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Açorianidade - 152 [Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo", Grupo C. das Lajes do Pico, "Hino do Espírito Santo"]
PorqueHojeEhSabado
2013.05.18
HYMNO DO ESPIRITO SANTO
POR OCASIÃO DA REPARTIÇÃO D'ESMOLAS
Alva pomba, que meiga appar'cestes
Ao Messias no rio Jordão;
Estendei vossas azas celestes
Sôbre os povos do órbe christão.
CÔRO
Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins Vos elevam, Senhor!
Quem aos pobres, seus braços estende,
Quem seus hombros encobre á nudez;
Cá no mundo, a ventura lhe rende,
E no céo, gloria eterna, talvez!
CÔRO
Vinde! etc.
Opulento! Entre-abri vosso cofre:
Se trasborda, é que tende de mais.
Vosso irmão tem de menos, e soffre,
Nada goza, e é só vós que gozaes.
CÔRO
Vinde! etc.
Acudi com estas off'rendas,
Offertae-lh'as em nome de Deos;
Talvez sejam as unicas sendas
Que conduzam ao reino dos ceos.
CÔRO
Vinde! etc.
Vinde irmãos! vinde todos, contrictos,
Uma esmola d'amôr offertar:
É dever consolar os afflictos,
E dos pobres, a fome matar.
CÔRO
Vinde! etc.
Traga rosas e ramos de louro,
Quem esmóla melhor, não tiver!
Pobre embora; esta offerta é thesouro,
Ganhará o brasão d'esmoler!
CÔRO
Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins, Vos elevam, Senhor!
Guilherme Read Cabral,
Em Pleno Atlantico,
Ponta Delgada, Tip. Açoriana, 1879.
Guilherme Read Cabral (1821-1897), funcionário da Alfândega, político, poeta, natural de Portsmouth, Inglaterra, residiu e trabalhou nas cidades de Funchal (Madeira), Horta (ilha do Faial) e Ponta Delgada (ilha de S. Miguel) onde veio a falecer.
IMAGEM de Glocal Christianity (http://mattstone.blogs.com/)
O Surdo
Não sabia o que havia de pensar de Macau. Chegara com um bom contrato, daqueles que se media em patacas. A firma dera-lhe a possibilidade de ir para um dos apartamentos, incluídos no seu património, desde que aceitasse reparti-lo com um colega. A empresa era chinesa e portanto o colega seria chinês. Tudo bem. Aceitou a proposta. Seria interessante repartir o seu espaço com um chinês. Quantos se podiam gabar dessa sorte?
Para os portugueses, mas também para muitos europeus e americanos, os chineses continuavam a ser um povo exótico e distante, multiplicando-se em acções e comportamentos inesperados. Gabriel, ainda que com algumas luzes sobre a cultura chinesa, não escapava a muitas das ideias-feitas partilhadas pelos ocidentais.
Quando meteu a chave à porta, rezou a todos os santinhos para que o seu novo colega fosse uma pessoa acessível, civilizada, educada e tivesse mais não sei quantos requisitos.
Entrou a medo. Não fosse de lá saltar um dragão ou coisa que o valha. Fénix não havia de ser, pois sendo ele do sexo masculino, aos patrões nem lhes passaria pela cabeça dar-lhe o mesmo tecto que cobriria uma airosa chinesinha, uma daquelas que apareciam nos quadros antigos: cheia de delicadeza, meio esvoaçante e enroupada até não restar dúvidas sobre a sua compostura.
Abriu a porta a medo. Na sala, sentado numa cadeira de pau, almoçava calmamente um velho chinês. Pousou os pauzinhos numa pequena taça de porcelana sem qualquer sobressalto por ver um barbudo estrangeiro a irromper-lhe casa adentro. Devia ser muito idoso, pois já se lhe notavam as rugas. Ora quando os vincos da idade surgem nestes orientais, é porque os rostos se aproximam a galope do século.
Iria então repartir o apartamento com um centenário pejado de sabedoria. Cada palavra que proferisse seria uma pérola de um mistério, difícil de decifrar. Mas ele seria um aluno atento. Queria absorver cinco mil anos de história tão rápido quanto possível. Agradou-lhe tanto a ideia que colocou todos os dentes à mostra para que se notasse a sua boa disposição e foi o primeiro a romper o silêncio.
- Good evening, I am your new partner, may I say friend...My name is Gabriel.
- Boa noite. Chamo-me Lai Lin e pode falar comigo em Português.
- Ah, sabe Português? Em Macau é o primeiro chinês que encontro a falar Português, é fantástico...
- Em consideração pela minha provecta idade, compreendo que me chame jurássico.
- Perdão...
- Nem pense que lhe vou dar a mão, a menos que esteja mesmo necessitado. Por que havia de ser eu a transportar as malas para o seu quarto? A propósito é ao fundo, do lado direito. Não se engane por favor, pois embora Macau tenha uma certa fama, não costumo partilhar o leito com portugueses.
- Receio que esteja a haver um mal-entendido.
- Não me fiz compreendido? É porque está cá há pouco tempo. Não imagina o que muita gente diz de Macau.
- Até agora estive num hotel, onde havia poucas oportunidades para aprofundar conversas sobre a cidade. Porém imagino que tenha coisas boas e, como todas, algum mal.
- Macau tem muito sal, lá isso tem!
- Desculpe, sei que é chinês, e creio que local, quanto à terra, reconheço-lhe picante e sal, porém não será só maravilhas...
- Não, não tem muitas ilhas, apenas três: Macau, Taipa e Coloane. Sabe falar chinês?
- Aprendo há um mês.
- Ah, já sabe contar até três. Vai continuar?
- Se tiver paciência. Noto que está a desconversar. Sabe o que dizem: que esta terra é de perdição.
- É verdade, tem muita acção.
- Nos casinos?
- Hinos só nas Igrejas, e há imensas portuguesas.
- Não disse que era tudo mau nesta terra das maravilhas...
- Sei o que digo, não me ponho com fantasias. Aqui há gente de todas as idades e a grande maioria vive como deve ser.
- Queira desculpar, mas está-se a fazer tarde, vou deitar-me, pois aguarda-me amanhã um longo dia. Muito se trabalha nesta terra!
- O Gabriel está em guerra? Só se for consigo próprio. Teve um convite da nossa firma para vir até Macau, pagam-lhe pelo que faz e até lhe deram a possibilidade de repartir o apartamento com um dos funcionários mais antigos da firma. Quer melhor que isto?
- Não me estava a queixar, porém os chineses têm ritmos de trabalho constantes.
- Pode comer lagostas e lavagantes? Os chineses são fascinantes? Não é preciso exagerar. Gostamos de o ter cá, mas se utilizar grandes palavras, começamos a desconfiar.
- Perdoe-me a franqueza, o senhor ouve mal, por isso tem estado a trocar as minhas palavras.
- Tenho estado a revelar as suas palavras? Vá descansar, porque amanhã tem que se levantar cedo. Gosto de o receber cá em casa, tenho a certeza que ainda nos vamos divertir muito.
Gabriel procurou esboçar um sorriso, depois encaminhou-se lentamente para o quarto. Não estava assim tão certo que fosse fácil conviver com um surdo. De repente, foi assaltado por uma dúvida: Qual deles seria o surdo?
Ana Cristina Alves- Professora Convidada do Departamento de Português da Universidade de Macau, onde lecciona as disciplinas de Questões Culturais na Tradução do Chinês/Português e Português Avançado. Colabora na Revista de Cultura e tem vários trabalhos publicados, entre os quais a tese de Doutoramento em versão encurtada, A Mulher na China (2007) e A Sabedoria Chinesa (2005), sendo ainda co-autora com Wang uoying de Contos da Terra do Dragão (2000) e Mitos e Lendas da Terra do Dragão (2010).
Este blogue é sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.
Irene Maria F. Blayer was born in Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada. She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo que contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.
Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.
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