colocou todos os dentes à mostra para que se notasse a sua boa disposição e foi o primeiro a romper o silêncio.

- Good evening, I am your new partner, may I say friend...My name is Gabriel.

- Boa noite. Chamo-me Lai Lin e pode falar comigo em Português.

- Ah, sabe Português? Em Macau é o primeiro chinês que encontro a falar Português, é fantástico...

- Em consideração pela minha provecta idade, compreendo que me chame jurássico.

- Perdão...

- Nem pense que lhe vou dar a mão, a menos que esteja mesmo necessitado. Por que havia de ser eu a transportar as malas para o seu quarto? A propósito é ao fundo, do lado direito. Não se engane por favor, pois embora Macau tenha uma certa fama, não costumo partilhar o leito com portugueses.

- Receio que esteja a haver um mal-entendido.

- Não me fiz compreendido? É porque está cá há pouco tempo. Não imagina o que muita gente diz de Macau.

- Até agora estive num hotel, onde havia poucas oportunidades para aprofundar conversas sobre a cidade. Porém imagino que tenha coisas boas e, como todas, algum mal.

- Macau tem muito sal, lá isso tem!

- Desculpe, sei que é chinês, e creio que local, quanto à terra, reconheço-lhe picante e sal, porém não será só maravilhas...

- Não, não tem muitas ilhas, apenas três: Macau, Taipa e Coloane. Sabe falar chinês?

- Aprendo há um mês.

- Ah, já sabe contar até três. Vai continuar?

- Se tiver paciência. Noto que está a desconversar. Sabe o que dizem: que esta terra é de perdição.

- É verdade, tem muita acção.

- Nos casinos?

- Hinos só nas Igrejas, e há imensas portuguesas.

- Não disse que era tudo mau nesta terra das maravilhas...

- Sei o que digo, não me ponho com fantasias. Aqui há gente de todas as idades e a grande maioria vive como deve ser.

- Queira desculpar, mas está-se a fazer tarde, vou deitar-me, pois aguarda-me amanhã um longo dia. Muito se trabalha nesta terra!

- O Gabriel está em guerra? Só se for consigo próprio. Teve um convite da nossa firma para vir até Macau, pagam-lhe pelo que faz e até lhe deram a possibilidade de repartir o apartamento com um dos funcionários mais antigos da firma. Quer melhor que isto?

- Não me estava a queixar, porém os chineses têm ritmos de trabalho constantes.

- Pode comer lagostas e lavagantes? Os chineses são fascinantes? Não é preciso exagerar. Gostamos de o ter cá, mas se utilizar grandes palavras, começamos a desconfiar.

- Perdoe-me a franqueza, o senhor ouve mal, por isso tem estado a trocar as minhas palavras.

- Tenho estado a revelar as suas palavras? Vá descansar, porque amanhã tem que se levantar cedo. Gosto de o receber cá em casa, tenho a certeza que ainda nos vamos divertir muito.

 

Gabriel procurou esboçar um sorriso, depois encaminhou-se lentamente para o quarto. Não estava assim tão certo que fosse fácil conviver com um surdo. De repente, foi assaltado por uma dúvida: Qual deles seria o surdo?

 

 Ana Cristina Alves- Professora Convidada do Departamento de Português da Universidade de Macau, onde lecciona as disciplinas de Questões Culturais na Tradução do Chinês/Português e Português Avançado. Colabora na Revista de Cultura e tem vários trabalhos publicados, entre os quais a tese de Doutoramento em versão encurtada, A Mulher na China (2007) e A Sabedoria Chinesa (2005), sendo ainda co-autora com Wang uoying de Contos da Terra do Dragão (2000) e Mitos e Lendas da Terra do Dragão (2010).

 

 



por : Irene Maria F. Blayer -- Lelia Pereira Nunes
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2013-05-13 16:20:01

A Europa medieval no Brasil via os Açores -- AMÍLCAR NEVES

A Europa medieval no Brasil via os Açores --AMÍLCAR NEVES

A Europa medieval no Brasil via os Açores

Se alguém estiver a me ler agora que não se deixe levar pela pompa e pretensão do título aí de cima. Não sou pesquisador, nem professor, muito menos um especialista no assunto, em qualquer assunto. Não passo de mero escrevinhador que junta palavras na tentativa de parir um conto, uma crônica, e talvez, se lhe estivesse ao alcance do talento ralo, uma novela de costumes, ou de maus costumes. Nada sério, pois. Nada a que se deva conceder maior atenção e cuidado.

Nesta condição é que, por descuido e inadvertidamente, convidaram-me para escrever, em forma de ficção, sobre o personagem real Franklin Cascaes, já partido desta vida. A ideia mestra era reunir 13 escritores atuantes na Ilha de Santa Catarina e, em 13 contos a serem ilustrados (como o foram) pelo Tércio da Gama, valerem-se necessariamente do dito Franklin como protagonista ou personagem importante da trama. O livro viria a intitular-se, como efetivamente ocorreu, 13 Cascaes. Por isso precisavam-se de 13 escritores e, como decerto só se encontrou uma dúzia deles, convocaram-me para o projeto como se convocava o pior jogador de futebol entre os putos para completar o time na função de... goleiro.


Assim que me tornei o goleiro dos 13.
Franklin não era um sujeito levado a sério no meio acadêmico. Nem no social. Não cursara a universidade. Nascera no continente em frente, numa região então rural à beira do mar. Era uma pessoa simples que saía a conversar com os pescadores descendentes dos açorianos que vieram colonizar Ilha, litoral e o Sul do Brasil. Não usava métodos científicos nessas conversas. Era um cara esforçadinho, nada mais.

O sapiente Júlio de Queiroz, um dos 13 do Cascaes, conta que, necessitado de tomar posse dos Açores, Portugal juntou gente de toda a Europa e de todas as condições: foram holandeses, belgas, franceses, poloneses, russos, judeus e até portugueses, gente mais ou menos culta, mais ou menos ética, mas falante do português (posto que Lisboa, como Centro do Mundo, juntava gente de todo o mundo) e levada a trabalhar para poder sobreviver longe do mundo. Com isso, esse pessoal carregou consigo o seu mundo mitológico que povoava e vida e as noites naquele fim de Idade Média.

Quando os Açores estavam prestes a se abrir ao mundo, duas coisas aconteceram: havia gente demais no arquipélago e faltava um bocado de gente na Ilha e no litoral próximo. Esperto, o governo português percebeu que a solução para os dois problemas consistia apenas em deslocar açorianos para Santa Catarina. Assim decidido, assim efetivado. O pessoal chegou com sua mitologia medieval ainda intacta e passou uns 200 anos isolado do mundo.

Quando a Ilha estava prestes a ser descoberta - e contaminada - pelo mundo, e a vila de Nossa Senhora do Desterro já passara a chamar-se cidade de Florianópolis, entra em cena o tal de Franklin Cascaes que sai a colher histórias, e a escrevê-las, a colher cenas, e a desenhá-las, a colher personagens, e a esculpi-los. Fez às suas custas, no derradeiro momento histórico, o que antropólogo algum, escritor algum, sociólogo algum, historiador algum, professor algum, doutor algum sequer pensou em fazer: salvar os usos e costumes trazidos à terra pelos açorianos, salvar a Europa medieval que, ao acaso, aportara no Brasil.

E assim é que estamos agora povoados por bruxas, boitatás, lobisomens e bandos de gente desta espécie. Graças ao sacerdócio de um Cascaes, que registrou também, muito mais do que as assombrações, a vida dura e simples dos pescadores, dos engenhos de farinha, açúcar e cachaça, das tradições religiosas católicas e dos fabricantes de utensílios de barro para o cotidiano ilhéu-açoriano.

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     Amilcar Neves
Escritor, natural de Tubarão, Sul do estado de Santa Catarina, Brasil.
Membro da Academia Catarinense de Letras. Escritor premiadíssimo,com inúmeros de livros de contos e novelas publicados. mantém uma coluna de crônica semanal no Diário Catarinense.
É membro da Academia catarinense de Letras.

por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Brasil,Canadá

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2013-05-16 23:44:38

Originalidade de ESTILO e a impecável ESCRITA de Urbano Bettencourt por Lélia Pereira Nunes



Nesta noite, em sessão muito prestigida, aconteceu o lançamento do livro
« outros nomes outras guerras», na Livraria SolMar em Ponta Delgada,Açores.
Parabéns,Urbano Bettencourt e muito sucesso!

Originalidade de ESTILO e a impecável  ESCRITA  de  Urbano Bettencourt por   Lélia Pereira  Nunes

Originalidade de ESTILO e a impecável ESCRITA
          de Urbano Bettencourt

                      **
             Lélia Pereira Nunes


A editora Companhia das Ilhas anuncia para o mês de Maio a saída de mais um livro do escritor Urbano Bettencourt tendo por título :“outros nomes outras guerras”. Trata-se de breve antologia, que apresenta uma seleção de seus livros de poemas desde Raiz de Mágoa (1972), até o África frente e verso (2012). Inclui ainda uma recolha de quatro ou cinco inéditos.
Assim, quando a Primavera chegar e as Ilhas todas se cobrirem suavemente com suas flores exemplares, abundantes de beleza e cores como a Hortênsia famosa a demarcar caminhos e campos num lindo colar de pedras azuis, a Conteira amarela doce e perfumada e as Azáleas em tons de lilás a florir em profusão, sairá também o novo livro de Urbano Bettencourt, este escritor açoriano da Piedade do Pico que, sem qualquer concessão, ocupa um dos mais importantes espaços da Literatura Portuguesa contemporânea e, reconhecidamente, em outros espaços literários para além das fronteiras geográficas. No entanto, alargado seu horizonte não se distancia do torrão natal, na Ilha do Pico, dos seus afetos e memórias da Piedade e, também, de São Roque, Santo Amaro ou das pedras negras do Calhau. Lugares que um dia eu, segundo o próprio escreveu em 1995, “ atravessei o Atlântico para saber como é que nós nos temos perdido tanto e dispersado, à força de nos querermos agarrar a uns penedos atlânticos instáveis e fugazes”. Não sei se descobri o que ele sugeria nesta dedicatória assinada no seu O Gosto das Palavras II (1995) que afirma ser “um livrinho de ensaios e leituras afetivas” e que, de cara, chamei de “catecismo” pois me preparou para a maior comunhão da minha vida ao iniciar a viagem “para dentro” em descobertas infinitas na compreensão do olhar e do sentido de pertença a um espaço historial comum. Acredito até que já carregava nas veias uma certa inquietação insular por viver numa ilha ao sentir as tensões do cerco ilhéu ante o abraço aberto do Mundo ou entre o cárcere e o infinito, no poetar de J.Martins Garcia.
Devo-lhe muito do meu caminhar por essa atlanticidade literária que, no bailar das palavras, fui descobrindo e me apaixonando por este mundo de nove ilhas, que o mar encasula e liberta. Deslumbrei autores e suas obras, na expressão poética e ficcional da realidade ilhoa, um desfile sem fim de nomes ícones de uma literatura açoriana, vozes de diferentes histórias, pensamentos e gerações que Urbano Bettencourt tem dado a conhecer de forma absoluta e persistente.
Urbano Bettencourt é uma personalidade singular como professor circunspecto no exercício do magistério ou na postura do crítico literário sempre pronto a intervir, seja para aplaudir ou para negativar, impaciente com a mediocridade intelectual à superfície. Ao mesmo tempo, personifica o admirável escritor – poeta e cronista e, nesta condição, se esbalda numa deliciosa ironia, de um humor cativante e de uma malícia muitas vezes maquiada na linguagem refinada que surpreende como nos versos pícaros do poema Paisagem ante o fascinante Pico nevado: “ Um seio destes, tão perfeito/ e vasto,/ faz-se à medida do olhar guloso/e nada casto/de São Jorge,o santo de espada em riste”, uma definição aparentemente insuspeita de São Jorge, a ilha de cabelos verdes de corpo alto na poética de Carlos Faria.
Assim, de um lado, está o acadêmico, o professor de Literaturas – Portuguesa, Africanas de Expressão Portuguesa e Literatura Açoriana – da Universidade dos Açores e, também o crítico literário, o ensaísta, dono de um texto rigoroso, limpo e íntegro, numa posição de total frontalidade e de respeito ao criador e à criatura, a diversidade poética e as diferentes formas de expressão. Do outro, está o autor de ficção, de uma narrativa saborosa, vibrante, bem urdida, construída numa linguagem rica na sátira elegante, a falar de vivências, dos lugares, no descortinar da sua memória e do mundo-ilha. Está o poeta consistente, original e coerente nos seus pensamentos e no dúplice olhar marcado pelo viver insular. A poesia de Urbano Bettencourt, de singular mundividência, nos remete a distanciamentos ou a desejável aproximação, em intimidade com as Ilhas numa viagem para dentro de si e da terra – “da ilha e para ilha” (e para além). Produção literária profícua com marcas de intensa açorianidade que cabe bem adjetivar, dada a sua densidade e o estilo ímpar. Nos ensaios maiúsculos, na crítica literária corajosa, na prosa poética e mesmo na poesia, a questão da autenticidade da literatura açoriana está omnipresente em fortes e sentidas reflexões verbalizadas ou, sutilmente insinuadas.
Embora, não conheça o seu mais recente livro “outros nomes, outras guerras”, tenho a convicção que estamos diante de uma antologia de poemas onde a escrita se revela na sua essencialidade, contida é verdade, porém, a dizer-nos muito. Um jeito de escrever que traz a marca inconfundível, o sinal identitário de seu labor poético e o gosto das palavras. E que gosto! Poucas palavras, traços fortes e muita expressão. Esta é a característica da arte literária de Urbano Bettencourt – o de escrever o mais estritamente necessário e dizer tudo por inteiro, com o inegável talento e a competência de numa única frase criar uma narrativa completa sem floreios. Obras de poesia, narrativa e ensaios que são referenciais para quem ama a literatura e onde o leitor se identifica com o olhar do Autor.
Que paisagem apagarás (2010) e Africa Frente e Verso (2012),chegaram-nos como uma lufada de vento de verão, ora manso, suave, ora forte furioso a vasculhar tudo. Brisas ou ventanias do destino foi desta maneira que percebi a intensidade de seus dois últimos livros.
Em Que paisagem apagarás a suavidade de uma coletânea de textos de todo significante, prenhes de sentimentos no recriar percursos reais e imaginários e no alçar pontes por outras fronteiras, fortalecendo elos, aproximando realidades ou até saboreando o imprevisível chá da imaginação. A conversa aparentemente hilária, mas que deixa antever a fraternidade estendida dos pontos luminosos insulares da Macaronesia, corredores de mão dupla de culturas, histórias e de angústias compartidas no criativo diálogo entre Urbano de Sancho sobre “Las identidades fugaces” com um certo Juan Carlos Bettencourt das Canárias. É um livro delicioso como a brisa suave que nos afaga com sua prosa límpida ponteada de humor e muito leve no fluir compondo uma unidade paisagística exuberante que não se pode apagar. Abro um aparte, para citar a incrível secção“Breves, brevíssimas e (des)aforismos” assinada por um tal Ernesto Gregório e que Urbano Bettencourt passa a palavra, dando respostas com uma bem sacada e divertida sátira.
Que dizer de Africa frente e verso ? É o um vento forte que mexe com todo o sentir de uma geração, mesmo daqueles que não machucaram a carne e não choraram a guerra colonial. Do conteúdo e da capa (do pintor Urbano) meu olhar paira sobre uma África que é coração a pulsar, a gritar por liberdade e dignidade e, o conflito dos que, em nome da Pátria distante, defenderam a posse da terra e da gente colonizada. No verso,o coração ferido nas entranhas. Mais uma vez, a escrita de Urbano Bettencourt é de intervenção de respeito à condição humana que fez emergir nas águas cálidas do rio manchado de sangue e dos seculares embondeiros testemunhas de sua escrita na Guiné Bissau (1972-74) que a pena do poeta documenta na poesia e na prosa poética e as trouxe no seu regresso, como íntimo cheiro de África e, também, tatuado n`alma o amor pela terra morena que neste livro bendiz, esbraveja e chora: “[…] porque escrevo fogo/ e não resisto à fúria dos olhos das lanças/ dos laços/ em que se inscreve um país pisado/ lilás/violado em cada noite pelas bombas […]” (em porque escrevo raiva, p.18). Está patente no conjunto dos poemas e dos textos sobre a memória dos anos do flagelo da guerra e da violência, vividos por Urbano Bettencourt e por companheiros de farda, na visão da morte descrita no antológico texto Noite que, agora (re)publicado, fortalece a agudeza de seu olhar sobre uma realidade de 40 anos atrás e ainda muito presente.
Na nota de abertura “Voltando atrás” do África frente e verso, Urbano Bettencourt esclarece que estes os poemas e textos são posteriores ao seu primeiro livro “Raiz de Mágoa”, publicado na primavera de 1972. Será que teremos que aguardar uma nova Primavera para vê-lo (re)editado?
Nesta Primavera, em tom lilás das azáleas, brinda-nos Urbano Bettencourt com “outros nomes outras guerras” no seu estilo original e mitológico.

Florianópolis,19 de março de 2013



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(*) Foto sessão https://www.facebook.com/urbano.bettencourt



por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

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2013-05-20 12:18:39

"Que bom é ser Açoriano!"


No Canadá - onde resido - é feriado nacional, dia de festividades por todo o país; celebra-se o aniversário da Rainha Victória.  Nos Açores, decorrem as celebrações do Dia dos Açores. Símbolo da nossa Autonomia. Neste dia ergue-se e assume-se - no eu açoriano - um espaço de emoção composto de gestos, de palavras, de ritmos, de memórias cuja consciência colectiva se harmoniza numa 'voz insular' de intensa relação com a terra mater. Para os  Açorianos nos Açores e espalhados pela diáspora, 'viver' as manifestações em louvor a este NOSSO dia, é fixar e afirmar o testemunho da nossa 'açorianidade'; é saber reiterar orgulhosamente as palavras do ex-Presidente do Governo dos Açores, Carlos César, neste Dia da Região em 2009 na cidade de Toronto: "Tenho a certeza que nunca há-de faltar uma razão para que não se pense e não se diga: Que bom é ser Açoriano!".Irene Maria F. Blayer e Lélia Pereira Nunes20 de Maio de 2013

por : Irene Maria F. Blayer - Lélia Pereira Nunes
Tags : Canadá,Açores

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Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.

Irene Maria F. Blayer was born in  Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada.  She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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