Terça, 2 de Setembro de 2014
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2014-05-23 12:45:48

Marta de Jesus (a verdadeira), de Álamo Oliveira (*) Urbano Bettencourt






(fotos:Livraria SolMar)

Marta de Jesus (a verdadeira), de Álamo Oliveira (*)Urbano Bettencourt

Marta de Jesus (a verdadeira),
de Álamo Oliveira

Faz-se um percurso pelo romance de Álamo Oliveira e fica-nos o registo de um número de constantes ou núcleos de referência que permitem uma visão de conjunto e proporcionam um enquadramento inicial de Marta de Jesus (a verdadeira).
Efectivamente, desde o já distante Burra Preta com uma Lágrima (1982, 1.ª ed.), e para lá das diversificadas histórias e tramas desenvolvidas, Álamo Oliveira tem procedido a sucessivas configurações do espaço insular açoriano, melhor dizendo, de espaços insulares, pois já nesse romance inaugural as andanças da protagonista levavam-nos através de três ilhas, do Pico a S. Jorge e, finalmente, à Terceira. E mesmo naqueles casos em que, por razões diversas, as personagens são expulsas do seu chão e obrigadas a experiências de extraterritorialidade, há sempre um lastro insular a constituir-se como contraponto à realidade actual, seja como memória do vivido e da aprendizagem do mundo, seja como uma presença próxima no tempo que estabelece um diálogo entre ausentes e afastados; dito de outra forma, a ilha constitui nesses romances um ponto de ancoragem, mas também um pólo de irradiação narrativa, na medida em que constitui um lugar de onde e se projecta no percurso de quantos dela partem e pelo mundo se disseminam, num processo conflituoso de permanência e transformação. Isso acontece em Até Hoje (Memória de Cão) (1987), com a ilha, ainda que até certo ponto fora da história, a constituir uma espécie de refúgio e lugar outro para onde o soldado João se poderá transportar, escapando-se ilusoriamente ao tempo conturbado e sufocante da Guiné, com o cheiro e o rumor das suas mortes e guerras; de certa maneira é essa dualidade ilha-mundo que subjaz à família de José Silva/Joe Sylvia, de Já não Gosto de Chocolates (1999), repartida, geográfica e intimamente, entre os Açores e a Califórnia, com as suas abundâncias e constrangimentos. Se, no final, a ilha não será solução efectiva para ninguém (nem mesmo para João, que tendo sobrevivido ao pântano guineense não resiste ao sufoco insular e acaba também na emigração), isso já é outra história, que tem a ver com a fatalidade insular e com uma estética em que não há finais felizes.
Por outro lado, o romance de Álamo Oliveira atesta a preocupação do autor em diversificar os seus procedimentos técnicos e textuais, entre a representação de pendor realista e a ficção que deliberadamente se alimenta dos seus mecanismos e os exibe num jogo irónico de fingimentos e distanciações. Pátio d’Alfândega-Meia-Noite assenta na herança de um romance inédito deixado pelo Poeta Porrerinho e que Patachão, assumindo-se como testamenteiro, se encarrega de organizar e trazer a público: o seu trabalho de ordenação do texto de outro, em busca de uma sequência que dê lógica aos acontecimentos, os comentários que vai proferindo, bem como os acrescentamentos introduzidos ao longo da narrativa – tudo isso faz de Patachão um leitor privilegiado e até um co-autor, ao mesmo tempo que proporciona a ostentação do duplo plano de que a escrita, em geral, se sustenta enquanto criação autoral e leitura. E Murmúrios com Vinho de Missa situa-se ainda num campo próximo deste, com a narradora Lucília alternando o relato da sua experiência de docente na Universidade de Tulane com a escrita de um romance sobre a experiência do Padre Raul, seu conterrâneo «refugiado» nos Estados Unidos para escapar à chantagem de que é vítima por parte de José Carlos, com quem mantivera uma relação amorosa. Também aqui se verifica o procedimento da escrita dentro da escrita ou do romance dentro do romance, num encenação dos procedimentos criativos, a que, inclusive, as notas de rodapé adiantam, em tom irónico, as disponibilidades do autor, os seus caprichos e as consequências deles sobre o produto que, em último lugar, o leitor acaba por ter à sua frente.
E deve deixar-se ainda uma palavra sobre a construção de Burra Preta com uma Lágrima, uma fábula insular do século XX que na sua configuração semântica e narrativa recupera parcialmente as leis do género, embora fazendo-a divergir para o universo religioso pela sequência das epígrafes que abrem cada capítulo: provenientes do Apocalipse, elas transpõem as visões do evangelista João para um contexto de prodígios laicos temporalmente localizados perto de nós (o 25 de abril de 1974 e as sequelas do golpe militar passam pelo romance sob variados registos). Se este romance é também uma forma de homenagear o poeta da Vila de S. Roque do Pico (uma projecção ficcional de Almeida Firmino), a dimensão burlesca do acontecimento final que motiva o abate de Burra Preta (isto é, um coice desferido em parte sensível de um orador político), acontecimento ocorrido já em território terceirense, é ainda uma homenagem a Nemésio e eco literário do seu conto «A Burra do Lexandrino», uma e outra desaforadas e com muito pouco sentido das conveniências e do decoro.
Marta de Jesus (a verdadeira) é um romance que se constitui sobre um pré-texto literário, neste caso a narrativa bíblica do Novo Testamento e a partir de um núcleo que o título deixa exposto ao olhar e à compreensão do leitor. A epígrafe extraída do evangelho de Lucas assinala o comportamento e o perfil antitéticos das irmãs de Lázaro, Maria e Marta, centrando nesta uma capacidade de acção e uma inquietação que serão desconhecidas da primeira delas; o dinamismo e o protagonismo de Marta relega a irmã para uma zona de penumbra e de alheamento no interior da narrativa e é, desde logo, uma valorização da acção em detrimento da contemplação, em divergência com o sentido originário. Transpondo para o universo desta Marta o núcleo duro de seguidores do Emanuel bíblico (a mãe Maria Nazaré, Maria Madalena, o grupo dos discípulos), recontextualizando-os temporalmente a partir de meados do século XX (mas prolongando-os até à década de 90) e situando-os no espaço mais ocidental da Europa, a ilha das Flores, Álamo Oliveira constrói um romance cuja leitura obriga a um vaivém recorrente entre o explícito, contemporâneo, do primeiro plano e o implícito, remoto, do segundo plano, isto é, o subtexto evangélico, desafiando o leitor e jogando com as expectativas decorrentes do seu maior ou menor conhecimento bíblico. Essa dupla dimensão é atestada desde logo pelo enunciado inicial de cada capítulo, «naquele tempo», colhido directamente nos evangelhos, e que de forma óbvia contrasta com os signos da contemporaneidade presentes na abertura do romance: «Naquele tempo, Marta de Jesus pressentiu a morte como quem sabe o prazo de entrega de uma encomenda por correio expresso: chega no dia exato e é entregue à porta.» (p. 11).
O leitor terá, pois, ocasião de atestar a convocação de episódios bíblicos no interior deste romance, de verificar em que medida ela se realiza enquanto repetição e diferença, como é próprio de procedimentos narrativos e textuais do género, e como essas diferenças podem constituir, finalmente, um factor de frustração das expectativas do mesmo leitor . Na realidade, transpondo para a segunda metade do século XX açoriano e português, alguns episódios bíblicos, entre eles o projecto messiânico de salvação política do país, o autor condena-os desde logo ao fracasso: porque esta não é uma narrativa tocada pela visão e pela perspetiva do milagre (embora a dimensão religiosa perpasse o universo e a vivência das personagens) e porque a verdade histórica se opõe uma libertação situada nesse período de tempo (faltavam ainda 20 anos para que isso ocorresse, e não por via de qualquer «missão» salvífica, mas pela força das armas).
O mundo configurado em Marta de Jesus (a verdadeira) é fundamentalmente o das Flores, um mundo rural em queda, social, económica, sem sinais de redenção à vista, e a utopia de transformação do país a partir desse espaço remoto e graças à acção de um pequeno grupo como o de Emanuel Salvador e seus seguidores, essa utopia, dizia eu, não passa disso mesmo e acabará por tropeçar nas contingências do próprio tempo, sem que tenha qualquer efeito prático o papel de mentor ideológico desempenhado a partir de Lisboa por Pedro (o intelectual saído das Flores tempos antes). A pretendida viagem de libertação rumo à capital é atalhada por intervenção brutal de um tribunal de excepção (tribunal plenário?) constituído à pressa na cidade da Horta para julgar os rebeldes; e, mesmo que chegue a desembarcar em Lisboa, o grupo já estará decapitado do seu líder, Pedro terá desaparecido misteriosamente durante o julgamento e Judas já terá cortado os pulsos na Horta, à vista da ilha do Pico (o que sempre é uma forma de suavizar o remorso de ter vendido o Mestre por 30 contos).
«Naquele tempo, não havia epílogos», escreve o autor (p.181). E se é verdade que, após a tentativa de intervenção na política portuguesa (uma espécie de golpe das Caldas com origem na placa americana), «a ilha das Flores nunca mais fora a mesma» (p.78), ganhara visibilidade mediática (diríamos hoje), também é verdade que continuou a ressaca emigratória, Marta viu a ilha esvaziar-se em direcção a Oeste, obviamente, como sempre; e nem mesmo as transformações decorrentes do golpe de abril de 74 e a instituição de um governo regional foram capazes de colocar as esperanças da ilha ao mesmo nível das suas expectativas.
Aos poucos, «o grupo dos anos 60» (expressão colhida no romance) foi-se desfazendo, em boa parte pelas américas de maior ou menor abundância. Dos outros, Pedro, libertado do Tarrafal em 74 para onde, afinal, fora atirado, morre desencantado com a política; a morte de Marta desencadeia uma série de fenómenos cósmicos que anunciam o fim das coisas. Emanuel morre tranquilamente por obedecer de forma excessiva a uma ordem de João, o discípulo amado, que apenas o mandara dormir ; o próprio João acabará internado na Casa de Saúde de São Rafael, já depois de o governo regional ter mudado de partido.
Naquilo que este romance permite de uma leitura que suscita um segundo plano de significação para lá do imediatamente descodificável, Marta de Jesus (a verdadeira) é uma parábola geral sobre um tempo açoriano cujos limites iniciais ficaram devidamente assinalados, sobre alguns dos seus intervenientes mais dinâmicos e que ousaram sonhar outra coisa para o destino insular; uma parábola também sobre o insucesso desses projectos e sonhos, dos bloqueios institucionais que se lhes antepuseram, baseados na suspeição que, sendo a de um momento determinado, é por extensão e norma o timbre dos que nos olham a partir da beira-Tejo. Se Marta de Jesus (a verdadeira) constitui, por outro lado, uma espécie de balanço do grupo e dos Açores dos anos 60, lidos à luz de hoje, então é um balanço cujo teor deceptivo e desencantado a ironia do discurso envolve num discreto manto de melancolia. Restam os livros e os autores, e o romance é também uma homenagem aos escritores florentinos, mas os livros são ainda, e em certa medida, vistos como um perigo e uma ameaça à tranquilidade individual, coisas a devolver à procedência institucional e particular.
Na semana em que se comemoram os 40 anos de abril de 74 e na data em que se celebra o Dia Mundial do Livro, o romance de Álamo Oliveira encontra aí razões acrescidas para ser lido e discutido.

Urbano Bettencourt
Ponta Delgada, 23 de Abril de 2014

Nota: Em razão de um problema técnico de acesso ao Blog,via Ipad, durante o período que estive em Portugal e outros sítios europeus, também, da minha total falta de conhecimento de informática para solucioná-lo,  não foi possível publicar o texto acima na data de sua apresentação, por Urbano Bettencourt, durante a sessão de lançamento do Livro em Ponta Delgada.
Agradeço a sua compreensão,
Lélia Pereira Nunes
em 23 de maio de 201


por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

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2014-05-20 12:10:23

Florianópolis em cinco movimentos -- CARLOS DAMIÃO



Florianópolis em cinco movimentos
    ________________________________________
1
Florianópolis não
esconde origens & destinos
em domínios de
becos casas morros prédios mansões
ruelas praças histórias casarões
ilha e continente
sorrisos e movimentos
e gaivotas às tontas
como se a liberdade
fosse o cais
– e um navio da Hoepcke
na Rita Maria
e o vento Sul encanando
asas e folhas secas
– e lenços brancos
: velas de outono
navegação costeira :
brincadeiras
do tempo.
2
Florianópolis
oculta
e recupera
regenera espaços de aldeia
onde a aldeia ainda se vê
se abraça se toca se encanta
em sentires de olhós e olhares
ponte luz e ferro
olhais
oceano nuvem chuva sol noite dia
peixe-pescador
funcionário-servidor
balconistas
secretárias
motoristas
rendeiras
camelôs
mendigos
poetas
aposentados
estudantes
professores
bruxos e bruxas
3
Florianópolis
gente: calçadão
gente: praça
gente: migrantes
gente: catedral
gente: procissão
gente: mercado
gente: Carnaval
gente: palácio
gente: UFSC
gente: ônibus – e carros
– e pontes – e avenidas
gente: praias lagoas
morros favelas bairros shoppings dunas
trilhas barcos
velocidade humana
vida que vai-volta
transforma
multiplica estica habita
corre em desatino
violenta o destino
e sobrevive poesia-vento
e poesia-sol
sinfonia ao poente
no sobrevoo das andorinhas
e dos pardais
os quero-queros as garças e os urubus
montanhas e beira-mar
beira-mangue de lodo
e os cheiros todos
passado-presente
4
Florianópolis e
um sino: a aldeia vive:
um chamado
Menino Deus e Caridade
Menino Passos e Dores
drama e fé
encontro da tarde com a noite
velas e fiéis
vozes e ladainhas do
Desterro Nossa Senhora
dos vultos e sombras
: a cidade se volta
de volta :
às tantas
à espera.
5
Florianópolis
Flopolis
Floripa
Flopis
Fpolis
FLN
FNS
F
Flor
Flor cidade
Cidade Flor

(2007)





* O catarinense Carlos Damião é jornalista e poeta. Assina a prestigiada coluna Ponto Final no Jornal Notícias do Dia. Segundo Carlos Damião, o poema Forianópolis em Cinco Movimentos não está acabado,continua em processo de criação ou melhor de “lapidação”. Guarda o desejo de um dia vê-lo emoldurado num belo arranjo musical e assim homenagear à cidade que tanto ama e defende: “A ideia era ser uma coisa meio sinfônica, com arranjo musical em cima. Busco a musicalidade integral. Já fiz uma experiência muito legal com o bravíssimo compositor e pianista Alberto Heller”. Talento,com certeza,não lhe falta.


por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Portugal,Brasil,Canadá

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2014-05-21 17:01:06

Uma suave “polémica” de há quase cinquenta anos* ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

Uma suave “polémica” de há quase cinquenta anos*ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

Uma suave “polémica” de há quase cinquenta anos*

Já contei nas páginas deste jornal como foi que me candidatei a colaborador, quando ele ainda dava pelo nome de Açores e eu, seu apaixonado leitor diário, era jovem quase imberbe. Pedem-me agora que volte a participar em mais uma edição de aniversário, e vou revirar os ficheiros da memória para de lá retirar elementos adicionais.
Estava-se nos anos sessenta e em Ponta Delgada o jornal aguerrido era o Açores - de Cícero Medeiros e Manuel Jacinto de Andrade – que, anos mais tarde, veio a desaparecer para dar vida ao então decrépito, quase a desfalecer de longevidade, o Açoriano Oriental. No artigo de há nove anos, que depois incluí no meu Livro-me do Desassossego, contei como, numas férias de Verão, arribado do Seminário de Angra cheio de entusiasmos adolescentes (em Angra respirava-se bem melhor que em Ponta Delgada os novos ares do Concílio Vaticano II), lhes fui bater à porta, na velha rua de Sant’Ana, a perguntar se aceitavam uma colaboraçãozita regular. Sentaram-me e puseram-se a conversar amavelmente comigo, acabando tudo em ameno cavaqueio e acordo franco de páginas abertas para enviar o que bem entendesse. Estava-se agora em 1966, dezanove anos na pele.
Por leviandade juvenil, o primeiro artigo que publiquei foi sobre, nem mais nem menos, … o evolucionismo – “Evolucionismo integral?” era o título. Nas aulas de Antropologia Filosófica tínhamos aprendido sobre essa questão e eu, levado sempre pela enorme vontade de partilhar o que me era revelado, não me contive com aquelas aprendizagem sobre a origem do ser humano. O jornal gostava de provocar, agitar as águas do marasmo local, por isso terá pespegado o meu escrito em artigo de fundo, como então se chamava ao texto que figurava ao alto à esquerda, na primeira página. Avanço, porém, que foi deliberada da minha parte a escolha do tema, pois – concedo – não me faltava intenção de atiçar os leitores. E consegui. À Redacção chegou logo uma resposta assinada por Augusto de Vera Cruz, pseudónimo de alguém já colaborador do jornal. O seu artigo saiu também em fundo. Muito correcto na discordância ou, pelo menos, nas objecções; ainda hoje de vez em quando refiro a finura desse escrito em termos de lisura, para demonstrar que é possível discordar-se de ideias sem desrespeitar quem as defende.
Há tempos, através de um amigo, consegui da Biblioteca Nacional de Lisboa cópia dessa “polémica”, que terminou com o meu artigo seguinte, intitulado “Papai macaco?”. Tenho tudo arquivado, algures num dossier cujo paradeiro, no momento da escrita destas linhas, não consigo descortinar. Apenas consegui reaver, de novo através do mesmo amigo, a resposta de Augusto de Vera Cruz, que abre com esta limpeza de trato:
Há algum tempo que não aparecemos com as nossas “Prosas Rústicas” [era assim que se intitulava a sua rubrica]. Não que tenhamos desistido de maçar o leitor com elas, mas um pouco mais de trabalho a anteceder umas desejadas férias fez-nos demorar a continuação da série. E hoje, que pudemos voltar a escrever, mudamos de ideia quanto ao assunto que primeiramente imagináramos para ser aqui tratado. Fica para outra ocasião e aí vai este inspirado em um artigo, que apareceu há dias neste mesmo jornal sob o título “EVOLUCIONISMO INTEGRAL?” Mas, antes de tudo, um esclarecimento: não nos propomos atacar a teoria apresentada, tanto mais que ela não é da autoria do articulista e não temos felizmente o costume, que já vai sendo triste hábito na nossa Imprensa, de criticar qualquer camarada que para ela escreva.
E, depois deste pequeno prólogo, entraremos no assunto de hoje propriamente dito. Claro que, como acontece com quase toda a gente, nos “arripiámos” quando, já lá vão alguns anos, tomámos conhecimento da teoria evolucionista sobre a origem e formação das espécies. O nosso primeiro pensamento terá sido o de a julgarmos condenável por ser aparentemente anti-religiosa. Mas, depois de considerarmos que a Deus nada é impossível, concluímos ser esta tão aceitável como a fixista de Lineu, ou mais. Procurámos enão ser juiz deste e de Darwin, reconhecendo embora a nossa modéstia perante os seus altíssimos conhecimentos. (Açores, 23 de Julho de 1966)
Basta de citação por agora. Não é este o lugar para se revisitar o conteúdo desta troca que nada traz de novo, sobretudo se nos lembrarmos que três quartos de século antes de nós, na mesma cidade de Ponta Delgada, o nosso patrício Arruda Furtado havia ido muito mais longe, publicando em edição de autor o seu magnífico opúsculo O Homem e o Macaco em resposta ao sermão de um padre continental que numa pregação se insurgira contra Darwin. Aqui basta apenas acentuar duas notas: a primeira realçando o ambiente profundamente conservador e repressivo que se vivia em Ponta Delgada nesses anos. (Fica para outra ocasião a polémica que mantive com um clérigo, por eu ter defendido a não obrigatoriedade de a mulher usar o véu na igreja, que mereceu um artigo da autoria do dito reverendo em parangonas na primeira página do jornal – dessa vez era no Corrreio dos Açores – a rebater-me com veemência. A minha resposta foi proibida.) As gerações pós-25 de Abril não fazem ideia do autoritarismo em que se vivia.
A outra nota evoca a memória do interlocutor da minha primeira “polémica” jornalística. Augusto de Vera Cruz, vim a saber logo depois, era um professor de instrução primária numa freguesia de S. Miguel. Não nos conhecíamos mas, a partir daí, Manuel Jacinto de Andrade apresentou-nos e começámos a cartear-nos porque não tínhamos telefone e o correio postal era o meio normal de comunicação, até porque em pouco tempo as férias terminaram e eu regressei ao Seminário de Angra. Por sinal, Augusto de Vera Cruz também deixou S. Miguel algum tempo depois e rumou a Espanha a fim de frequentar uma Congregação Missionária dos Combonianos em Valência, de onde continuou a enviar colaboração para o Açores. Os nossos encontros, então praticamente epistolares, geraram uma amizade duradoura que se intensificou durante ambas as nossas vidas. Nunca esquecerei uma carta de apoio que me enviou quando, após a aquisição do jornal pelo Visconde de Botelho, fui saneado da lista dos colaboradores. Mas esse foi apenas um dos muitos gestos de amizade que Augusto de Vera Cruz teve para comigo ao longo de décadas.
Vou quedar-me por estas linhas, ao menos por agora. Calculo que os leitores aqui chegados já descobriram ser a Maia a terra de onde escrevia o meu interlocutor, cujo nome era, nada mais nada menos, do que Daniel de Sá, de saudosa memória.

Onésimo Teotónio Almeida

Texto publicado no Jornal Açoriano Oriental, em edição comemorativa aos 179 anos de fundação do mais antigo jornal de Portugal.




por : Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer
Tags : Açores,Portugal,Brasil,Canadá

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2014-08-01 18:51:49

Physiology - George Monteiro



Physiology  - George Monteiro

(Vincent van Gogh, 1853-1890)






Physiology


While the sonnet is friendly to the tragic
situations of saudade, the haiku is not,
for such spasms of feeling depend from
a fact: it is not that people suffer their
saudades (they do) but it is that destiny
decrees that they will suffer them time
and time again. If a minha patria é a
minha língua, saudade
is its pathology.


July 4, 2013











(This poem was first published in July 2013, Comunidades RTPcores)


George Monteiro is Professor Emeritus of English and Portuguese and Brazilian Studies, Brown University, and he continues as Adjunct Professor of Portuguese Studies at the same university. He served as Fulbright lecturer in American Literature in Brazil--Sao Paulo and Bahia--Ecuador and Argentina; and as Visiting Professor in UFMG in Belo Horizonte. In 2007 he served as Helio and Amelia Pedroso / Luso-American Foundation Professor of Portuguese, University of Massachusetts Dartmouth. Among his recent books are Stephen Crane's Blue Badge of Courage, Fernando Pessoa and Nineteenth-Century Anglo-American Literature, The Presence of Pessoa, The Presence of Camões, and Conversations with Elizabeth Bishop and Critical Essays on Ernest Hemingway's A Farewell to Arms. Among his translations are Iberian Poems by Miguel Torga, A Man Smiles at Death with Half a Face by José Rodrigues Miguéis, Self-Analysis and Thirty Other Poems by Fernando Pessoa, and In Crete, with the Minotaur, and Other Poems by Jorge de Sena. He has also published two collections of poems, The Coffee Exchange and Double Weaver's Knot.





IMAGE: Vincent van Gogh, Sower at Sunset (1888)







por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : E.U.A.,Brasil,Açores

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2014-05-15 22:22:42

DANTE, CARIOCA STYLE - George Monteiro





Vinicius de Moraes e a Garota de Ipanema,1962.

DANTE, CARIOCA STYLE - George Monteiro




DANTE, CARIOCA STYLE

George Monteiro

 

One of the more touching sonnets in Dante's La Vita Nuova expresses the poet's thoughts as he witnesses the fashion of the way his elusive "mia donna" makes her way, gracefully and independently, down the street before him:

Tanto gentile e tanto onesta pare

            La donna mia quand'ella altrui saluta

            Ch'ogne lingua deven tremando muta,

            E li occhi no l'ardiscon di guardare.

            Ella si va, sentendosi laudare,

            Benignamente d'umiltà vestuta;

            E par che sia una cosa venuta

            Da cielo in terra a miracol mostrare.

            Mostrasi sì piacente a chi la mira,

            Che dà per li occhi una dolcezza al core,

            Che entender no la può chi no la prova;

E par che de la sua labbia si mova

            Un spirito soave pien d'amore;  

            Che va dicendo a l'anima: "Sospira."

My point is simple, but for those who know the twentieth-century Brazilian poet-songwriter Vinicius de Moraes only as a popular songwriter, and not the cultured, learned, modernist poet that he was in the earlier phase of his artistic career, it may come as a surprise.  Dante's 1265 lyric-the poet's soulful take on his "donna mia" as she moves before him-is a prototype for two lyrics by Vinícius-a less-than-sweetly-depressive samba "Quando tu passas por mim" and the celebrated song "A Garota de Ipanema."  In all three lyrics-Vinicius' two and the Dantean prototype-the image of the woman (whose own story remains a mystery to us) as she passes before the man serves as an emblem to each poet of the passage of time itself. 

"Quando tu passas por mim" (1953), Vinicius' first samba, written with Antonio Maria, runs:

Quando tu passas por mim

Por mim passam saudades cruéis

Passam saudades de um tempo

Em que a vida eu vivia à teus pés

Quando tu passas por mim

Passa o tempo e me leva para trás

Leva-me a um tempo sem fim

A um amar onde o amor foi demais

E eu que só fiz te adorar

E de tanto te amar penei mágoas sem fim

Hoje nem olho para trás

Quando tu passas por mim

It is possible, I think, at least in retrospect, to entertain the idea that the vengeful lyrics of this first samba morphed into Vinicius' more delicately mournful song "A Garota de Ipanema" (1962).

The original lyrics of this enormously popular song, written with Antonio Carlos "Tom" Jobim (1927-94), read:

Olha, que coisa mais linda,

Mais cheia de graça

É ela, a menina 

Que vem e que passa

Num doce balanço

Caminho do mar...

Moça do corpo dourado,

Do sol de Ipanema,

O seu balançado

É mais que um poema

É a coisa mais linda

Que eu já vi passar...

Ah, porque estou tão sozinho

Ah, por que tudo é tão triste

Ah, a beleza que existe

A beleza que não é só minha

Que também passa sozinha...

Ah, se ela soubesse

Que quando ela passa,

O mundo sorrindo

Se enche de graça

E fica mais lindo

Por causa do amor...[i]

It is pleasing to think that Vinicius himself was aware of the Dantean predecessor to his own tender tribute to the lovely girl who so touches him as she walks to the beach.[ii]



 

[i] O Operário em Construção e Outros Poemas, ed. Sérgio Buarque de Holanda [Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979], p. 108.

[ii] In Elizabeth Bishop in Brazil and After: A Poetic Career Transformed (Jefferson, North Carolina, and London: McFarland, 2012), I discuss how Bishop's "Pink Dog," a posthumously published poem critical of Rio de Janeiro, can be traced back to Dante by way of Vinícius' "A Garota de Ipanema" (pp. 79-80).


Foto 2. - Nesta esquina e neste bar nasceu a Garota de Ipanema. Hoje,rua Vinicius de Moraes.

________________________________

George Monteiro is Professor Emeritus of English and Portuguese and Brazilian Studies, Brown University, and he continues as Adjunct Professor of Portuguese Studies at the same university. He served as Fulbright lecturer in American Literature in Brazil--Sao Paulo and Bahia--Ecuador and Argentina; and as Visiting Professor in UFMG in Belo Horizonte. In 2007 he served as Helio and Amelia Pedroso / Luso-American Foundation Professor of Portuguese, University of Massachusetts Dartmouth. Among his recent books are Stephen Crane's Blue Badge of Courage, Fernando Pessoa and Nineteenth-Century Anglo-American Literature, The Presence of Pessoa, The Presence of Camões, and Conversations with Elizabeth Bishop and Critical Essays on Ernest Hemingway's A Farewell to Arms. Among his translations are Iberian Poems by Miguel Torga, A Man Smiles at Death with Half a Face by José Rodrigues Miguéis, Self-Analysis and Thirty Other Poems by Fernando Pessoa, and In Crete, with the Minotaur, and Other Poems by Jorge de Sena. He has also published two collections of poems, The Coffee Exchange and Double Weaver's Knot.

 

 

 

This posting was first  published here on February 15, 2013.

 

 



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Açores

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2014-06-26 13:08:58

SEMANTICS - Scenes from an unpublished novel- Julian Silva





SEMANTICS
Scenes from an unpublished novel

by

Julian Silva

 

 "You gotta say it fast. Real fast. Or it isn't funny."

Meeting in mid-row, the three girls have converged on their hapless victim. Their eyes bright with mockery, their faces soiled with a good deal more than malice. Their fingers are stained red with currant juice and their knees bound with pads of quilting to cushion them against the sun-baked earth. Knotted at all four corners, red bandanas offer scant protection from the intense sun. Or the perpetual rain of sulfur with which the currant bushes have been dusted against the mildew and now cakes in every sweaty crease to form a yellow paste. He knows only one of them by name. Geraldine Freitas. The other two, Spaniards, live in hovels somewhere out near the salt flats.

"Tell me why it's funny."

 "Say it faster an' you'll see."

 "African nigger, African nigger, African -"

 "Faster!"

 "Africanigger, a fuckinigger -"

Bent over, doubled with glee, the girls scream with laughter.

Squinting through tear-blurred eyes, the ten-year-old Arab Ramos, né Vasco, studies them. He knows full well they are trying to make a fool of him, and what is worse, more than likely succeeding.

 "I still don't get it." He is prepared to compound his shame as the price for knowledge. "What's so funny?"

 "Try again."

So he tries again, his tongue moving so fast the words slur meaninglessly:           

 "Africanigger, a fuckinigger, a fuckin -"

Disaster hounds him. With all the surprise of a Jack-in-the-box, his father's head pops up from behind the next row, a craggy menace to more than himself. Ducking and scampering among the currant bushes, the three girls vanish in a cloud of sulfur.

His blush convicts him before he can even find his voice.

 "I got almost a crateful." He holds up the crimson evidence for his defense like a casket of rubies glittering in the blinding June sunlight. Currants always seem to ripen the hottest week of the year and he hates picking them more than he hates any of the other task forced upon him by his stern mother, who is determined to teach him and his brother "the value of a dollar." As though it were one of life's immutable absolutes. The key to survival and the crowning proof of every success.

 "And they aren't mashed either."

He has taken recently to pronouncing the final word with a hard "i" for the very good reason no one else in San Oriel pronounces it that way. In the present circumstances the affectation assumes the guise of insolence, which further incenses his father.

 "Get yourself home." There is menace in the voice, an undeniable threat in the eyes. "And you'll not leave till I get there. Hear?"

 "Good!" He sniffs back a rush of tears. Though "home," as far as he is concerned is now with his

recently-widowed grandmother, he knows that is not the home his father means. "I'm sick'n'tired

of picking these stinking old currants anyway."

He ducks before the sudden rush of his father's hand. He might have spared himself the effort. Gruff as he is, his father seldom hits him. But when he does the act is sudden, violent and painful.

Halted in mid-swing the hand hovering over him is large and ominously thick. It fascinates Arab like no other part of his father's anatomy and he studies it now with hypnotic intensity. Despite appearances to the contrary, it is capable of the most delicate workmanship. Far finer than anything his mother has ever accomplished with her needle. Tying minuscule knots on the rigging of the ship models that are his passion and his chief refuge from all familial concerns, and which, his son fully understands (and oddly without resentment)  play a far more important role in his father's affections than his children. Especially since the death of his own father, the management of whose estate has now burdened the hapless history professor with two jobs, neither of which is particularly remunerative.

 "One more word out of you, young man, and you'll get slapped. Right here. In front of everyone."

The young boy bristles at the affront. He cannot bear to lose face before these - since he is forbidden to call them "peasants," as they so clearly are (for the Ramoses are New Deal Democrats and believers in a literal democracy of social equality) he must content himself with "morons." And they are morons. Cruddy, lice-covered morons. Though he knows well enough not at the present moment (still within striking distance of that all-powerful hand) to give voice to his indignation.

It is the mystery that infuriates him far more than the injustice. He wouldn't even mind, sometimes, being punished, if they would only explain why he is being punished. A spanking is a small price to pay for knowledge. And more than anything else, he longs for knowledge. To know just about everything there is to know. While here, hidden only from him, there is a great conspiracy of secrets which everyone else in the entire world seems to be in on. Even stupid old Geraldine Freitas, who can barely spell her own name. And that is insufferable.

 "What kinda nigger?" A softly taunting voice rises from behind a sulfurous bush.

He sticks out his tongue as far as it will go and gives a noisy raspberry.

 "A Spanish nigger. That's what kind."

 "Black Portagee," comes the instant reply.

He sniffs, head held high like the prince he knows himself to be, as he too is now lost in a cloud of sulfur wafting westerly in the direction of his home. And his waiting mother.

*

"I don't understand."

His mother is speaking. Olive-skinned, she has the face of a Renaissance Madonna, an almost perfect oval filled now with the ineffable suffering of Our Lady of Sorrows. A corsage of silver swords might more properly have sprouted from her left breast than the damp, stained apron fashioned from the cheapest cotton print that presently adorns it.

 "I just don't understand. From your brother, yes. From Tony we might have expected as much. But you!"

It is the attack of all attacks he most hates - this setting him up on some kind of pedestal only so that he can then be deftly knocked off. The would-be saint toppled from his marble perch and garroted with his own halo. For, like every good Catholic, he fully intends someday to become a saint. But unlike most he also intends to become a priest. Possibly, even, one day, Pope. The first American Pope. Vasco the First he'll be, since he'll obviously have to use his real name in such a contingency. And for once he likes the sound of it as well as the prospective glory. Vasco the First in full regalia with crown and crosier, borne aloft amidst the cheering throngs on the hefty shoulders of four of the handsomest of his very own Swiss guards. Every one of them well over six feet tall and as beautiful as a god.

*

 "You! You! You!" The word reverberates like the parodied vocative of a Victor Herbert operetta: "You! You! No one but yoooooo!"

 "But you!" Our Lady of Sorrows is all trembling anguish, a vibrating tuning fork, "You!"

He would much rather, after all, she slap him and get this prolonged scene over with. Quickly. Instead, to his consternation, she paces the room, wringing her hands, shaming him with her shocked incredulity. Far more baffled than repentant, he can only, with bowed head and flushed face, stare dumbly at the tips of his scuffed and dusty shoes.

Sometimes and, oh, with such baffling unpredictability! These minor offenses have a way of swelling into major crimes. He can always tell when she is really angry, when he has truly overstepped the outermost boundaries of her very limited indulgence. For the unpardonable he is never spanked. Never offered so simple an out as a momentary sting of his cheeks, upper or lower. Flushed eyes and a hurt far more personal than physical. At such moments she treats him as though he were guilty of some offense so filthy she can scarcely any longer bear to touch him for fear she may contaminate herself. For such crimes the only fit punishment is ostracism. From all family activities, and worse, far worse, from her good graces. It is she, then, who is usually closer to tears than he.

 "But from you," she continues, her voice limpid with betrayed trust, "we'd been led to expect so much more. And now you've shown us just how wrong we were...how wrong we were...how wrong we were..." Her voice seems to go on like a record stuck in its own groove.

 "If it's such an awful word," he humbly asks Our Lady of Sorrows, lifting his head just high enough to rest his gaze upon the corsage of quivering silver daggers - until the decisive moment, "why does Grandpa use it all the time?"

Gotcha! He thinks as his eyes rise to confront hers full on.

"Oh!" The shock registers like a slap on his mother's face. "When? When have you ever heard your grandfather use that word? When?"

 "Lots of times." He pinches his lips tight into a prim little purse, holding her gaze without flinching. He knows the crisis is over. As far as he is concerned, anyway. His grandfather is another matter; but his grandfather, as just about everyone who knows him already knows, can very well take care of himself.

"Lots and lots of times." It is a good as well as an honest defense.

His mother is clearly stunned."In front of you?"

His nod is ponderously solemn.

She goes pale with anger. For her son, she knows, despite his many and infuriating faults, is quite incapable of such a lie. Even to save his own skin.

 "Well, I don't care who uses it." Her righteous stance crumbles before his questioning gaze into so many mite-size shards. "Even your grandfather. If he's ever said it, then it was very wrong of him. Very, very wrong. Do you hear? And I shall certainly tell him so. This very afternoon. You can be sure of that."

She is the Avenging Angel now, armored in righteousness. "But that's no excuse for you, ever, ever again to use it. Do you hear me? Is that quite unmistakably clear? If I ever hear that that word has crossed your lips, I'll - well, you can be sure you'll get something you'll never forget. Is that perfectly clear?"

 "Yes." His voice no more than a whisper as he nods his acknowledgment of her ultimatum. His

grandfather's depravity has got him off lighter than he could ever have hoped.

Sins are to confess and shame for repentance, but poor Gramps. Yet he has long since got used to the idea that his Grandfather Woods is destined for hell. If nothing else his worldly success has doomed him. Riches and damnation, the Bible tells us, are long established partners. So hell must be peopled with Republicans. For Republicans are invariably rich and at the same time contemptuous of God's starving millions. If it is wrong to call those dirty, scruffy, lice-covered Spaniards in their shanty town out near the salt flats peasants, how much worse, then, is it to call those whose very skin advertises a former shame so great....

Julian Silva





Julian Silva is a fourth-generation Portuguese-American whose Azorean ancestors first settled in the San Francisco Bay Area in the 1870s. His novel, The Gunnysack Castle, was first published by Ohio Universiy Press in 1983. The second section of the Death of Mae Ramos, "Vasco and the Other" was originally published in 1979 in Writer's Forum 6, University of Colorado.
In 2007, Distant Music Two novels: Gunnysack Castle and The Death of Mae Ramos was published by Portuguese in the Americas Series, University of Massachusetts Dartmouth . Distant Music is the story of the Woods (anglicized Portuguese) and Ramos families and their descendants in California. In these narratives Julian Silva "celebrates not only the resilience of men and women confronted with failure but, even more important, he exposes the compromised morality of their achievement" (Portuguese in the Americas Series).



por : Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes
Tags : Canadá,E.U.A.,Brasil,Açores

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2014-05-14 20:52:35

Poema do Dia: CREDO de Natália Correia

Comentários de Rui Teixeira e Urbano Bettencourt ;
Dito por: São Medeiros

O Projeto Poema do Dia é uma rubrica da Associação Cultural Despe-te-que-suas em coprodução com Antena 1 Açores, com apoio da Direção Regional da Cultura do Governo dos Açores e que o Blog Comunidades tem a satisfação de (re)transmitir

Poema do Dia: CREDO de Natália Correia

CREDO
Natália Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.











Publicado no Comunidades a 4 de Junho de 2012







por : Lélia Pereira Nunes - Irene Maria Blayer
Tags : Canadá,Brasil,Portugal,Açores

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Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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