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Porque nem todas as imagens cabem no Telejornal. Nem todos os graciosenses vivem na Graciosa. Este é um blogue com vídeos da ilha.
Não foi ainda há um mês que a Sociedade Filarmónica União Praiense (SFUP) comemorou o seu 123º aniversário. Através deste artigo aproveito para homenagear o trabalho de todas as instituições do género, em especial a SFUP, à qual já estava ligado muito antes de nascer.
Durante o século XIX despontaram por todas as ilhas dos Açores as primeiras bandas filarmónicas, algumas delas ainda em atividade. A Graciosa, na época bastante precoce em termos culturais, assistiu à fundação de três bandas filarmónicas. A primeira foi organizada em 1857. Exemplo de união por via da música, era constituída por praienses e santacruzenses e manteve-se ativa durante quatro anos sob a regência de Joaquim Alberto Lança, músico militar. A segunda a ser fundada na Graciosa foi a FILARMÓNICA GRACIOSENSE. A efeméride ocorreu no ano de 1868. O seu maestro e principal dinamizador foi Manuel Mendes Enes, pai de Palmira Mendes Enes. A terceira filarmónica graciosense a ser formada seria a Sociedade Filarmónica União Praiense[1] em 1889, designada à data da fundação como SOCIEDADE ARTÍSTICA UNIÃO PRAIENSE. O período em que foi fundada viria a ser um dos mais conturbados da História de Portugal. Após o curto período de prosperidade trazido por Fontes Pereira de Melo, o final do século XIX trouxe grande instabilidade política. A decadência da monarquia portuguesa acentuava-se (vexame do Ultimato Inglês) e os republicanos ganhavam cada vez mais força[2], inspirados pela proclamação da República no Brasil em 15 de Novembro de 1889 e descontentes com as atitudes políticas de D. Carlos. Terão sido estes alguns dos temas de conversa entre os membros da SFUP nos primeiros anos da sua existência.
Muitos assuntos poderiam ser aqui abordados a pretexto da SFUP. O seu longo e rico percurso assim o justificaria. Pretendo, no entanto, falar de um tema que me interessa particularmente - a união de pessoas com origens sociais tão distintas sob a insígnia da música. Entre os vários fundadores da SFUP constavam indivíduos da elite política e económica da Praia, alguns com bastante projeção fora da Graciosa. Nomeio, a título de exemplo, duas figuras de proa na época - o senador Francisco Vicente Ramos[3] e o Dr. João Álvaro de Brito e Albuquerque[4]. O senador Vicente Ramos (1860-1930), natural da ilha Terceira, foi advogado provisório da comarca de Santa Cruz, juiz subsituto e administrador do concelho. Na I República foi eleito para o Congresso em representação do distrito de Angra, tendo desempenhado a função de senador entre 1916 e 1926. Entre Dezembro de 1917 e Fevereiro de 1919 foi Governador Civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo[5]. Nos últimos anos de vida foi funcionário do Ministério da Agricultura, tendo falecido em Lisboa. Foi ele, inclusive, que gentilmente cedeu parte da sua propriedade para primeira sede da SFUP sita na Rua do Barão da Fonte do Mato, atual residência de Leopoldo de Vasconcelos Moniz.
O dr. Brito e Albuquerque (1850-1907) é um dos mais ilustres filhos da Graciosa. Descendente de D. Afonso Henriques[6], era neto (materno) de António da Cunha Silveira de Bettencourt, 1º Barão da Fonte do Mato. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra em 1873 e a ele deve a SFUP a redação dos seus primeiros estatutos. O dr. Brito e Albuquerque foi acima de tudo um dos maiores defensores dos ideais republicanos, por um lado, e da autonomia administrativa dos Açores, por outro. No jornal A ILHA GRACIOSA[7] podem ser lidos alguns dos seus interessantes artigos onde expressava claramente os seus ideais.
O título deste artigo, para quem o leu até aqui, parece não fazer sentido. Agora já vai fazer. Um dos principais emblemas republicanos diz respeito ao mérito individual. Por essa razão a SFUP não acolheu na sua génese apenas personalidades excecionais. Convivendo lado a lado, orientados pela mesma batuta, podíamos encontrar membros da alta burguesia, da velha aristocracia e homens comuns, trabalhadores rurais, como era o caso de Manuel de Sousa da Silva. Nascido no lugar de Lagoa, na casa que testemunhou a morte de duas crianças carbonizadas num incêndio não há muito tempo, Manuel de Sousa da Silva[8] era um humilde trabalhador rural. Mas sabia ler e escrever. Foi dos primeiros músicos da banda (bombardino) e também assinou a ata da sua fundação.
Com um perfil social tão heterogéneo, a SFUP serviu de laboratório para a implementação dos valores republicanos. O mérito individual sobrepôs-se, assim, ao valor do berço ou do sobrenome. Esta heterogeneidade social que galanteia a SFUP desde a sua fundação talvez tenha sido um dos segredos para o seu sucesso. Que assim continue a ser. Quanto a Manuel de Sousa da Silva, faleceu nos EUA no início do século XX e era meu trisavô.
[1] A rua que sai do atual Largo Senador Vicente Ramos (praça) até à atual sede da SFUP tem o seu nome.
[2] A cidade do Porto seria a primeira a proclamar a República pela voz do dr. Alves da Veiga como resultado da conhecida revolta de 31 de Janeiro de 1891. Até ser proclamada oficialmente ainda se passariam mais 19 anos.
[3] A praça da Praia (junto da Igreja Matriz) tem o seu nome.
[4] A rua onde viveu tem hoje o seu nome (desde o Lar de São Mateus até ao cruzamento com o Caminho do Pinheiro).
[5] Fonte: Wikipédia.
[6] Fonte: www.geneall.net
[7] Espólio do Museu da Graciosa.
[8] Na foto da fundação da SFUP é o sexto (da esquerda para a direita) da última fila.
A Graciosa está aqui. Porque nem todas as imagens cabem no Telejornal e nem todos os graciosenses vivem na Graciosa. O Graciosa Online é um blogue com vídeos, noticias e opinião da ilha branca, reserva da biosfera. Esta é a nossa janela para o mundo.
Projeto pioneiro nos Açores, desenvolvido por Luís Costa, jornalista, repórter residente da RTP/Açores na ilha Graciosa. Criado a 17 de novembro de 2009.
Este blogue foi "caso de estudo" na tese de mestrado da jornalista Fabiana Bravo: "O jornalismo hiper-local na era digital - o contributo do Graciosa Online para a RTP", defendida a 16 de julho de 2012 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e obteve 16 valores.

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CRÓNICAS
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André Bruno Cristina
Cunha Silveira Cabeceiras
Fábio Gabriel Joana
Mendes Melo Ferreira
Jorge Júlio Luís
Cunha Mendonça Lobão
Lurdes Madalena M. Jorge
Cunha Picanço Lobão
Marco Merçes Miguel
Martins Coelho Estorninho
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Aranha Ávila Silva
Rogério Rui Sérgio
Mendonça Carneiro Mendonça
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Rocha Reis Bettencourt
Victor William
Rui Dores Brenuvida
Luís Tiago José
Pereira Avelar Ávila
Pólo Local de Prevenção
e Combate à Violência Doméstica da Graciosa
VIDEOS RECENTES
Duarte Freitas visita as termas
João Cunha (obras da praça)
XVI Audição Coral
VII Reunião de Saúde Oral
Visita de Anibal Pires
Inauguração das obras da praça
EM CARTAZ

AGENDA CULTURAL
Museu da Graciosa
CINEMA
Centro Cultural da Ilha Graciosa
Bilheteira: 20h30 | Sessão: 21h30
GRACIOSA LHE CHAMARAM...
A Ilha Graciosa desenha-se ao longe
como dois bocados de pão mal partidos
Vitorino Nemésio, in
Corsário das Ilhas
Ei-la surgindo mimosa
das águas do fundo do mar,
Rainha leda e garbosa
No Atlântico a reinar!
Esmeralda dos Açores,
Lindo açafate de flores,
Feitiço de mil primores,
Berço gentil de amores!
Oh, pátria, te vou cantar.
António Gil, 1868
A Graciosa dum verde
muito tenro acabando
dum lado e do outro
em penhascos decorativos...
Raul Brandão, in
As Ilhas Desconhecidas"À primeira vista" parece por vezes, ser uma paisagem agreste; mas logo surge uma encosta florida, uma Feteira de arvoredo frondoso, um vale das Courelas com suas culturas e os afamados vinhedos da Terra do Conde, e outros motivos que nos alegram a vista.
José Simões Borges, in
Manhãs de Sábado Amo as rochas empinhadas
que ao oeste e norte dão
- pontas da serra escalvadas
- Do Pico Negro a negridão;
Amo as costas do nascente
Onde as ondas mansamente
Vão quebrar sua corrente
No areal tão luzente
Do sol ao mago clarão.
António Gil, 1868
Quem te pôs nome tão
lindo,
Que é tão próprio,
tão teu,
Nos legou eterna prova
Do bom gosto e génio seu...
António Borges do Canto Moniz, in
Ilha Graciosa
Falar desta ilha é,
antes demais,
falar do paraíso perdido
na minha infância,
isto é, da alegria
dos meus verdes anos.
Victor Rui Dores, in
A Graciosa Ilha
Que risonho panorama,
Que subline inspiração!
Se o meu estro se par'cesse
Ao que o sente o coração,
Em torrentes de poesia
Te inundara, ilha formosa.
E um poema escreveria,
Que eu chamara - GRACIOSA.
João Hermeto d'Amarante, in
Páginas de Prosa e Verso Santa Cruz, a capital
É a mais linda p'ra mim
das vilas de Portugal
Santa Cruz é um jardim.
Guadalupe, linda aldeia
Onde crescem os trigais
No céu, linda lua cheia
Ilumina seus casais.
A Praia olhando o mar
Sorri contente ao ilhéu
E o sul vive a sonhar
Com a Luz olhando o céu.
Juventino Silva Correia, in
Juventino Ramos, poeta cantador
E aquela gente!!! De sorriso sempre aberto, mesmo que o coração se lhes doa, mesmo que a velhice as consuma, mesmo que a pobreza se lhes aperte...
Rosa Meireles, in
Graciosa ilha serena
Aqui
entre o azul
e o mar que me circunda
é quase perfeita a coincidência.
Atrevida e fugazmente desfeita
por um verde envergonhado
que acaba sempre azul
ou categoricamente esfacelada
por um inequívoco e invernal
cinzento.
E no âmago do liquido,
lá onde a luz se perde
e onde a luz se faz,
a abissal fosforescência
de peixes misteriosos,
a ondulante e sensual
insinuação das algas
e a secreta e vital marca
do mais remoto início.
E lá ficamos
plasmados num horizonte
vertical e marítimo
onde bate sereno e azul
o nosso olhar.
Ouve-se então
claro e inconfundível
o grito
da criação.
Manuel Jorge Lobão, in
Passam Seres Luminosos Vestidos de Vermelho
Aqui deixamos a
Ilha Graciosa,
ao por do sol,
que fica à espera
daqueles que sabem
apreciar a natureza
em toda a sua força,
por vezes quase
selvagem!
Norberto da Cunha Pacheco, in
Graciosa, Imagens e Palavras
Branca,
desmaia-te o gesto
na brisa que poisa,
borboleia-te
a cor do íris
que poiso breve,
melodia-te
o negro azulado,
húmido,
do grito em serenata,
rendeia-te
o frio de chuva,
bailarino
voado em vento,
baralha-te
o pingo de água,
lágrima de telha,
beiral
de nada abrigo...
José Berto