Grandes Livros

"Grandes Livros" é um projecto multi-plataforma de divulgação da literatura portuguesa que
envolve uma série de 12 documentários, com 50 minutos cada, narrados por Diogo Infante, actor
e director do Teatro Nacional D. Mª II.

Diogo Infante

2011-01-10 15:28:29

"Crónicas de Fernão Lopes"

O século XIV foi, à falta de melhor termo, uma das épocas mais complicadas, difíceis e indecisas por que Portugal passou.
Crónicas de Fernão Lopes
Tiago Diogo é Fernão Lopes

Uma nova dinastia, muito sangue derramado, a ameaça castelhana e, pela primeira vez, um tal primor na intriga política são motivos de sobra para que esta(s) história(s) merecesse(m) um lugar de destaque na literatura portuguesa... porque alguém a registou e porque os seus escritos nos chegaram. Mas Fernão Lopes, nome desse incansável escrivão, foi mais do que um mero registador de acontecimentos. Com um faro jornalístico, uma curiosidade incansável e um precoce rigor na recolha e tratamento dos dados, as suas Crónicas são um tesouro não só literário como historiográfico. D. Pedro, D. Fernando, D. João e D. Duarte foram quatro monarcas portugueses, mas, depois de Fernão Lopes, surgem-nos como quatro homens, com responsabilidades imensuráveis sobre os ombros, rodeados por amigos, inimigos, traidores e mártires. Momentos como a Batalha de Aljubarrota, além das informações que apresenta e que seriam impossíveis de obter de outra forma, são épicos pintados por pinceladas de humanidade, em que o medo é representado pelo que é e a coragem é devida aos heróis que a distribuíam. Depois de Fernão Lopes, a literatura portuguesa teve heróis humanos e uma técnica narrativa sublime pela sua abrangência.
por: Grandes Livros
Tags: Fernão Lopes

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2011-01-03 11:45:08

"Rimas" de Manuel Maria Barbosa du bocage

Se um poeta pode ter obra, Bocage foi o magno exemplo de quem a construiu... mas cujo rasto se dispersou por todos aqueles que o ouviram.
Rimas de Manuel Maria Barbosa du bocage
Bocage

Estes três volumes das suas Rimas não passam de um resquício do que foi o génio deste português tão singular, em pleno século XVIII das "Luzes". Com publicação espaçada (o III volume já a título póstumo), e seguindo a ordem cronológica da sua composição (não diremos escrita, porque o repentismo era constante), estas compilações ilustram bem (porque as imagens são exemplares) a espontaneidade e, por outro lado, a perfeição formal que Bocage alcançou. De vida desregrada e preso aos vícios máximos da sua época (entre eles, a liberdade absoluta) Manuel Maria Barbosa du Bocage encontrou na beleza dos versos e, principalmente, na arte do soneto aquilo que buscou toda a desgraçada vida: a eternidade.
por: Grandes Livros
Tags: Bocage

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2010-12-13 11:03:43

"As Pupilas do Senhor Reitor" de Júlio Dinis

O amor não tem de ser sempre trágico ou regado a sangue para que uma história seja emocionante.
As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis
Jorge Albuquerque é Júlio Dinis

Em pleno período do Romantismo literário, um jovem médico português, ironicamente radicado em Ovar por motivos de saúde, construiu um romance simples, puro e suave. Em pleno desenvolvimento do território português - obras públicas de grande envergadura, cidades cada vez maiores -, Júlio Dinis (pseudónimo) coloca nos verdes prados de uma aldeia do Norte a vida romanceada de duas irmãs e dos seus respectivos pretendentes. Margarida e Clara são como água e azeite, com personalidades muito distintas. Se uma é a personificação da calma, do recato e da postura maternal, a outra vive da espontaneidade e da procura de sensações fortes. Do lado masculino surgem-nos, também, dois irmãos: Daniel e Pedro. O primeiro buscou fora da aldeia o que ela não lhe conseguia dar: uma vida diferente; o segundo, qual verdadeiro filho da terra,  personifica o homem do campo (simples, calejado) e é uma cópia mais jovem de José das Dornas (seu pai). A partir daqui, entra a novela... uma sucessão de episódios rocambolescos, de amores e desejos cruzados e de personagens secundárias que dão um aroma especial ao doce romance. João Semana e o Senhor Reitor são apenas dois exemplos de personagens que, longe das páginas de um livro, encontraram um espaço muito seu na cultura popular. Por fim, e na sequência dos folhetins que trouxeram esta história ao público-leitor, tudo se resume numa memória, em que uma jovem pastorinha canta para um rapaz deslumbrado pela sua voz.
por: Grandes Livros
Tags: Júlio Dinis

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2010-12-06 10:25:32

"São Paulo" de Teixeira de Pascoaes

Personagens bíblicos são sempre temas sensíveis, quando o objectivo é explorá-los literariamente. Pascoaes não teve receio de arriscar e eis uma biografia singular do arauto do Cristianismo: São Paulo.
São Paulo de Teixeira de Pascoaes

Homem complexo, que viu na perseguição dos cristãos o grande objectivo da sua primeira etapa de vida, Paulo converteu-se num dos maiores crentes das palavras que um outro homem, Jesus de Nazaré, legou à Humanidade. Na estrada de Damasco, em plena caça ao cristão, a queda do cavalo e a luz imensa que o cegou por momentos deram origem a uma missão que poucos poderiam prosseguir. Dessa revelação, em que ecoaram perguntas fundamentais ("Paulo, Paulo... porque me persegues?"), surgiu um novo homem e uma nova esperança para a religião que grassava pelo Império Romano, como um rastilho de pólvora sem falhas. Depois de Paulo e das suas viagens pelos cantos mais recônditos de um Império que tentava reprimir as ideias de Jesus, o Cristianismo floresceu e espalhou-se pelo mapa. Pascoaes, à semelhança de outras biografias que constroem a sua obra (Napoleão, São Jerónimo, são outros exemplos), teve no seu "São Paulo" um máximo lírico: cada frase soa a aforismo, numa poética construção da biografia de um santo. Se a revelação de Paulo lhe queimou os olhos e a alma, também Pascoaes nos consegue queimar a mente e regressar a cada frase para lhe extrair mais um pouco de beleza
por: Grandes Livros
Tags: Teixeira de Pascoaes

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2010-11-29 11:18:44

"Bichos" de Miguel Torga

Poeta telúrico, herdeiro da Terra dura e virgem que lhe emprestou o "ventre", Miguel Torga tem nos seus "Bichos" uma obra de teor distinto.
Bichos de Miguel Torga
Ana AfonsoPersonagens de "Bichos"

Nesta compilação de contos (14, no total), não existe uma distinção entre o humano e o animal, entre o ser racional e o ser que vive do instinto. Personificados ao máximo na sua "animalidade", os animais assumem almas quase humanas e os seres humanos descobrem-se na sua bestialidade. Torga mostra-nos os sentimentos (medos, alegrias, vontades e desejos) de touros (Miura), insectos (Cega-Rega), cães (Nero) e gatos (Mago), entre outros. Mas também os homens e mulheres que se desumanizaram (Madalena, Jesus, Senhor Nicolau), que perderam a sua capacidade de pensar, de agir conforme a sua índole, têm espaço para "falar" e inserem-se no mesmo molde. Bichos somos todos, afinal, quando a vida chega a um ponto em que deixa de fazer sentido para a razão que conhecemos.

Se este é um livro para crianças, tecido de pequenas histórias de animais que pensam e falam, há muito, muito mais escondido entre as suas páginas. Não é à toa que um corvo revoltado (Vicente ou Torga, se lermos nas entrelinhas), a voar rumo à liberdade, pode causar tanto frisson em pleno Estado Novo.

por: Grandes Livros
Tags: Miguel Torga

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