Sábado, 19 de Abril de 2014
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2014-04-03 15:28:15

Formas de derrubar um Presidente da República AMILCAR NEVES

Cinquenta Anos Depois...a pena do premiado escritor  catarinense , Amilcar Neves, a  lembrar o período negro da ditadura Militar e a revolução de 31 de Março de 1964



Formas de derrubar um Presidente da República


          

Existem três formas de derrubar um Presidente da República democraticamente eleito (as maneiras de fazê-lo, no entanto, admitem infinitas possibilidades).

A primeira delas não se constitui tecnicamente em uma derrubada do governo e se efetiva pelo repúdio majoritário expresso nas urnas eleitorais. Se detesto o PT, os tucanos ou outro agrupamento político, eu voto contra a reeleição do presidente ou contra a eleição do candidato dele. O contrário disso, transparente como água límpida, é a satisfação popular com o mandatário e com suas práticas e políticas governamentais. Fernando Henrique Cardoso foi reeleito, Lula, depois de perder três eleições seguidas, foi eleito, reeleito e fez sua sucessora. Nenhum general ou marechal da ditadura foi eleito nem jamais seria reeleito. É assim que acontece a democracia e não adianta, nem é didático, difamar, debochar ou ridicularizar o eleito, o eleitor e o processo eleitoral: a vontade da maioria é que deve sempre prevalecer (estamos falando de democracias). O eleito, gostemos ou não dele e do seu partido, é constitucionalmente o Presidente da República.

No mesmo sentido, é ridículo forçar a associação de governos de esquerda, no Brasil ou em qualquer país democrático do mundo, com ditaduras de verdade, à esquerda ou à direita. O absurdo disso é que somente se poderiam eleger, em todo o planeta, governos de direita.

A segunda forma de derrubar um presidente se dá através do recurso constitucional ao processo de impedimento. Fernando Collor sofreu impeachment e o Brasil não desabou. Não foi preciso pegar em armas, nem um só tiro foi disparado, ninguém foi torturado por isso. Outro dia, alguém comentou que "por muito menos, por causa de uma Elba apenas, o Collor, coitado, foi cassado". Não é verdade, claro. A caminhonete Elba foi apenas o furo no sistema muito bem montado, o descuido operacional do esquema. Como Al Capone, nos EUA: não foi apanhado pela carreira de gângster sanguinário, mas por sonegação do imposto de renda. Foi onde deu de pegar o cara.

A terceira forma de derrubar um presidente constitucional foi-me relatada em longa conversa por um coronel da reserva. Era Brasília durante o governo FHC. Naquele período (ignoro como ficou depois), a Capital Federal estava infestada de oficiais da reserva que atuavam junto a órgãos públicos; sem a intermediação desses "consultores" nenhum negócio era fechado. Ele contou que fizera parte de um comando ultrassecreto da inteligência do Exército; na hierarquia, pouca gente sabia da existência desse grupo de elite; na prática, ninguém conhecia seus integrantes.

- Somente os bons conseguiam entrar! - declarou, orgulhoso.

Nas manifestações, o grupo infiltrava gente contratada para gritar slogans comunistas. Nos primórdios da ditadura, plantava garotas e garotos de programa, dependendo da orientação sexual dos alvos, no apartamento de políticos, militares e até cardeais contrários ao regime, fotograva as "ações" e extorquia as vítimas, impondo-lhes no mínimo o silêncio, quando não o apoio.

- Naquele comício do dia 13 de março de 1964, que deu início ao fim de João Goulart, de onde aumentou a indignação no Ministério da Guerra ali em frente, que inspirou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade e horrorizou a imprensa, eu e outro capitão subimos ao alto da torre da Central do Brasil e lá fixamos a faixa forjada de apoio do comunismo e a bandeira vermelha com a foice e o martelo bem grandes.


por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2014-04-02 06:09:24

"A Fechar " Maria João Ruivo






Foto: José Franco

A Fechar Maria João Ruivo

A Fechar
(…)
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago –“Retrato do poeta quando jovem”


Não foi fácil pôr um ponto final neste livro de memórias. Foram muitas horas a viajar pelo tempo e, quando as viagens são boas, não queremos que acabem.
Há, na memória, qualquer coisa doce e indefinida. O Tempo vai filtrando as impurezas e perdoando à vida certas agruras. Por isso as recordações valorizam o que de melhor ela nos deu. Descobrimos, então, que a memória é uma forma delicada de saudade e um desejo de exteriorizar o que foi acontecendo por dentro de nós, que é aquilo de que somos feitos.
Li e reli estes testemunhos de tantos Antigos Alunos e noto que as diferenças entre eles, independentemente da idade, da profissão, dos percursos ditados pela vida são muito pequenas. O que há de comum entre todos é o grande tesouro deste livro.
Os anos passam, os governos passam, os contextos mudam, as motivações alteram-se, mas o Liceu está sempre ali, a marcar presença, nos seus alicerces físicos e humanos. E a dar frutos incontestáveis. Afinal, o que a memória guardou é aquilo que verdadeiramente importa e se torna intemporal - essa Idade de Ouro, que é a adolescência; os sonhos e os desejos; as amizades e alguns amores que ficam para a vida e, acima de tudo, as lições dos grandes Mestres. Foram estes que nos ensinaram a amar o conhecimento e a descobrir o valor intrínseco das coisas – o deslumbre das Ciências; a magia das palavras; o poder da Filosofia e do que ela muda em nós, nessa idade maravilhosa de descoberta. Mestres que o foram, dentro da sala de aula e fora desta, naquilo que nos davam a conhecer do mundo e da vida nas atividades extra-curriculares, nas récitas, através da música e da poesia, ou num simples jogo de bola.
O Liceu foi um mundo que se abriu aos olhos de quem o frequentou. Um mundo complexo e fascinante que os professores materializavam na sala de aula.
Sobretudo para os alunos que vinham das zonas rurais, sem mais horizontes do que aqueles que a pequenez da terra ou a limitação do mar lhes permitiam, chegar ao Liceu era sentir um pouco o que os velhos descobridores terão sentido ao chegarem a uma terra por desbravar. Tudo se torna possível, a partir de então.
Tenho a certeza de que, se percorrermos os corredores do nosso Liceu, nos breves momentos em que neles não há alunos, conseguiremos ouvir os passos de tantas gerações que por lá andaram como se fossem os nossos próprios passos e, se entrarmos sozinhos na Biblioteca, os sonhos que invadiram aquele espaço confundir-se-ão com os nossos próprios sonhos. Porque há coisas que são eternas e a memória ajuda-nos a que assim seja.

Maria João Ruivo

Nota: O texto da professora Maria João Ruivo,integra o livro Memória s do Nosso Liceu.

por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Portugal,Brasil

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2014-04-02 05:55:46

Do Diário IV - Era uma Vez o Tempo de FERNANDO AIRES








Foto :José Franco

Do Diário IV - Era uma Vez o Tempo deFERNANDO AIRES


Ponta Delgada, 1 de Julho, 1995

Ontem, foi o jantar que me quiseram oferecer (1). Sala cheia, no ambiente distinto dos Fonte Bela. Discursos lisonjeiros a meu respeito. Palmas e sorrisos. Música. Que mais queria eu? Tudo isto produz o efeito de um vinho capitoso, uma espécie de vertigem feliz em que a gente cai na ilusão de que a vida é para sempre e este o melhor dos mundos.
Ao outro dia, o Onésimo encontrou-me e, com o humor que lhe conhecemos, escovou-me o fato dos “adjectivos” todos acumulados na noite anterior…
É verdade. As pessoas juntaram-se e encheram-me de “adjectivos”, gratos de se ouvir, decerto. Porém, por detrás do gesto amigo, senti que se despediam de mim, que me remetiam para o sótão onde se costuma guardar o baú da avó, as cadeiras de pé quebrado. Claro que não me queixo e quase quero acreditar (ou acredito mesmo) que ninguém pensou nisto de baús e de sótãos, mas uma coisa é o que pensam as pessoas e outra, muito diferente, é o que a gente sente.

O Jantar foi no salão nobre do meu antigo Liceu, o Palácio dos Fonte Bela, bem identificável pela grandeza da sua escadaria de pedra, pelos tectos com pinturas, pelos salões, a que dão acesso portas de carvalho com obra de entalhador.
Tenho aquela Casa como um bem de família, a mesma amizade, desde o longínquo ano do meu exame de admissão, um exame que não era para brincadeiras. Com dois erros de ortografia (já não me lembro de que calibre), chumbava-se sem apelo. Dois inofensivos erros que não punham em perigo Deus, Pátria e Família, expressão muito usada na altura pelos Estados Gerais da Nação. As meninas vinham fazer exame de vestido de organdi e laço na cabeça. Nós, rapazinhos, de gravata e cabelo penteado a brilhantina – enquanto lá em casa mães e tias entoavam ladainhas e acendiam um pavio de azeite ao Bendito.
Nestes últimos anos, a minha vida correu por outros lados, mas era a este lugar que eu verdadeiramente pertencia. Sempre pertenci. Com efeito, nunca deixei esta Casa: quem ama não parte, não é verdade? Nela fui aluno e depois professor – vinte e seis anos ao todo, de convivências, de trabalho, de familiaridade com toques de sineta, gente nova e gente menos nova. Paredes e tectos e livros e música ouvida nos saraus e nas festas de confraternização. Pretextos têm-me servido sempre para vir matar saudades. E as mais das vezes venho sem pretexto nenhum – apenas para rever as salas e os corredores onde deixei os meus próprios passos, a minha voz, as vozes dos que por aqui passaram, o aroma a figos passados dos livros velhos. Pode-se dizer que nunca entro na biblioteca que não espreite a primeira estante à esquerda. Ali se guardava a obra completa de Júlio Verne, uma edição encapada de vermelho, premiada pela Academia das Ciências de França, tradução de Henrique de Macedo, editada pela Bertrand. Depois dos contos de fadas da minha meninice, seguiu-se, de perto, Júlio Verne: “Três Anos de Férias”, “Da Terra à Lua”, “Os Filhos do Capitão Grant”, “A Ilha Misteriosa”, “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Outros ainda. Dirigia-me à senhora dona Maria do Espírito Santo, zeladora da biblioteca, uma senhora completamente solteira, rechonchudinha, o passinho miúdo, voz de soprano, toda maternal. Pedia-lhe o livro, ia-me sentar ao pé da janela do fundo – o livro pesado de naufrágios, ilhas desertas, sonhos, visões proféticas, em lampejos de um grande poder narrativo, balançado entre a realidade e a fantasia, que não era mais do que o anúncio do futuro, como depois se veio a ver. Quem me dera ser capaz de comunicar o prazer que senti, com aquelas leituras, a tantos jovens que não se interessam nada por leituras e muito por Pedro Abrunhosa e Figo.
Nessa época, ao contrário de agora, a gente não tinha meios de ir passear para além da Ilha. O passeio que dávamos, quando acabávamos o curso, era até à Relva, com um pouco de sorte, um poucochinho mais longe – num embrulho, a merenda feita em casa por nossas mães, mais um pirolito para molhar a boca. Não tínhamos meios, mas tínhamos Júlio Verne, o privilégio das viagens maravilhosas por paragens que se passavam a conhecer na geografia, no clima, nos recursos do subsolo, na fauna, na flora, nas gentes estranhas. Era o substituto (mais nobre, todavia) da desmedida, omnipresente, perversa infecção de banalidades e violência, que se chama TV, com a insuperável vantagem de sermos nós, leitores, também realizadores, encenadores e co-autores das aventuras, da cara e tamanho dos heróis, da beleza e da estatura das árvores e das montanhas aonde nos levava a nossa ousadia e a nossa imaginação.
Mas já basta de jornadas trabalhosas e arriscadas, com notas biográficas de veterano a olhar para trás com uma certa candura, pois nem tudo, na nossa vida, foi tão bom como depois se diz que foi. E esta convicção ajuda a gente a resignar-se com os anos que passam.


Fernando Aires - Era uma Vez o Tempo – Diário IV


(1) Trata-se do jantar que o Conselho Executivo, por tradição, realiza para homenagear os professores aposentados. (nota dos coordenadores).

Nota: O texto ntegra o livro "Memórias do nosso Liceu, Coletânea de testemunhos












por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2014-04-02 00:16:20

– Apresentação das "Memórias do Nosso Liceu" - na CAL. Maria João Ruivo

– Apresentação das Memórias do Nosso Liceu - na CAL.Maria João Ruivo

CAL – Apresentação das Memórias do Nosso Liceu

Exmos Senhores:
- Presidente da Casa dos Açores (Dr. Miguel Loureiro);
- Presidente da Delegação da AAALAQ (Dr. Eduíno de Jesus)
- Oradores convidados - Dr. Mota Amaral e Dr. Jaime Gama
- Vogal da Delegação da AAALAQ (Dr. Renato Borges de Sousa)
- Presidente da AAALAQ (Dr. José Andrade)
- Caros Antigos Alunos
- Sras. e Srs.

Há quem guarde os agradecimentos para o fim, mas apetece-me iniciar exatamente por aí, já que estou muito contente por estar neste espaço. E quero começar por agradecer à Casa dos Açores, na pessoa do Presidente da sua Direção e também ao Dr. Eduíno de Jesus, Presidente da Assembleia Geral, bem como ao Dr. Renato Borges de Sousa, que teve uma enorme paciência para me aturar, o estarmos aqui hoje a apresentar este livro. Sabemos bem o trabalho que essas coisas dão.
Ficam, também, aqui, os nossos agradecimentos a todos os que nos apoiaram e colaboraram neste projeto:
- à Empresa Publiçor, que assumiu, desde logo, esta edição;
- ao Arquiteto Eduardo Soares de Sousa, que, prontamente, acedeu ao meu pedido de conceber uma aguarela para a capa;
- ao José Franco, meu marido, pela bela galeria de fotos que tirou do Liceu atual;
- aos 92 antigos alunos que são, afinal, os autores deste livro;
- aos meus caros amigos Paulo Constância e José Andrade, com quem foi um enorme prazer trabalhar. Foram muitos e muitos e-mails e telefonemas que trocámos ao longo de largas semanas, especialmente pela noite dentro, que é, por vezes, quando o trabalho melhor flui.
- e claro, um agradecimento especial a todo este público aqui presente.

O objetivo fundamental deste Livro foi homenagear o nosso Liceu, dando voz a alguns dos seus antigos alunos e espaço às suas memórias, porque é muito de memórias que tudo se vai tecendo. E nesta homenagem ficará perpetuada a importância que este Liceu teve para muitas das gerações que por ele passaram
Claro que nestas coisas, é importante tentarmos estabelecer critérios para cometermos o mínimo possível de falhas, mas todos sabemos que, por muitos critérios que sejam estabelecidos, há sempre erros, fugas aos esquemas previamente pensados, esquecimentos inevitáveis.
Tivemos, portanto, desde o início, a consciência de que uma obra desta natureza dificilmente chega ao fim. Tal como o João Constância disse no seu texto de abertura do Livro, um projeto destes implica sempre riscos, especialmente o de deixarmos esquecido quem não merece, de modo algum, sê-lo. Por isso pedimos, no início, a algumas pessoas para nos ajudarem a lembrar possíveis colaboradores. Recorremos, entre outros, ao professor Rubens Pavão, ao Dr. Eduíno, ao Onésimo, que, embora não tendo estudado no Liceu, conhece metade deste mundo e do outro e deu-nos boas indicações sobre pessoas que não conhecíamos.
Foram milhares e milhares de alunos que passaram por este Liceu e que poderiam ter dado importantes testemunhos das ricas memórias que têm dele, mas não temos de encarar este volume como o final de um projeto. Pelo contrário, preferimos ver nele, claramente, o começo de um longo caminho que pode ser percorrido por esta ou por qualquer outra Direção da nossa Associação.
O Livro, como irão ver, abrange um período de cerca de 50 anos – dos anos 30 aos 80. São testemunhos de Antigos alunos, que vieram dos vários concelhos da ilha de São Miguel e também das outras ilhas açorianas. Muitos deles, mais tarde, espalharam-se pelo Continente, América, Canadá, etc. Antigos Alunos que, de uma forma ou de outra, se notabilizaram, dentro e fora da região e do país, nas mais variadas áreas: na Cultura, nas Artes, na Política, na Economia, no Jornalismo, no Desporto e em tantas, tantas outras. Todos eles, independentemente da época, têm pelo menos uma coisa em comum - o sentimento de pertença a este espaço do Liceu. As memórias não serão exatamente as mesmas de década para década, mas o espírito que as anima, no essencial, não mudou assim tanto.
Sou professora deste Liceu há 26 anos, e posso afirmar que ainda hoje, embora a ideia da excelência e do valor do ensino seja muito diferente do que já foi (por vários motivos), os nossos alunos, pelo menos os mais atentos e despertos, sentem vaidade de estudar nesta Escola (que já mal conhecem como Liceu). Estas paredes do Antigo Palácio dos Fonte Bela ainda exercem sobre eles uma grande influência, até no próprio comportamento dentro e fora das salas de aula. Numa época em que se fala tanto da indisciplina e das atitudes inaceitáveis de muitos jovens, o que, infelizmente, é verdade, gostaria de vos levar a visitar o nosso Liceu para verem com os vossos próprios olhos, que, sobretudo na parte antiga do palácio, não se vê um risco nas paredes, uma porta partida ou um papel no chão. Até o ambiente nos corredores, durante os intervalos, é muito mais silencioso do que o que se verifica na parte nova do Liceu, conhecida por Secção. Isto mostra que aquelas velhas paredes exercem ainda o seu poder no imaginário destes jovens, que são os futuros Antigos Alunos.
Acabámos por incluir também, neste livro, textos de pessoas já falecidas (cerca de 10). E como, mais uma vez, tínhamos de estabelecer um critério dentro do possível, justo, optámos por limitar estes últimos a pessoas desaparecidas nos últimos 10 anos, tempo de vida da nossa Associação. Aliás, não posso deixar de referir aqui que foi com muito pesar que recebemos a notícia do falecimento do Professor e Historiador Dr. Medeiros Ferreira, que nos impressionou de modo ainda mais particular, porque ele tinha acabado há poucos dias, de enviar o seu testemunho para o livro. Podemos imaginar com que esforço o terá feito.
São inúmeras as memórias que atravessam este livro e que os leitores irão ter oportunidade de saborear. Refiro apenas algumas, como por exemplo: a abertura solene das aulas; as récitas no Ginásio, os saraus na Biblioteca, espaço onde muitos descobriram o fascínio de viajar através dos livros; a importância dos jornais Arco-Íris e Girassol, onde começaram a revelar-se alguns dos futuros escritores e poetas deste país. Muitos recordam, ainda, o rigor do exame de Admissão e momentos mais agradáveis como a “bicha” dos caloiros ou os torneios desportivos, a sineta do Sr. Tavares e os namoros no recreio (isto numa fase posterior, porque, antes disso ser possível, havia a clara divisão entre rapazes e raparigas e o máximo que se podia desejar era um breve aceno ao sexo oposto ou a troca rápida de um bilhete às escondidas). Temos também aqui a geração que apanhou a viragem do 25 de Abril, essa época marcada por uma enorme instabilidade, mas que trouxe aos jovens o sabor de acreditar que Portugal poderia ter um Futuro bem mais risonho…
Do fundo de todas estas memórias, sobressaem nomes recorrentes, como era de esperar. Os nomes dos grandes mestres: Dr. Pavão, Dr. Pacheco, Dr. João Anglin, Dr. Lúcio Miranda, Dr. Armando Côrtes-Rodrigues, Dr. Ruy Galvão, o Mestre Ruy, como lhe chamavam e, se me permitem dizê-lo, porque não seria justo omiti-lo, meu Pai, Fernando Aires, e tantos outros, que são, vezes sem conta, aqui mencionados pelas marcas que deixaram em tantos milhares de alunos.
Não posso deixar de referir que este projeto se tornou, por várias razões, extremamente grato para mim. Estou ligada a este Liceu desde que me tenho por gente. Meus Pais foram lá professores. Mais tarde, fui, eu própria, aluna e regressei aos 22 anos como professora.
À medida que fui lendo todos estes testemunhos, revivi, claro, muitas das minhas memórias, e este foi um processo muito curioso, porque o facto de ser lá professora há 26 anos dá-me, por vezes, a sensação de que nunca me cheguei a ausentar, não tendo, por vezes, o distanciamento suficiente para fazer bom uso da memória. Ler estes testemunhos foi uma forma de fazer isso, de me colocar, de novo, na pele de aluna e de recordar o que foi ser adolescente neste Liceu há 30 anos e descobrir um mundo de coisas importantes. Tudo isto reavivou a saudade imensa que tenho de alguns dos meus grandes professores e da importância que tiveram na minha vida.
Para finalizar, deixo-vos aqui com o último parágrafo do texto que escrevi para encerrar este Livro, e que passo a citar:

“Tenho a certeza de que, se percorrermos os corredores do nosso Liceu, nos breves momentos em que neles não há alunos, conseguiremos ouvir os passos de tantas gerações que por lá andaram como se fossem os nossos próprios passos e, se entrarmos sozinhos na Biblioteca, os sonhos que invadiram aquele espaço confundir-se-ão com os nossos próprios sonhos. Porque há coisas que são eternas e a memória ajuda-nos a que assim seja.”

Muito obrigada

Maria João Ruivo

27 de Março de 2014












por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Portugal,Brasil,Canadá

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2014-04-01 20:47:34

Lançamento : Memórias do Liceu - Coletânea de Testemunhos

Lançamento : Memórias do Liceu - Coletânea de Testemunhos

Lançamento Lisboa e Porto

Numa memoráel noite que reuniu ilustres açorianos, ex-Alunos do querido Liceu, a Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental,no dia 27 de Março, na Casa dos Açores de Lisboa em data comemorativa aos seus 87 anos de fundação, promoveu o lançamento do livro "Memórias do Liceu - Coletânea de Testemunhos". A apresentação pelos antigos alunos Mota Amaral e Jaime Gama trouxe um clima de afetuosa cumplicidade entre os presentes - em comum o amor elo "nosso Liceu".
Na mesma noite foi empossada a primeira diretoria da nova Delegação de Lisboa da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental, constituída por Eduíno de Jesus, Renato Borges de Sousa e Luís Cruzinha Soares.

O segundo lançamento aconteceu no último dia 29 de março na Casa dos Açores do Norte, quando a egrégia Casa celebraba,também o seu aniversário de 34 anos de existência.
No Porto, também teve a solenidade de posse da primeira direção da nova Delegação do Porto da Associação dos Antigos Alunos, constituída por Guido Rodrigues, Tavares Rebelo e Carlos Carreiro.


por : Lélia Pereira Nunes e Irene Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2014-04-01 18:15:49

Saída: Memórias do Nosso Liceu, Coletâneas de Testemunhos Intervenção de JOSÉ ANDRADE

O Blog Comunidades não poderia deixar de prestar sua homenagem ao Liceu Antero de Quental - a tradicional Escola Secundária de Ponta Delgada que, por muitas gerações, plasma jovens açorianos na trilha do conhecimento e da responsabilidade social. Caminhos velhos, caminhos novos, caminhos apenas. Abertos para o Futuro. Sempre.
Parabéns, açorianos do "Nosso Liceu"
Blog Comunidades
Em 1/04/2014

Saída: Memórias do Nosso Liceu, Coletâneas de TestemunhosIntervenção de JOSÉ ANDRADE

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada

Senhora Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Antero de Quental

Caro Gerente da Editora Publiçor

Caro Presidente da Associação de Estudantes

Caros Antigos Alunos

Senhoras e Senhores


Estamos numa escola, entre antigos alunos e, por isso, devemos seguir as regras da casa: antes de dar a matéria, é preciso fazer o sumário.

Vou falar-vos do objetivo da iniciativa, do conteúdo do livro, dos nossos agradecimentos e dos seus lançamentos.

Primeiro, então, o enquadramento da edição.

Em boa verdade, a razão de ser deste livro fundamenta-se em fevereiro de 1852, com a instalação do Liceu de Ponta Delgada, justifica-se em agosto de 2002, com a criação da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental, e consolida-se em novembro de 2013, com a entrada em funções desta nova direção.

Pretendia-se, tão somente, homenagear um liceu que nos marca para a vida.

E procurou-se, significativamente, fazê-lo através do testemunho pessoal de antigos alunos que se orgulham do liceu e que orgulham o liceu.

São apenas alguns de tantos outros possíveis.

Por cada convite feito, ficaram milhares de convites por fazer.

Mas lá conseguimos um conjunto de quase uma centena de interessantes depoimentos – se não representativo, pelo menos exemplificativo.

São antigos alunos que vieram de Ponta Delgada, da Lagoa, da Ribeira Grande, de Vila Franca, da Povoação, do Nordeste, doutras ilhas dos Açores.

São antigos alunos que por aqui se ficaram ou que foram para o Continente, para o Canadá, para a Califórnia.

São antigos alunos que se notabilizaram – na Região ou no País – em contextos políticos, económicos, sociais, culturais.

Não é preciso recuar ao Liceu da Graça para lembrar que o nosso antigo aluno Teófilo Braga foi o primeiro Presidente da República. Só nas últimas décadas estudaram aqui dois presidentes da Assembleia da República e todos os quatro presidentes do Governo dos Açores.

E outros parlamentares, governantes, autarcas, empresários, professores, médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, sacerdotes, militares, jornalistas, escritores, artistas, desportistas.

Alguns são tão diferentes entre si que só mesmo o liceu os identifica e relaciona.

Mas, todos juntos, ajudam a construir a memória desta casa, desde os anos trinta até à década de oitenta.

Nos anos 30, Eduardo Pacheco, Almeida Pavão, Manuel Ferreira, Bruno Carreiro, Elias Negalha e Luiz Amaral – lembram a solene abertura das aulas, as récitas do ginásio, o jornal “Arco Iris”, o Mestre Galvão de Carvalho.



Nos anos 40, Teresa Fraga, Joviano Vaz, Fernando Aires, Soares de Sousa, Albergaria Pacheco, Linhares Furtado, Carlos Almeida, Guilherme de Morais, Guido Rodrigues, Rubens Pavão, Cinelândia Cogumbreiro, Gustavo Moura, João Constância, Netto Viveiros – recordam a Mocidade Portuguesa, o rigor dos exames, o centenário do liceu, a ‘bicha dos caloiros’.

Nos anos 50, Costa Santos, Borges de Sousa, Ferreira Almeida, Madruga da Costa, Cristóvão de Aguiar, Vasco Garcia, Tavares Rebelo, Natália Almeida, Bento Sampaio, Henrique de Aguiar, Roberto Amaral, Medeiros Ferreira, Mota Amaral, Sacuntala de Miranda, Rego Costa, Furtado Dias, João Bernardo, Carlos Arruda, Garcia Lopes, Melo Bento, Berta Camacho e Tomaz Vieira – não esquecem as camionetas madrugadoras, a sineta do sr. Tavares, o Reitor João Anglin, o piano da biblioteca, o Mestre Armando Côrtes-Rodrigues.

Nos anos 60, Jorge Cabral, Carlos Carreiro, Edeme Arsénio, Carlos Afonso, Margarida Brum, Leonor Pavão, Carlos César, Paz Ferreira, Eduardo Medeiros, Bettencourt Resendes, Gilberta Rocha, Berta Cabral, Zeca Medeiros, Emanuel Carreiro, Dionísio Leite e Jaime Gama – evocam a bata branca, a secção feminina, a escola do magistério, o grupo cénico, o professor Armando Medeiros.

Nos anos 70, Eduardo Moniz, Sidónio Bettencourt, Boanerges Melo, Manuel Arruda, José Carlos Carreiro, Humberto Melo, Carlos Amaral, Decq Mota, Aníbal Raposo, Lopes de Araújo, Horácio Franco, Milagres Paz, Piedade Lalanda, Iracema Cordeiro, Graça Castanho, Jorge Medeiros, Pedro Maria, Mário Fortuna, Duarte Melo, Gabriela Canavilhas, Manuel Moniz, José Nunes e Noé Rodrigues – testemunham as missas no Carmo, os lanches no ‘Avião’, os namoricos no recreio, o 25 de abril, o Liceu Noturno.

Nos anos 80, Luís Maurício, Victor Cruz, José Bolieiro, Soares de Albergaria, Xali Barroso, Macedo de Medeiros, Ponciano Oliveira e Vasco Cordeiro – revivem a associação de estudantes, as competições desportivas, a melancólica saída do liceu.

São tantos e tão diferentes na experiência da vida, mas tão iguais no sentimento de pertença como na partilha de memórias.

De entre todos, alguns partiram para o “liceu eterno” durante a última década, desde a fundação da Associação dos Antigos Alunos, mas estão aqui incluídos e homenageados pela republicação dos seus testemunhos.

De entre estes, há um que nos deixou na semana passada, pouco depois de escrever e entregar o seu testemunho.

Professor, historiador, deputado nacional e europeu, secretário de estado e ministro, foi aluno do nosso liceu e participa no nosso livro.

Por isso, num simbolismo extensivo a todos os nossos colegas falecidos, proponho um minuto de silêncio em memória de José Medeiros Ferreira.

(…)

Depois do intervalo, aqui ficam os agradecimentos obrigatórios e sentidos a pessoas e entidades que tornaram possível a concretização deste livro.

Antes de mais e acima de tudo, a exemplar empresa Publiçor, na pessoa do seu dinâmico gerente Ernesto Resendes, que assumiu a edição através da chancela Letras Lavadas;

Obrigado a todos os 92 antigos alunos que nos enviaram os seus importantes testemunhos e a tantos outros que, embora querendo, o não puderam fazer em tempo útil;

Obrigado a António Eduardo Soares de Sousa, pela sugestiva ilustração que concebeu propositadamente para a capa;

Obrigado a José Manuel Franco, pelas excelentes imagens do liceu atual que a sua experiente e sensível objetiva fotográfica expressamente captou;

E, como os últimos são os primeiros, muito obrigado pela colaboração inexcedível de Maria João Ruivo e João Paulo Constância na coordenação editorial deste projeto, tão abrangente e complexo como estimulante e intenso.

Mas há ainda um outro conjunto de agradecimentos que se impõe pela realização desta sessão de lançamento:

Ao conselho executivo da Escola Secundária Antero de Quental, sempre disponível para acolher e ajudar as iniciativas da Associação dos Antigos Alunos;

À Câmara Municipal de Ponta Delgada, pela colaboração dispensada para tornar ainda mais agradáveis os momentos de reencontro e confraternização entre antigos colegas que antecederam o início desta sessão;

Ao Conservatório Regional de Ponta Delgada, pela participação dos seus e nossos atuais alunos Filipe Raposo e Francisco Cabral em violino e Henrique Constância em violoncelo, que encerrarão esta sessão com a interpretação do “Hino do Liceu” – uma obra que se perde na memória dos tempos, que marcava a solenidade das sessões realizadas nesta biblioteca e que foi recentemente recuperada, com arranjos de Ana Paula Andrade, por meritória iniciativa da anterior direção da nossa Associação.

Um agradecimento final a todas as pessoas que nos honram com a sua presença nesta sessão e a três antigos alunos que não puderam participar, como gostariam, por compromissos assumidos fora da Região: os presidentes Mota Amaral, Carlos César e Vasco Cordeiro.

E uma última palavra para outros dois momentos que ocorrem esta semana em Lisboa e no Porto de evocação do nosso Liceu, afirmação da nossa Associação e apresentação do nosso Livro.

O primeiro a 27 de março na Casa dos Açores de Lisboa, no dia dos 87 anos da sua fundação, com a apresentação deste livro pelos antigos alunos Mota Amaral e Jaime Gama e com a tomada de posse da primeira direção da nova Delegação de Lisboa da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental, constituída por Eduíno de Jesus, Renato Borges de Sousa e Luís Cruzinha Soares.

O segundo a 29 de março na Casa dos Açores do Norte, no dia dos 34 anos da sua fundação, também aqui complementando a apresentação do livro com a tomada de posse da primeira direção da nova Delegação do Porto da Associação dos Antigos Alunos, constituída por Guido Rodrigues, Tavares Rebelo e Carlos Carreiro.

E pronto. Está cumprido o Sumário e está dada a Matéria. Só falta o Trabalho Para Casa.

Como TPC, pedimos que nos ajudem a continuar e a alargar o projeto “Memórias do Nosso Liceu” a tantas outras participações, incluindo as novas gerações.

Este livro não é uma obra acabada mas sim o ponto de partida para reunirmos muitos mais testemunhos, de notáveis ou anónimos, quer tenham concluído os seus estudos há mais de 50 anos no Liceu de Ponta Delgada ou há menos de um ano na Escola Secundária Antero de Quental.

Para além da presença permanente no Facebook e da página semanal no “Atlântico Expresso”, criámos o blogue “Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental” que fica disponível, a partir de hoje e por tempo indeterminado, para acolher recordações dos anos aqui passados, seja num texto desenvolvido ou num simples parágrafo, preferencialmente ilustradas por fotografias da época.

Boa parte desses novos contributos bem poderá justificar, mais tarde ou mais cedo, um segundo volume de Memórias do Nosso Liceu.

Aqui fica o Trabalho Para Casa, antes da sineta tocar para a saída, neste reencontro de colegas que marca o Dia Nacional do Estudante.








por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)
2014-04-01 15:40:22

Proémio - LicEU - José Andrade

Proémio - LicEU -  José Andrade

Proémio

LicEU


O que têm em comum um padre e um presidente, um médico e um advogado, um professor e um deputado, um escritor e um desportista, um artista e um empresário, um arquiteto e um engenheiro? Terem sido alunos do Liceu Antero de Quental. Terem gostado do que foram. Terem saudades do que são.
Vieram de Ponta Delgada, do Nordeste, de Santa Maria. Foram para o Continente, para o Canadá, para a Califórnia. E agora reencontram-se e identificam-se neste livro.
Um livro sempre incompleto com a escrita de alguns que só se completa com a leitura de todos. É um incentivo individual para um exercício coletivo.
Quase uma centena de personalidades açorianas constroem aqui uma memória comum com fundamento sentimental. As praxes e os exames, os professores e os colegas, os recreios e os contínuos, as amizades e os namoricos, ocuparam uma idade e preenchem uma vida.
Todos estes testemunhos – alguns recuperados dos últimos dez anos, quase todos escritos nas últimas dez semanas – evocam um tempo e convocam um espaço.
O tempo dos senhores reitores João Anglin, Almeida Pavão, Eduardo Pacheco, dos mestres do saber João Bernardo, Galvão de Carvalho, Côrtes-Rodrigues, dos professores do espírito Augusto Moura, Licínio Costa, Padre Rebelo.
O espaço da biblioteca e da cantina, da secção e do jardim, do ginásio e do campo – que ontem era razão e hoje habita o coração, como As Fadas de Antero.
São memórias do nosso Liceu que justificam o nosso Eu.

O senhor Tavares toca a sineta para a entrada.

Nos anos 30… Eduardo Andrade Pacheco lembra que “o Senhor Reitor proferia as sacramentais palavras – “Em nome da lei, declaro abertas as aulas do Liceu Central de Antero de Quental, para o ano letivo de 1930-31” – e que, no dia seguinte, os ‘caloiros’ eram levados ‘com o rabo à árvore’ e percorriam a cidade devidamente enfarruscados”. José de Almeida Pavão enaltece “o Ginásio do Liceu, onde se realizaram espetáculos memoráveis, sem dúvida dos de mais alto nível no âmbito académico”. Manuel Ferreira lembra “a necessidade de improvisar uma simbólica sociedade por quotas, cada qual com a sua revolta da quantia de 50$00, para o aparecimento do jornal académico ‘Arco Íris’”. Bruno Tavares Carreiro confessa que andou “sempre às turras com a Matemática”, Elias Negalha evoca as aulas de Filosofia de Ruy Galvão de Carvalho e Luiz Amaral recorda “uma excursão de fim do curso, com a generosa cedência de duas camionetas de carga da Fábrica do Açúcar que serviam para o transporte de beterraba”.

Nos anos 40… Teresa Fraga conta que “o que primeiro cativou no liceu, antes de entrar no edifício, foi o próprio edifício em si e, uma vez subida a escadaria que conduz ao primeiro andar, a Reitoria e a Sala dos Professores”. E Joviano Vaz confessa que “se possível fosse, pelos seus portões entraria de novo para encontrar uma mocidade que já não é presente”. Eduíno de Jesus recorda: “Para mim, esse tempo foi ainda o da génese e consolidação da minha primeira e inesquecível tertúlia literária”. Fernando Aires descreve que o exame “não era para brincadeiras”: “Nós, rapazinhos, de gravata e cabelo penteado a brilhantina – enquanto lá em casa mães e tias entoavam ladainhas e acendiam um pavio de azeite ao Bendito”. Soares de Sousa lembra que “as récitas e as exposições que decorriam no ginásio eram as alturas em que nos era possível privar mais de perto com as alunas, desviadas quotidianamente dos nossos olhares para uma ala própria às suas aulas”. Albergaria Pacheco refere “as numerosas amizades ali criadas, as engraçadas récitas que ali representavam todos os anos e as comemorações do centenário do Liceu”. E Linhares Furtado recorda que lhe coube “a honra de proferir algumas palavras em nome dos alunos ‘atuais’ nas inolvidáveis comemorações que, em 1952, marcaram a celebração do 100º aniversário”. Carlos Almeida evoca o seu tio “Dr. Jeremias da Costa que se distinguiu com a compra do Palácio da Fonte Bela, onde ainda hoje se encontra instalado o liceu”. Ruy-Guilherme de Morais lembra que teve “a ousadia de propor em Conselho de Centro da Mocidade Portuguesa a criação de um jornal do liceu”. E Guido Rodrigues revela que aceitou o convite do Prof. Licínio para cantar na Procissão de Sexta-Feira Santa mas só depois percebeu que lhe estava destinado o papel de Verónica”. Rubens Pavão explica que “o Dr. João Bernardo, que exercia as funções de vice-reitor, antes da ‘bicha dos caloiros’ sair exercia as delicadas funções de ‘sensor’, impedindo, por vezes, a saída de alguns cartazes mais picantes”. Cinelândia Cogumbreiro nota que “nunca se ouviu nenhum colega queixar-se dos professores, tal como nunca se viu nenhum professor insultar os seus alunos”. Gustavo Moura entende que “o que se perde nas aulas ganha-se em cultura, numa visão mais ampla da vida e numa abertura de espírito, fatores que são determinantes para o percurso de vida”. João Constância concorda que “foi lá que se formou harmoniosamente a nossa personalidade, que nasceram e se desenvolveram preciosas amizades que têm durado a vida inteira”. E Ana Maria Netto Viveiros acrescenta que “o velho liceu como casa de educação é algo que pertence à nossa memória de vida, à memória também desta cidade de Ponta Delgada, pelo muito que lhe tem dado”.

Nos anos 50… Costa Santos recorda que chegou ao início das aulas com uma semana de atraso: “Eis que, ‘saído do céu’, aparece um caloirinho novo sem experiência nem proteção e, ainda por cima, filho do senhor governador! Foi uma alegria para os veteranos: apanhei uma ‘caterva de chulas’ e depois lá me levaram ao ‘esguicho’”. Renato Borges de Sousa lembra que “a nossa vida dentro do liceu pautava-se pela sineta do Sr. Tavares, que nos mandava para as aulas, com o 1º, 2º e 3º toques, que sempre soavam cedo demais”. Ferreira Almeida, que veio da Ribeirinha estudar para a cidade, “ia a casa nos períodos de férias e fins-de-semana, um sim, três, quatro ou mais, não”. Madruga da Costa veio de muito mais longe: “Quem, como no meu caso, acabasse o ensino secundário no então Liceu Nacional da Horta, aos quinze anos era chamado a escolher um curso, a mudar de escola e a mudar de ilha; embarquei no N/M “Arnel” com destino a Ponta Delgada fazendo escala nas ilhas do Pico, S. Jorge, Graciosa e Terceira”. Cristovão de Aguiar lembra que ficou rebatizado a partir dessa aventura escolar: “só o nome Cristóvão passou a valer no seio da nova e estranha comunidade, pois o prenome Luís, por que era e sou conhecido e chamado na freguesia e no círculo familiar, ficou submerso”. Vasco Garcia lembra o primeiro discurso público da sua vida que leu no aniversário do Reitor João Anglin e que foi “quase um marco referencial do que viria depois”. Tavares Rebelo evoca “factos que ficaram na memória, como o Dr. Pavão a cantar La Donna é mobile numa récita liceal ou Melo Antunes a fazer-nos ouvir na biblioteca do liceu a 9ª Sinfonia de Beethoven”. Também Natália Almeida “guarda na memória os sons divinos que o seu professor de História, João Bernardo Oliveira Rodrigues, arrancava ao piano da biblioteca”. E ainda Bento Sampaio descreve: “Entrámos num enorme salão, com os tetos decorados ‘aqui é a biblioteca’ e, ao fundo um retrato de alguém, ‘é Antero de Quental’, mas o grande piano de cauda encheu-me de cobiça, comparado com o nosso, ‘posso tocar o alecrim?’”. Henrique de Aguiar lembra que era “uma época de coisas simples e rotineiras”: “os ‘sorvetes do Cardoso’, os ‘barquinhos do Espanhol’, o ‘canto do Clube’ e os ‘bilhares do Central’ foram um importante complemento da vida liceal”. Roberto Amaral destaca “a viagem de estudo promovida pelo liceu à ilha do Faial para observação e estudo do Vulcão dos Capelinhos, que tinha surgido no ano anterior e que ainda estava em plena atividade”. Medeiros Ferreira recorda as suas “vitórias eleitorais para chefe de turma do sexto e do sétimo ano, contra um adversário de peso, na figura do João Bosco Mota Amaral”. Mota Amaral prefere evocar o seu mestre Côrtes-Rodrigues: “Para retermos que em francês a palavra que designa o mar é feminina, repetia a história do turista que, chegado ao Alto da Mãe de Deus, tinha exclamado: ‘On voit la mer d’ici!’ – ficando por saber se se referia à bonita vista do oceano ou aos vestígios do uso impróprio dado por frequentadores noturnos do local”. Sacuntala de Miranda evoca também Côrtes-Rodrigues, pela sua dupla personalidade: “Nada no seu comportamento quotidiano deixava adivinhar a torrente de palavras e pensamentos fantasticamente belos que jorravam da sua pena”. Francisco Rego Costa acredita “poder afirmar-se que o então 7º ano dos Liceus equivalia quase a uma licenciatura atual, em cultura geral e formação mental dos alunos”. E Furtado Dias acrescenta que “uma grande vantagem, que o liceu nos proporcionava, desde o 1º ano, era as aulas de ginástica, prática muito saudável e útil para o futuro, pelo menos no meu caso e no de outros que seguiram a vida militar”. João Bernardo Rodrigues lembra que foi parar “à turma mais rebelde daquela época, constituída pelos matulões da altura que, sob a orientação do saudoso professor Augusto Moura, venceu o campeonato interno de Andebol”. Carlos Arruda recorda que “as peripécias iam aparecendo aqui e ali, como a do desaparecimento de umas galinhas que o Reitor criava no pátio”. Garcia Lopes entende que “irreverência e maldades sempre houve e haverá e a diferença, para os tempos de hoje, radica nos limites e na atitude disciplinadora dos nossos pais”. Berta Camacho assume que sentiu “um enorme regozijo por estar à frente da Instituição no momento em que se festejou os seus 150 anos”. Melo Bento proclama que o liceu “continua a ser poderoso farol neste mar tormentoso que todas as gerações têm de atravessar, cantando e rindo, mesmo que o não confessem…”. Tomaz Vieira considera que “tudo o que mereceu ser esquecido bem serviu para abrir os espaços que vieram a ser preenchidos por saberes sentidos, desses que ‘ocupam lugar’ no coração”.

Nos anos 60… Jorge Cabral assume a saudade “do gosto e do orgulho em vestir uma bata branca, de segurar uma pasta ainda cheirando a cabedal e entrar nos portões do Liceu”. Carlos Carreiro confessa que o que ficou na sua memória do Liceu de Ponta Delgada “tem muito de visual e, como artista plástico, em formação, na altura, absorvia e registava tudo, nem que inconscientemente”. Edeme Arsénio acrescenta que “o ‘casarão’, nome que as alunas da Secção utilizavam para descrever o Liceu, muito maior, era um centro acolhedor e de uma beleza incomparável”: “A arquitectura de um solar burguês marcou-me nos anos mais formativos da vida”. Carlos Afonso escreve que “aprendíamos com prazer, sem excessos de severidade ou sequer necessidade duma disciplina rigorosa que surgia, muito naturalmente, pelo respeito que o saber dos professores impunha”. Margarida Brum homenageia as suas professoras como “as mulheres do meu liceu”: “Bastava olhar para elas para se perceber que a instrução é a melhor ferramenta que uma rapariga pode levar para a vida”. Leonor Pavão considera: “o meu Liceu de menina é uma chama brilhante que guardo na memória, como o paradigma de uma Escola completa, onde a Educação era entendida no seu sentido integral – não apenas de instrução, mas também de formação cultural e humana”. Carlos César, pela sua parte, recorda o liceu “não só como uma reprodução das desvantagens e incapacidades sociais e políticas, mas também como um lugar de adesões afetivas, de incubação progressista e de roturas conceptuais”. E Eduardo Paz Ferreira concorda que “foi no quadro apertado e vigiado dos anos sessenta do Liceu, que nem Antero de Quental se podia chamar, que se desenvolveram os seus espíritos livres”. Eduardo Medeiros explica que estudou “na Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada que funcionava precisamente no edifício do Liceu, logo na entrada, perto da Secretaria”. Mário Bettencourt Resendes lembra “não sem alguma ironia, as tentativas desesperadas que faziam para dificultar o convívio entre rapazes e raparigas e, como é óbvio, o resultado prático mais não era do que incentivar a cobiça pelo fruto proibido”. E Gilberta Rocha acrescenta que “os rapazes estavam longe, na saída do portão ou em breves passagens pelas janelas do corredor do 1º andar de onde saíam aviõezinhos de papel, com recados cuja leitura ansiávamos e partilhávamos”. Berta Cabral confessa: “Nunca consegui terminar um trabalho de lavores, o mesmo bordado dava para o ano todo, sempre tive maior inclinação para as disciplinas que proporcionam um raciocínio mais lógico sobre a realidade”. E Zeca Medeiros, pelo contrário, exclama: “Quero celebrar o Grupo Cénico do Liceu cujo elenco tive o privilégio de integrar, quero falar dos ‘Retiros’ do Liceu, das canções dos Beatles, do primeiro amor, só não quero falar das aulas de Matemática”. Emanuel Carreiro lembra que “enquanto as aulas do ‘Armandinho’ eram um gosto, as da ‘Antonieta’ eram um pesadelo e as do ‘Óscar’ eram uma bagunça”. Dionísio Leite recorda o seu colega Jaime Gama: “Ele era, de longe, o melhor aluno (eram só 20 valores) e um dia perguntei-lhe: quando mostras estas notas ao teu pai ele fica muito contente? Resposta imediata dele: fica normal. E eu pensei logo para mim: se fosse o meu, ficaria radiante!”. Jaime Gama prefere lembrar a despedida: “No dia da partida para Lisboa, antes de embarcar no ‘Funchal’, fiz um longo passeio solitário pelo Liceu, revi os anos da vida aí passados, guardei essa imagem comigo para sempre”.

Nos anos 70… José Eduardo Moniz revela: “os comentários de incentivo do Dr. Ruy Galvão de Carvalho e a bofetada de parabéns do Dr. Armando Medeiros foram, talvez, o maior prémio que já recebi até hoje”. Sidónio Bettencourt descreve: “Alguém disse de pronto ao Senhor Reitor que havia aluno novo. E logo eu, e logo o Senhor Reitor. Toda a gente a olhar para mim, toda a gente a querer saber de onde vinha… se sabia jogar à bolas, se tinha jeito para alguma coisa que não fosse apenas ‘falar à moda’…”. E Boanerges Melo conta: “O Dr. Eduardo de Andrade Pacheco, último reitor, quando circulava em todo o recinto escolar, impunha ordem. Um dia, pedi para que me recebesse, pois discordava da não existência de um pormenor na folha dos horários que fora afixada. Na sua sábia pedagogia, observou: “quando fores reitor, hás de colocar lá isso!” Muito obrigado, senhor reitor, disse eu”. Manuel Arruda lembra: “Era uma criança de dez anos, quando transpus pela primeira vez o portão verde do liceu, e, quando de lá saí, era um adolescente, quase homem”. José Carlos Carreiro recorda: “a extraordinária aventura que foi, para mim, num tempo em que era impensável sair-se de uma aldeia longínqua do concelho de Nordeste, a três horas e meia de uma tormentosa viagem de camioneta, vir estudar para Ponta Delgada”. Humberto Melo reforça: “encontrávamos as dificuldades de transporte diário, entre a Vila e Ponta Delgada, levantávamo-nos às 5h30 para apanhar a ‘camioneta do Varela’, uma hora para cada lado prejudicava o estudo, pela falta de tempo e pelo cansaço provocados”. E Carlos Amaral conclui: “Vindo do Nordeste, quebrando a insularidade, o Liceu abriu-me as portas e disponibilizou-me os melhores instrumentos conceptuais para aceder ao universal e, nele, me vir a constituir. Cumpriu a sua missão, com distinção e louvor”. Decq Mota solicitou a autorização de Salazar para prestar provas enquanto estava doente: “E assim passei a ser a segunda pessoa em Portugal a fazer o exame na minha cama, à qual, nos dias das provas, se deslocaram os professores para fiscalizarem”. Aníbal Raposo recorda as lides musicais na igreja do Carmo, mesmo ao lado do Liceu, onde o Padre Noia, pessoa de mentalidade aberta para o seu tempo, acarinhava a existência dum coro de jovens que animavam a missa dominical”. Lopes de Araújo descreve que “ainda se vai ao Avião lanchar ou paramos no João Luís a ver quem por lá anda…. Os cafés das redondezas, onde pontificam ainda o Mimo e o Gil, parecem, a qualquer hora do dia, extensões do Liceu, com pilhas de livros nas mesas, entre copos de galão e restos de torradas”. Horácio Franco confessa: “o primeiro dia no Liceu era, normalmente, complicado e o meu não foi exceção, porque tive de andar à ‘batatada’ num ringue improvisado com outro calouro”. Milagres Paz lembra-se de “andar nos enormes corredores que pareciam túneis escuros e frios das salas antigas com paredes enriquecidas pelas palavras de todos aqueles que por lá passaram”. E Piedade Lalanda completa que “à medida que íamos crescendo, íamos descobrindo os espaços do liceu – primeiro foi “a secção”, o edifício novo junto ao campo de jogos, onde estavam as turmas femininas; depois o torreão, onde eram as aulas de música; raramente, a biblioteca, a que não tínhamos muito acesso, e só nos últimos anos, o acesso às salas em anfiteatro”. Iracema Cordeiro lembra que “nos recreios, junto à cantina, sedimentavam-se as novas amizades, e no banco junto ao bar, prolongavam-se as conversas com o futuro companheiro de vida, que o Sr. Miguel teimava em interromper – “Elas (os membros do Conselho Diretivo) não querem ninguém aí! Lá para fora!”. E Graça Castanho nota que “os que viviam na cidade sentiam-se, de uma forma geral, mais importantes, pelo que o tratamento dado aos alunos vindos das áreas limítrofes ou distantes da urbe era, na maior parte do tempo, de indiferença ou discriminação, quer nas aulas quer nos recreios”. Jorge Medeiros associa “a imagem do nosso Liceu ao recreio, onde confraternizávamos, onde ouvíamos as ideias e as discussões construtivas dos mais velhos, onde íamos desenvolvendo o espírito crítico, onde íamos crescendo”. Pedro Maria Carreiro lembra a “grande efervescência no dia 25 de abril e nos dias seguintes, com a realização da primeira Reunião Geral de Alunos no dia 30, com intervenções de Carlos César apelando à participação na manifestação do 1º de Maio”. Álvaro França viu-se nomeado presidente do conselho diretivo logo a seguir ao 25 de abril – “uma altura bastante agitada, em que as pessoas aderiam a um ou a outro Partido com a mesma lógica com que se é do Sporting e do Benfica (porque sim)”. Mário Fortuna lembra “o envolvimento em movimentos associativos que levaram às primeiras eleições para a primeira comissão de alunos do liceu, sendo que uma das reivindicações da Lista A, que encabecei, era a mudança do nome do Liceu de Liceu Nacional de Ponta Delgada para Liceu Antero de Quental”. Também Duarte Melo recorda “com alegria própria da homenagem, o entusiasmo dos tempos em que a democracia despontava, através do sentimento da festa e da correria dos alunos para as RGAs onde tudo se discutia”. E Gabriela Canavilhas concorda que “a vida no liceu era também reflexo dessas mudanças, entre a euforia, a descoberta e o desnorte”. Manuel Moniz acrescenta que “o ambiente de tensão era evidente ao nível da participação política, com sucessivas eleições para tudo, sessões de esclarecimento, reuniões gerais de alunos, manifestações e contramanifestações, panfletos e cartazes, num ambiente efusivo e sempre imprevisível”. José Nunes lembra que “testemunhámos um período extraordinário de companheirismo solidário, de formação pessoal e de afirmação social entre a população escolar em particular, a sociedade em geral e o Liceu Nocturno no seu todo, naquele emergir sobressaltado para uma almejada vivência democrática”. E Noé Rodrigues conclui que o liceu, com o 25 de abril, “passou a ser a casa da democracia vivida, exercitada, reclamada, muitas vezes local de refúgio, de encontro e reencontro de ideais perseguidos por intolerantes, preconceituosos e despeitados por uma democracia inevitável”.

Nos anos 80… Luís Maurício lembra a sua eleição para presidente da Associação de Estudantes: “Constituíamos a Lista C e inundámos as instalações do Liceu com tarjas compostas pelo nosso slogan de campanha e pelo apelo ao voto”. Victor Cruz recorda o tempo em que foi fundador e diretor do jornal académico “Nova Geração”, para concluir que “saíamos do Liceu mas o Liceu nunca sai de nós”. José Manuel Bolieiro concorda que “ser aluno do Liceu era e é distintivo”: “Lembro que informava e afirmava essa minha condição curricular, com orgulho, à família e aos amigos”. Soares de Albergaria reforça que “o ‘Liceu’ não é ‘mais uma’ escola, ocupa muito justamente lugar de referência no panorama educativo, quer pelo lastro histórico que se lhe conhece, quer pelo competente corpo docente que sempre foi seu apanágio”. E Xali Barroso subscreve que “chegar ao Liceu era muito mais do que chegar à escola – era entrar num museu! Pela sua beleza, pelos seus recreios, pela sua história, por Antero, pelos seus distintos professores”. Emanuel Macedo de Medeiros recorda, por exemplo: “o teto da sua grandiosa biblioteca, que me distraía dos deveres escolares, ou o velho ginásio onde tantas vezes treinei voleibol e onde acabei por me sagrar campeão de S. Miguel de juvenis em 1984”. Ponciano Oliveira nota que “a sua população estudantil era composta, em grande medida, por alunos da cidade e arredores, sendo mais influenciada pelas tendências que chegavam de fora do arquipélago e, ao mesmo tempo, influenciando a comunidade local”. E Vasco Cordeiro conclui: “Na minha memória ficará, para sempre, a melancolia sentida quando, ao finalizar o 12º ano de escolaridade, passei pela última vez pelo portão do “nosso” liceu, num misto de sentimentos pautados, também, pela ansiedade e expectativa pela eminente partida de São Miguel…”

O senhor Miguel toca a sineta para a saída.


Por tudo o que aqui fica e pelo mais que não cabe, valeu a pena.
Valeu a pena o liceu e o livro.



José Andrade
Presidente da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental



por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Portugal,Brasil,Canadá

link deste artigo | comentar/ver comentários(0)

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

-------------------------------

Nota: É proíbida a reprodução de textos e fotos deste blogue sem autorização escrita do RTP Multimédia.

Note: Reprint or reproduction of materials from "Comunidades" is strictly prohibited without written permission from Multimedia RTP.

-------------------------


        
DomSegTerQuaQuiSexSab
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930