FECHAR
Quarta, 19 de Junho de 2013
Pesquisa na RTP Açores - Informação e Desporto

Graciosa Online

Porque nem todas as imagens cabem no Telejornal. Nem todos os graciosenses vivem na Graciosa. Este é um blogue com vídeos da ilha.

Luís Costa

2012-07-04 00:00:57

Animador invulgar e lutador




Valter da Cunha Melo

(12/02/1934 - 22/03/2011)


Quando o navio Ponta Delgada se aproximava do porto de Santa Cruz ou da Praia, surgia ao fundo uma lancha com o Cabo do Mar a bordo que, com uma bandeira, sinalizava o local apropriado para o comandante da embarcação mandar arrear a âncora. Esta manobra era fundamental pois permitia aos conhecedores das baías escolher um bom fundo e dá-lo a perceber ao comandante e assim evitar a perda de tão importante equipamento. A partir do fundeadouro o serviço de desembarque e embarque fazia-se num lento vaivém desta frágil embarcação de madeira.

De seguida a lancha voltava ao cais e trocava o Cabo do Mar pelo senhor Valter Melo e dirigia-se novamente ao navio, encostando-se à escada do portaló feita de madeira e cabos, dependurada no través do navio. Com a ajuda de um dos marinheiros, que se colocava estrategicamente no patamar ao fundo da escada, o senhor Valter era a primeira pessoa a entrar no Ponta Delgada, sempre acompanhado por uma pasta com a listagem dos passageiros a embarcar e outra papelada necessária ao despacho. Naquela altura já havia grande azáfama, com os passageiros a prepararem-se para o desembarque. O senhor Valter, passava pelo portaló em passo apressado e perdia-se no convés por entre os passageiros em direção ao conferente de bordo para tratar da burocracia. Depois, a partir do navio, acompanhava toda a operação de desembarque e embarque dos passageiros e só regressava a terra na última lancha, cerca de 2 horas depois da chegada.

Primeiro o senhor Valter foi despachante oficial das Alfândegas. Depois da desativação daquele serviço nesta ilha, nos anos 70, ingressa na Empresa Insulana de Navegação. Mais tarde torna-se correspondente do Banco Português do Atlântico e inicia o percurso de mediador de seguros, tendo sido agente da Tranquilidade, função que exerceu até à sua reforma.

O senhor Valter Melo era daquele tipo de pessoas que não deixava ninguém indiferente. Muito alegre e sempre bem-disposto o senhor Valter destacava-se naturalmente em qualquer grupo, por ser o centro de todas as atenções. Tinha uma enorme facilidade para contar uma história e fazia humor a partir de uma qualquer banalidade. Conseguia arrancar gargalhadas dos amigos com muita facilidade, mesmo com histórias que a partir da boca de outros não teriam piada nenhuma. Estava sempre pronto para participar em convívios com os amigos que, normalmente, acabavam com ele a cantar músicas do reportório popular, sempre acompanhado pelo seu cunhado Serra, de quem era, também, inseparável amigo.

Este seu registo de pessoa divertida e bem-disposta contrastava, e muito, com a sua postura no campo profissional, que encarava com muita seriedade e reconhecida competência, em todas as funções que desempenhou ao longo da sua vida. Como é recomendável conseguia sempre manter uma fronteira bem definida entre o trabalho e o divertimento, nunca misturando as duas coisas.

Há alguns anos atrás foi-lhe diagnosticada uma doença grave que o obrigou a diversas e prolongadas deslocações para o respetivo tratamento. A grande maioria das pessoas, perante uma notícia destas, claudicaria, com toda a certeza. A gravidade desta situação complicada nunca lhe tirou a alegria de viver, nem amenizou o seu espírito brincalhão. Lutou diariamente contra esta doença e no final saiu vencedor. Sem dúvida que a experiência de vida deste homem e a sua reação à adversidade é um exemplo para todos nós, sobretudo para aqueles que se deixam abater perante a primeira contrariedade.

O senhor Valter Melo tinha uma grande paixão pelo "seu" Graciosa Futebol Clube. Naquele clube fez de tudo. Foi jogador durante anos e anos. Lembro-me de o ver jogar, no Campo Grande ou no Campo da Avenida. Na altura eu não tinha qualquer capacidade para avaliar um jogador, mas dizem-me que foi grande nesta modalidade. Foi também dirigente, incluindo presidente da direção. Aliás, deve ter desempenhado todos, ou quase todos, os cargos existentes nos corpos sociais do clube.

Quando o clube estava instalado na casa da senhora Carolina Maria, na Rua Dr. João de Deus Vieira, as festas de aniversário daquela instituição ocorriam, muitas vezes, na sua casa de campo, a Vivenda Verde, situada no Jardim. Eram momentos mágicos que pude assistir uma ou outra vez, levado pela mão do meu irmão, e que agora gosto de recordar com uma certa nostalgia.

Nos anos 80 foi preponderante na decisão de se construir uma sede social de raiz, em parceria com outros adeptos daquela instituição. Ele fez parte de um grupo de pessoas que meteu mãos à obra, literalmente, e ajudou a construir aquele edifício que agora muito orgulha os seus sócios.

Depois de deixar de jogar, ainda fez uma perninha num clube criado quase por brincadeira, o Falta de Ar, constituído por atletas já há muito retirados ou jogadores improváveis, que participava em atividades locais, tendo, inclusivamente, vencido uma prova nas Festas de Santo Cristo, perante os incrédulos jovens que faziam parte das equipas regulares, onde eu próprio me incluía.

Vi-o também jogar voleibol, no campo de S. Francisco nas tardes de verão, onde se assumia com líder e com quem todos gostavam de jogar. Eram jogatanas animadíssimas em que a piada fácil, especialidade do senhor Valter, alternava com as picardias próprias de jogos muito disputados. As pessoas, depois dos seus trabalhos, juntavam-se ali, equipados tal como estavam vestidos, marcavam o campo com cal e montavam a rede que normalmente ficava guardada no saguão do tribunal, tal como a única bola existente. Dividiam-se as pessoas em dois grupos e escolhia-se alguém da assistência para dirigir o jogo em cima de um banco cinzento retirado das sentinas, localizadas mesmo ali ao lado. Não interessava se o eleito percebia ou não da matéria, o que era imprescindível é que fosse capaz de manter a ordem. Juntava-se ali uma animada assistência que acompanhava o jogo que só terminava ao cair da noite.

Era um grande animador dos bailes do seu clube de sempre. Conseguia transformar facilmente uma noite sem brilho num baile memorável. Com a sua maneira de ser e a sua alegria, arrastava os presentes para as coreografias inventadas por ele na hora, ao ritmo das marchas tocadas pelo conjunto do Graciosa Futebol Clube, onde se destacava a voz e a trompete do saudoso Gasparinho, o saxofone do Acácio e a viola ritmo ou o órgão elétrico tocados pelo Valdemiro.

Nos serões que passava no Graciosa gostava de jogar à sueca ou ao dominó com o seu grupo de amigos. Foi também ator de teatro no grupo da Filarmónica Recreio dos Artistas, representando papéis que combinavam com a sua personalidade, ou seja, divertidos.

O senhor Valter Melo foi um animador invulgar e também um lutador que soube combater a adversidade com a única arma que tinha: a alegria de viver. Sem dúvida que o seu percurso de vida marcou várias gerações, uma das quais a minha.


 

por: José Ávila



A Graciosa está aqui. Porque nem todas as imagens cabem no Telejornal e nem todos os graciosenses vivem na Graciosa. O Graciosa Online é um blogue com vídeos, noticias e opinião da ilha branca, reserva da biosfera. Esta é a nossa janela para o mundo.

Projeto pioneiro nos Açores, desenvolvido por Luís Costa, jornalista, repórter residente da RTP/Açores na ilha Graciosa. Criado a 17 de novembro de 2009.

Este blogue foi "caso de estudo" na tese de mestrado da jornalista Fabiana Bravo: "O jornalismo hiper-local na era digital - o contributo do Graciosa Online para a RTP", defendida a 16 de julho de 2012 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e obteve 16 valores.





Acessos em junho;  10.980 visitas
Acessos em maio; 19.881 visitas
Tempo médio por visita: 04:11m

RECORDES
Mensal: dezembro 2012; 48.780 visitas
Diário: 28 novembro 2012; 4.508 visitas





 


Luís Miguel da Cunha Costa nasceu na ilha Graciosa em 1978-04-06. Em setembro de 1996, ainda com o estatuto de trabalhador estudante, iniciou funções de animador, repórter de informação e narrador desportivo na Rádio Graciosa. Foi também colaborador do jornal Diário Insular na área do desporto. É reporter de ilha da RDP desde fevereiro de 1999 e da RTP desde agosto de 2004, sendo o primeiro correspondente a prestar serviços nos Açores para a rádio e televisão em simultâneo, ainda antes da fusão das respetivas empresas. Foi também pioneiro na utilização das ferramentas digitais com o lançamento do "graciosa online" em 2009. É colaborador da Rádio Graciosa e do mensal "O Breves". Exerce ainda as funções de operador de assistência em escala, sendo efetivo da Sata Air Açores, a tempo parcial, desde 2001.



CONTACTOS
919978824 | 965420190
luiscosta.rtp@gmail.com

 
 




 

O TEMPO



Tempo Graciosa





Animação de Satélite 

Animação Satélite



  





OPINIÃO


 



   
  
ULTIMAS

Como considera a visita do governo à Graciosa? 
Sem novidades - 63 votos (54%)
Bons resultados - 29 votos (25%)
Esperava melhor - 24 votos (21%)


 

CRÓNICAS

Clique nas fotos para abrir


  André                   Bruno                   Cristina
  Cunha                  Silveira                 Cabeceiras 
 NOME     NOME     NOME

  Fábio                    Gabriel                 Joana
  Mendes                 Melo                    Ferreira
 NOME     NOME     NOME

  Jorge                    Júlio                     Luís
  Cunha                  Mendonça          Lobão
 NOME     NOME     NOME 

  Lurdes                 Madalena              M. Jorge
  Cunha                  Picanço                 Lobão
 NOME     NOME     NOME 

 Marco                    Merçes                 Miguel 
 Martins                  Coelho                 Estorninho
 NOME     NOME     NOME 

Paulo                       Rita                        Rita
Aranha                    Ávila                      Silva
      NOME     NOME

Rogério                  Rui                      Sérgio     
Mendonça              Carneiro            Mendonça
  mce_href=     NOME     NOME

Sofia                     Teresa                  Vânia  
Rocha                   Reis                      Bettencourt 
 NOME     NOME     NOME

Victor                   William
Rui Dores             Brenuvida
 NOME     NOME




  Luís               Tiago                            José
  Pereira          Avelar                           Ávila
  NOME             NOME 



  Pólo Local de Prevenção  
  e Combate à Violência Doméstica da Graciosa
 NOME  







VIDEOS RECENTES



Duarte Freitas visita as termas
 


João Cunha (obras da praça)
 


XVI Audição Coral
 


VII Reunião de Saúde Oral
 


Visita de Anibal Pires
 


Inauguração das obras da praça
 




  


 

EM CARTAZ


 
 

 


 

 






AGENDA CULTURAL

Museu da Graciosa 

 
 




 

CINEMA

Centro Cultural da Ilha Graciosa



 
 




Bilheteira: 20h30 | Sessão: 21h30




 

GRACIOSA LHE CHAMARAM...


 

A Ilha Graciosa desenha-se ao longe
como dois bocados de pão mal partidos

Vitorino Nemésio, in
Corsário das Ilhas





Ei-la surgindo mimosa
das águas do fundo do mar,
Rainha leda e garbosa
No Atlântico a reinar!
Esmeralda dos Açores,
Lindo açafate de flores,
Feitiço de mil primores,
Berço gentil de amores!
Oh, pátria, te vou cantar.

António Gil, 1868





A Graciosa dum verde
muito tenro acabando
dum lado e do outro
em penhascos decorativos...

Raul Brandão, in
As Ilhas Desconhecidas





"À primeira vista" parece por vezes, ser uma paisagem agreste; mas logo surge uma encosta florida, uma Feteira de arvoredo frondoso, um vale das Courelas com suas culturas e os afamados vinhedos da Terra do Conde, e outros motivos que nos alegram a vista.

José Simões Borges, in
Manhãs de Sábado 





Amo as rochas empinhadas
que ao oeste e norte dão
- pontas da serra escalvadas
- Do Pico Negro a negridão;
Amo as costas do nascente
Onde as ondas mansamente
Vão quebrar sua corrente
No areal tão luzente
Do sol ao mago clarão.

António Gil, 1868





Quem te pôs nome tão
lindo,
Que é tão próprio,
tão teu,
Nos legou eterna prova
Do bom gosto e génio seu...

António Borges do Canto Moniz, in
Ilha Graciosa





Falar desta ilha é,
antes demais,
falar do paraíso perdido
na minha infância,
isto é, da alegria
dos meus verdes anos.

Victor Rui Dores, in
A Graciosa Ilha





Que risonho panorama,
Que subline inspiração!
Se o meu estro se par'cesse
Ao que o sente o coração,
Em torrentes de poesia
Te inundara, ilha formosa.
E um poema escreveria,
Que eu chamara - GRACIOSA.

João Hermeto d'Amarante, in
Páginas de Prosa e Verso





Santa Cruz, a capital
É a mais linda p'ra mim
das vilas de Portugal
Santa Cruz é um jardim.
Guadalupe, linda aldeia
Onde crescem os trigais
No céu, linda lua cheia
Ilumina seus casais.
A Praia olhando o mar
Sorri contente ao ilhéu
E o sul vive a sonhar
Com a Luz olhando o céu.

Juventino Silva Correia, in
Juventino Ramos, poeta cantador





E aquela gente!!! De sorriso sempre aberto, mesmo que o coração se lhes doa, mesmo que a velhice as consuma, mesmo que a pobreza se lhes aperte...

Rosa Meireles, in
Graciosa ilha serena 





Aqui
entre o azul
e o mar que me circunda
é quase perfeita a coincidência.
Atrevida e fugazmente desfeita
por um verde envergonhado
que acaba sempre azul
ou categoricamente esfacelada
por um inequívoco e invernal
cinzento.

E no âmago do liquido,
lá onde a luz se perde
e onde a luz se faz,
a abissal fosforescência
de peixes misteriosos,
a ondulante e sensual
insinuação das algas
e a secreta e vital marca
do mais remoto início.

E lá ficamos
plasmados num horizonte
vertical e marítimo
onde bate sereno e azul
o nosso olhar.
Ouve-se então
claro e inconfundível
o grito
da criação. 

Manuel Jorge Lobão, in
Passam Seres Luminosos Vestidos de Vermelho 





Aqui deixamos a
Ilha Graciosa,
ao por do sol,
que fica à espera
daqueles que sabem
apreciar a natureza
em toda a sua força,
por vezes quase
selvagem!

Norberto da Cunha Pacheco, in
Graciosa, Imagens e Palavras





Branca,
desmaia-te o gesto
na brisa que poisa,
borboleia-te
a cor do íris
que poiso breve,
melodia-te
o negro azulado,
húmido,
do grito em serenata,
rendeia-te
o frio de chuva,
bailarino
voado em vento,
baralha-te
o pingo de água,
lágrima de telha,
beiral
de nada abrigo...

José Berto
 

        
DomSegTerQuaQuiSexSab
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30