2014-03-11 14:42:51

Cobardia, desculpas para não viver.

Cobardia, desculpas para não viver.
"Caros Quintino e Raquel, boa noite. Peço desculpa por o contacto ser a coberto do anonimato, mas o que quero partilhar só assim pode ser revelado para além de um ambiente de sigilo clínico, por ser tão pessoal. Já vos oiço desde o início, mas apenas neste momento acabei de escrever o que é uma súmula da minha vida e que deixo à vossa consideração. Espero que algum dia tenham tempo de dar uma vista de olhos e debruçar-se sobre o tema, se acharem que será útil para outros ouvintes. Ou então, devolverem a mensagem neste perfil que apenas criei para este efeito. Agradeço a vossa companhia e o vosso tempo.

Quero outro sexo

É-me bastante difícil estar pela primeira vez a teclar os meus pensamentos em vez de utilizar a caneta e o papel. Todos os requebros da letra, a raiva de uma simples curva mais apertada ou o esborratado de uma linha contínua que sublinha uma palavra mais sentida, são perdidos no branco artificial da pantalha e sem qualquer textura. Acho que devia ser obrigatório que cada livro tivesse como a sua primeira página a reprodução da palavra escrita pelo seu autor. Ajudaria muito para conhecer um pouco mais da sua personalidade, pois a a letra própria é a nossa assinatura, e nela pomos o nosso sentir no momento em que escrevemos. De qualquer modo, tive de aceitar a rendição a esta forma de escrita, tal como já o havia feito quando passei a utilizar os rabiscos digitais em ilustrações, reservando a grafite para os parcos momentos artisticamente livres. Se assim não fosse, a voracidade do tempo digital teria atropelado completamente o meu trabalho, tornando-o obsoleto.

Isto vem à razão de que também tive de aceitar que bem entrados os quarenta, uma necessidade surge intensa; tudo o que saímos de nós em anos passados começa a regressar para que entremos novamente dentro de nós próprios, amadurecendo e pesando o que dos outros trouxemos para a nossa casa a reboque. Pode ser que me cresça um pouco de crosta em cima de feridas tão antigas que pareciam cicatrizes já invisíveis, mas que algo (penso que esta urgência em me redefinir) me fez repuxa-las e abri-las em buracos de sangue, dor e pus.

Sei que sempre me senti diferente. Muito antes de tudo começar. A mais remota recordação dos meus tempos de meninice era a matança dos cordeiros na Páscoa, instalados em cercados no terreno então livre, ao lado da Avenida de Fernão de Magalhães, com vista para as miseráveis ilhas do operariado das Eirinhas. Quando os circos vinham ao Porto, era ali também que abancavam caravanas e animais, para gozo dos nossos ávidos olhos de criança... Ficava sem voz na tristeza de ver tão ternos animais, pares para mim, serem degolados, esfolados e estripados como quem coça um olho. E ver o bichinho, ainda à pouco dentro do cercado a mordiscar uma erva que lhe estendíamos ficar com os olhos inertes, vazios... Todas aquelas peles, aquelas vísceras, espalhadas em redor de cada tamanca de cada vendedor... se tivesse nascido num Porto medievo acho que teria visto o mesmo tétrico espectáculo. Disseste uma asneira em desabafo? Vais pela orelha na mão de tua mãe provar o sabor do pimenteiro lá de casa, engolindo rios de água para acalmar o fogo... e já não te esqueces mais. Terá sido por isso mesmo? Quanto tempo se terá passado? Não o suficiente, porque ainda me lembro de estar no seu colo, como em tantas outras vezes, na inocência completa de criança, e de as suas mãos acariciarem partes de mim de que eu não tinha consciência... Então, fechava os olhos com força e fugia para ir ter com os meus heróis, em grandes planos de fugas a cavalo desabridas pelas pradarias de espingarda na mão, e já não era eu quem estava ali. Fechava os olhos com força e no meu completo silêncio ouvia a banda sonora do filme, com tiros e cascos que arrancavam pedras ao chão e ia até ao fim do mundo para fazer justiça, mesmo que não a conseguisse para mim. Sei que minha avó começou a estranhar que eu não quisesse regressar ao colo do seu marido como habitualmente fazia com a antiga alegria, em tardes que ela estava na cozinha, e em que a sala era o cenário para os meus filmes de heróis em projecção iniciada pelas suas mãos. Quando, um dia, talvez por tudo isto, caí febril na cama e ela me veio confortar, eu disse-lhe o que faziam as mãos dele no meu pequeno e inculto corpo, deixando-a com um rosto de total tempestade roxa que está prestes a desabar. Nunca mais uma palavra foi dita sobre este assunto até agora que o escrevo em letras negras neste écran. Também nunca mais ela nos deixou, por momentos apenas que fosse, sozinhos.

Apenas passados mais de trinta anos, pude ver o arrependimento no seu rosto. E perdoei-lhe. O cancro divertira-se a esculpir a sua figura imponente sob a forma de um esqueleto patético, curvado, amedrontado. Os olhos de morte com que me fitava pareciam mostrar que o mal que me tinha feito o espreitava e esperava já do outro lado da linha da vida.

Nem a escola primária era refúgio para nada. Tínhamos de provar o nosso valor em lutas quotidianas disputando o lugar cimeiro, quer entre colegas, quer perante a professora. E por muito que lhe possa dever a paixão pela língua, a sua severidade era lendária e passou das marcas quando agrediu de tal modo um colega nosso durante uma sessão de tabuada "cantada" (esse rapaz tinha um atraso mas não havia ensino "especial"); o seu balbuciar cada vez mais baixo a cada erro-chapada só acabou quando exaurido não resistiu à última pancada, abrindo a cabeça na queda contra o quadro de xisto, perdendo os sentidos perante uma classe de crianças completamente mudas de terror. Nesta altura lembro-me de os meus pais me terem levado a um pedopsiquiatra pois regredi na minha enurese nocturna. Isso era motivo de chacota por parte dos meus irmãos mais velhos, incluindo o que apenas tinha mais 4 anos do que eu, e que para mim era um ídolo que eu queria imitar sob todas as formas, por ser o que eu sentia como preferido dos meus pais e por toda a sua capacidade de entender como funcionavam os objectos que nos cercavam; bebia as suas explicações com enlevo e admiração. Esta situação durou até ao fim da escola primária, a par da descoberta de que se eu tivesse qualquer ferimento, arrancar a crosta que se formava diminuía a minha dor - talvez retirando aquela camada que sobressaía da lisa pele, pudesse também alisar a minha própria alma em sofrimento e repô-la num estado plano sem dolorosos altos e baixos. O agravar deste hábito condicionou mais tarde a minha frequência dos balneários na escola por ocasião das aulas de desporto, inventando todo o tipo de desculpas para só me equipar e tomar banho em casa, receando as explicações e o choque dos outros - o porquê de todas aquelas medalhas distribuídas por debaixo das linhas da roupa - de que também eu também não sabia a razão atendível. Sabia que a dor interior empurrava os meus dedos inapelavelmente para qualquer altinho de pele que existisse no meu corpo fora da vista alheia e que o demolir do mesmo me apaziguava; não sabia contudo explicar essa dor nem de onde ela vinha.

Não vou dizer que isto condicionou toda a minha vida, mas fez que com que o que veio a seguir viesse distorcido (sim, aí condicionou-me) e que fosse tentando todo o tipo de unguentos para amansar a dor da minha alma. Escusado será dizer que infernizei a vida ao meu pai até ele me inscrever num clube de hipismo, materializando o cavalo como símbolo da fuga para a minha liberdade. Durante dois anos chegava mais de duas horas antes de começar a minha aula, apenas para poder circular pelas cavalariças e passar a escova em tão belos seres, que resfolegavam de prazer a cada ternura minha. Sem palavras, comunicávamos apenas pelo olhar e pelos afagos. Adorava tanto quanto eles o ritual da limpeza, ver a sua descontracção traduzida num respirar cada vez mais espaçado e nos seus músculos descontraídos, permitindo-me então que passasse por baixo deles (gesto de suprema confiança) para continuar a escovar do outro lado na apertada boxe. Infelizmente, não sei o que terei despertado no instrutor que em cada visita para escolher a sela e os arreios para a montada de cada aula (a sala onde repousavam todos estes artefactos parecia-me uma sala do tesouro, com o seu cheiro de couro engraxado) também tentou procurar os mesmos recantos que o marido da minha avó no meu corpo, agora um pouco maior e mais avisado, conseguindo assim resistir a tais intenções. Novamente a total confusão encheu o meu pensamento. Que faria eu, que teria eu de tão diferente que acirrava a gula destes adultos?? A isto veio somar-se a minha progressão para o treino de salto de obstáculos, minando a confiança total que eu tinha adquirido em cima de tão belo animal. Galopava já sem sela e de braços abertos e de olhos fechados, numa total fusão com o movimento do cavalo. Um dia, quase uma tarde inteira de saltos com o obstáculo a ser progressivamente alteado, e a explicação e o treino para melhor deixar o corpo e o cavalo fluir no seu objectivo de o vencer. Até que a altura já era mais respeitável. E o cavalo sentiu o meu medo e, apesar de lançado no balanço travou e parou mesmo antes de saltar. Não mais esquecerei os berros do instrutor, despeitado comigo pela minha negativa aos seus avanços e com o cavalo, por não executar o que a sua voz de comando mandava. Nova volta ao picadeiro, o coração a saltar-me pelos ouvidos de tanto bombear e a mesma travagem no momento decisivo... Ele agigantou-se, vermelho de fúria e pegando no chicote, urrou: "ai saltas, se não saltas sim senhor!" Eu já engolia os soluços em cima da montada que tentava fugir ao chicote, desabrida, mas ele perseguia-nos até ao obstáculo no meio da pista; o cavalo espumava de contrariedade e meneava a cabeça para se furtar ao chicote; eu já só tentava segurar-me e não cair. Até que na última chicotada o cavalo saltou comigo em completo contra-ciclo no movimento ascendente e eu só me lembro de voar, o tempo ter parado, até aterrar de costas no chão e ficar sem respirar com o peito fechado num bloco inerte de dor. O cavalo debateu-se em coices pelo picadeiro fora relinchando a revolta e eu ouvia os berros dele exigindo que me levantasse e montasse novamente se é que alguma vez quereria fazê-lo a sério... sei que quando a respiração voltou, aos poucos consegui erguer-me e quando as pernas me permitiram uma pose firme, disse com uma voz que profunda e indignada: "Vá à merda." Virei costas e sai do picadeiro, sentindo que este era o meu último dia de exílio com tão belos animais.

Encontrei o lenitivo no mar, gozando de 3 meses de férias com a família na praia da Madalena, entre dunas, canas e amizades que se expandiam pelos dias fora cheios de sol e de nortada. As horas que passávamos nas rochas a pescar, os infindáveis mergulhos, as conversas sobre tudo e sobre nada estirados a tremer enquanto o sol nos aquecia por dentro e por fora, são inesquecíveis. Era delicioso descalçar os sapatos e deixar a pele dos pés e do corpo ganhar calo, correr em cima dos mexilhões ou do areão grosso como de relva se tratasse sem um "ui" de dor; passar horas dentro de água fundindo-nos com os movimentos das ondas até a pele roxa de frio nos obrigar a sair... Um dia, estando só com um companheiro cujo pai vinha pescar e lhe soltava a trela na chegada à praia por todo o dia (menino-homem pois o seu corpo era uma miniatura mesclada pelos carregos de massa a ajudar o pai na construção civil), começamos uma discussão da qual não me lembro o conteúdo. Lembro-me apenas de termos passado aos encontrões, e o meu corpo ainda era de criança não podendo por isso sobrepor-me a semelhante força. Rolamos no chão engalfinhados, e eu já exangue e sem fôlego após tão demorado tira-teimas de forças, os seus lábios procuraram os meus fundindo-se num primeiro beijo. Olhamo-nos com total perplexidade e vergonha após tal acontecimento, e nunca mais trocamos uma palavra ou um olhar directo até ao fim das férias. Não encontrava resposta para todas as inquietações e interrogações que estes acontecimentos me provocaram. Quando as aulas recomeçaram, comecei a frequentar a pequena capela onde sempre fui à missa com a família fora do horário das Eucaristias; havia um grupo de jovens que acolitava as celebrações unido em torno da figura do padre, um excelente homem idoso com total paralelismo na figura de Cristo, todos aceitando e compreendendo na diversidade e valorizando-nos por isso mesmo. Aqui deixo a minha eterna gratidão a tal figura ímpar e dificilmente repetível, de uma cultura diagonal e de total alteridade. Ensinou-me a tolerância e a melhor aceitação de nós próprios com palavras e gestos que ficaram indelevelmente marcados no meu coração.

Foi o meu orgulho poder executar todos aqueles ritos no altar, e entreguei-me de tal modo a tais tarefas que chegava a assistir a 3 e 4 missas por dia, acolitando a todas até ao fim da minha adolescência. O nosso grupo era coeso e tínhamos outras actividades lúdicas no espaço da capela, por autorização desse homem bom, que sempre nos apoiou e defendeu mesmo quando alguns excessos próprios da nossa irreverência chocavam alguns elementos da mesa associativa da paróquia (convenhamos que uma festa "rock" no salão por baixo da igreja com música ensurdecedora e generosa quantidade de bebidas para um grupo de ambos os sexos em mais do que animada confraternização foi mais do que motivo de escândalo, para um desses senhores que aí se dirigiu para verificar o que a vizinhança queixosa lhe fez chegar aos ouvidos). Contudo, antes de festa acabar, uma rapariga que também ia muito às missas que eu acolitava e que nunca tirava os olhos de mim, aproximou-se e pegou na minha mão puxando-me para um recanto mal iluminado perto do bar. Já havia pares em sôfregos e longos beijos e carícias acesas pelo álcool em corpos a isso tão pouco habituados, numa urgência de rastilhos curtos para tão grandes labaredas. Passei o meu braço pelos ombros dela e assim ficamos, sorrindo embaraçados pelo que se passava à volta, sem saber o que fazer com os outros membros do corpo. Então, ela aproximou os seus lábios dos meus e quase sem os tocar, depositou um beijo liquidescente que saboreei por longo tempo após esse ínfimo instante. Assim ficamos, abraçados, mudos, impotentes e desenquadrados das paixões à nossa volta que nos ignoravam na nossa insignificância. Nada mais lhe podia dar.

Desde a meninice que eu costumava usar o desenho para me expressar e tentar explicar os corpos e as vidas com que me cruzava, desbaratando resmas de papel e lápis de grafite, mas a partir daí esses mesmos corpos ganharam mais alma e uma subtil linguagem muda, que eu escutava com total assentimento. A minha ascese impeliu-me, depois de anos de frequência das artes marciais, a inscrever-me no Ginásio Haltere do Porto, para conseguir cansar um corpo hiperactivo a que nem os passeios de horas com os amigos (era vulgar irmos a Gaia a pé do Marquês, poupando os trocos da camioneta para outras coisas) e uns charros conseguiam apagar. Durante dois anos cumpri um ciclo doido de liceu, treinos e casa até lesionar o joelho direito e não mais poder levantar pesos. A operação no Hospital de S. João também não correu muito bem, nem a fisioterapia, e vi-me de muletas durante quase um ano com um membro atrofiado. Acho que foi aqui que a minha revolta me começou a acicatar a curiosidade por aquilo que eu sempre detestei e considerei uma fraqueza que tantos amigos me levou, a heroína. Coincidiu com a minha entrada no curso superior (queria ter cursado Belas Artes, mas para os meus pais isso era um curso para morrer à fome e não trabalhar) e nunca deixei de cumprir as minhas obrigações académicas. Nesta fase ainda estava a começar a testar a minha própria resistência à adicção, como todos os que se iniciam neste mundo pensam ser capazes. Igualmente, passei para o ensino nocturno e comecei a trabalhar durante o dia numa agência de publicidade, usando os meus rabiscos artísticos como modo de comprar a minha almejada moto, para ter a minha independência de tempo e espaço, dando a volta à total proibição de meu pai quanto ao meu objectivo ("a moto vai ser o teu caixão"). Não havia saídas aos fins de semana, não havia ninguém. Apenas alguns momentos no café com os velhos amigos que agora namoravam e trabalhavam, e algumas escapadelas com os que nada faziam para comprar o melhor pó. Nem sequer gostava de consumir com eles; ía para casa, e no meu quarto fechado do mundo, após as obrigações escolares, iniciava o ritual de desfazer o embrulho soltando cuidadosamente o conteúdo na prata, após ter feito um canudo também revestido a alumínio (para que até o vapor por aí aspirado  pudesse ser também aproveitado) e acendia o isqueiro, perseguindo aquela bolhinha castanha fervente enquanto guardava nos pulmões o máximo de tempo a descontracção e o relaxamento total que me trazia. Os meus sentidos ficavam completamente despertos. conseguia ouvir os rodados dos carros amarfanharem as poças de água sob os rodados com pressa de chegar a nenhures... Depois, pegava na grafite e desenhava para mim aquilo que sentia, sem obrigações nem preconceitos. Quando cheguei ao fim do curso já me era difícil cumprir com o meu trabalho, de modos que terminei a minha relação laboral e tentei então cumprir o meu sonho - ingressar nas Belas Artes por habilitação especial. Após um exame artístico de seis horas, em que uma plateia de mais de 40 pessoas teve de batalhar com as formas, as luzes e as sombras de uma natureza-morta, o resultado aniquilou-me: 70%. Havia 2 vagas e 3 notas superiores à minha... Tanta espera, tanto sacrifício para poder fazer aquilo que eu sentia como a minha vocação de vida, e foi a machadada final na minha pouca auto-confiança e o começo de uma estrada descendente até ao cheque-mate final dado pela minha irmã médica, que apesar de já casada não andava a dormir. Posso afirmar desapaixonadamente que nunca roubei ou me prostitui. Foram quase 3 anos de um desbaratar de dinheiro e saúde, até pesar 43 quilos de gente. Isto coincidiu com o processo de divórcio dos meus pais permitindo-me fugir a um controle familiar que estava em completa desagregação. Claro que havia estranheza quanto ao meu aspecto físico e à minha falta constante de dinheiro apesar de trabalhar, mas com uma desculpa bem esgalhada eu safava-me sempre.

Até à confrontação final da minha irmã terminar numa reclusão de semanas numa clínica de desintoxicação, em que pela primeira vez fiz um balanço de vida e encontrei a pessoa com quem estou há mais de 20 anos. Ambos destroçados, a minha primeira vez e a sua primeira (comigo), num enlace cúmplice e de apoio mútuo em todo este longo processo. Apenas uma combinação inicial - não haver filhos. Também não compreendo que raio de orgulho faz os seres humanos pensarem que metade do seu ADN é assim tão importante para a humanidade... Eu sinto totalmente o oposto. Nem metade dos meus pares de cromossomas gostaria de deixar neste mundo para ter nem que fosse uma das minhas dores ou interrogações. Ao fim de 43 anos, apenas uma me persegue; será que se eu tivesse nascido com o sexo que sinto e queria, seria uma pessoa diferente (teria outra história de vida e seria mais feliz)? Acho que neste ponto do caminho já não tenho a coragem de querer saber a resposta. A cobardia perante a minha família e a pessoa com quem partilho a vida não me permite querer avançar esse passo. Tenho apenas mágoa que há mais de 20 anos isso fosse algo impensável no nosso país. Assim sendo, fico no meio da ambiguidade da resposta.

Faço uns bons passeio a pé... sem ifones, ipodes ou quejandos mas apenas com um i invertido e curvo na mente como interrogação daquilo que absorvemos ao ritmo de cada passada e que nos questiona interiormente com a calma das coisas pensadas, com esforço para serem absorvidas. Um auto-diálogo extremamente frutuoso que é cada mais difícil de conseguir ter sem filtros entre nós e a realidade; penso que será cada vez mais um luxo, e que só os que conseguem recusar esta voragem de auto-casulo tecnológico terão acesso.

Vou farejando a beleza da carne crua na marginália da vida arrepiando-me com tanto estímulo... Sempre fui um ser senciente e com preocupações heurísticas, embora isso me tenha trazido um sofrimento amplificado. Espero ao menos conseguir ter a hombridade de permanecer tal como tenho sido."

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por : Raquel Bulha

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2014-03-11 14:38:49

Desejo enorme de ter filhos. Porquê a discriminação?

Desejo enorme de ter filhos. Porquê a discriminação?
"Olá Raquel. Olá Quintino. Há muito que vos quero escrever e sempre me retraio porque são tantas as coisas que gostaria de falar que me parece absurdo fazer tal participação. Ainda mais absurdo é vir agora a vocês com uma pergunta que em muitos sentidos acaba por ser retórica.
Sou um homem homossexual, professor de primeiro ciclo, com um desejo enorme de ter filhos. Durante a minha adolescência sempre achei, talvez motivado pelas limitações "procriativas" da minha orientação, que não queria ter filhos, mas o tempo passou, tive um namorado mais velho que queria urgentemente adotar e isso fez-me questionar muito o meu futuro e as minhas motivações. Fiz terapia durante ano e meio, resolvi muitos temas da adolescência que tinha por resolver e quando já me considerava bastante resolvido, a vida adulta instalou-se e eu permaneci adolescente. Há um ano atrás, quando falava com a minha mãe sobre a minha homossexualidade, ela, no seu entendimento de que é uma opção, disse-me "Eu gostava que fosse de outra forma, filho, porque vais sofrer tanto" e eu fingi que não era assim, mas a verdade é que hoje deparo comigo, um adulto feito, a trabalhar para patrões tacanhos dos quais tenho que esconder a minha condição, a viver junto com um homem que eu amo e com o qual não posso casar pelo medo da aceitação na minha profissão e a contribuir para um estado que não me reconhece os mesmos direitos que as outras pessoas só porque não tenho uma mulher a meu lado. Todos os dias vejo pais que se esquecem da existência dos filhos e sofro com o bem que eu poderia fazer a uma criança que ainda não tem pais. Todos os dias eu vejo pais que mesmo nas maiores agruras lutam pelos seus filhos e fazem perceber que quando se consegue amar alguém assim, quando se ama realmente um filho, tudo vale a pena. Por isso sou adolescente, porque vivo revoltado com estas situações. E agora pergunto, sabendo que uma resposta satisfatória não o terei, porque é que eu faço da minha vida educar os filhos dos outros e não posso ter um filho meu para educar? Porque é que por sermos dois homens numa casa, não podemos completar uma família? Porque é que somos menos cidadãos?"

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por : Raquel Bulha

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2014-03-11 14:33:00

A Hora do Sexo nas Universidades - Proposta de ouvinte

A Hora do Sexo nas Universidades - Proposta de ouvinte
"Boa tarde Raquel e Quintino;

Sou um ouvinte assíduo do vosso programa e desde já deixo os meu parabéns pelo trabalho que têm vindo a desenvolver.

Passo a expor a minha sugestão:
Ontem descobri um programa onde dois apresentadores de sexos opostos viajavam pelas universidades dos Estados Unidos fornecendo respostas a perguntas colocadas pelos alunos dessas mesmas universidades. Passando a publicidade, o programa chama-se "Savage U". Ora bem, as semelhanças entre o programa por vocês desenvolvido e esta série televisiva pareceram-me tão óbvias que só consigo imaginar bons resultados se vocês decidissem abraçar esta experiência. Viajar pelas universidades do país, respondendo às perguntas dos alunos dessas universidades e documentando tudo em episódios que poderiam ser transmitidos na televisão. A mim soa-me como uma excelente ideia, fica a proposta..."

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por : Raquel Bulha

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2014-03-05 17:01:01

Educação Sexual

Educação Sexual
"Bom dia.
Quero desde já dar-vos os parabéns pelo belíssimo trabalho que fazem diariamente em prol da nossa população.
Escrevo principalmente porque gostaria de saber em que estado se encontra educação sexual nas escolas do nosso pais.
Eu tenho 19 anos, e apesar de só há um par de anos ter deixado o ensino secundário, confesso que de pouco me recordo das minhas aulas de educação sexual. Lembro-me de que eram esporádicas e de que o principal assunto era a contracepção.
Outro assunto que me levou a escrever este e-mail e o assunto do cunilingua. Eu gosto imenso de o praticar com a minha parceira até porque me excita bastante excita-lá. Contudo, em algumas das vezes em que quero praticar o cunilingua, sinto alguma relutância nela. Será que só eu que esto a fazer algo mal? Ou terá a minha parceira rotulado o cunilingua como tabu?

Gosto muito de vos ouvir, continuação de um bom trabalho. "

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por : Raquel Bulha

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2014-03-05 16:53:55

Squirt

Squirt
"Em primeiro lugar parabéns pelo vosso programa.
O orgasmo feminino, conhecido pelos filmes porno, como "squirt", é real ou é falso? como é que uma mulher o pode atingir?"

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por : Raquel Bulha

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2014-03-05 16:48:23

Enfrentar os medos, sff.

Enfrentar os medos, sff.
"Olá Raquel e Quintino,
Sou ouvinte regular do vosso programa e venho hoje colocar-vos um questão que penso já terá sido abordada algumas vezes. No entanto, gostaria de ouvir de novo a vossa opinião.
Sou uma mulher de 32 anos, já tive um relacionamento, mas neste momento estou há já alguns anos sem me envolver com ninguém. Sinto interesse nalgumas pessoas com quem convivo, não sou propriamente a maior das beldades, mas penso que também não serei totalmente desinteressante.
Não costumo ser abordada pelo sexo oposto, provavelmente por ser um pouco tímida. Começo no entanto a achar que algo me está a escapar, que não devo estar a fazer alguma coisa bem, ou sou muito distraída e deixo passar as oportunidades.
Concretamente sinto-me bastante atraída por alguém do sexo oposto com quem convivo ocasionalmente. Ele terminou recentemente um relacionamento de alguns meses. Por vezes penso que poderá ter algum interesse em mim, mas confesso ser-me bastante difícil perceber os sinais. No entanto, tenho receio de dar o primeiro passo, de me expor demasiado e ficar magoada.

Será que penso demasiado ou que tenho pouca confiança em mim. Há alguma forma de me ajudar?
Continuem com o bom trabalho.
Beijinhos"

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por : Raquel Bulha

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2014-02-19 17:39:16

relationsfuneral.com

relationsfuneral.com
"Olá,
Já alguém pensou em "enterrar" uma relação falhada?
Pode parecer bizarro, mas testemunhos de quem fez o funeral de uma relação acabada, mostram que a ideia resulta!
Foi o que duas amigas decidiram fazer depois de sofrerem alguns desgostos. Aqui está o resultado. se gostarem partilhem e/ou falem comigo para mais informações."

www.relationsfuneral.com

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por : Raquel Bulha

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2014-02-19 17:29:22

A consciência do outro - Karl Marx

A consciência do outro - Karl Marx

"O Capital" Karl Marx

"São os homens os produtores das suas representações, das suas ideias, etc.; mas os homens reais agentes, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado das suas forças produtivas e das relações que lhes correspondem. (...) A consciência não pode ser coisa diversa do ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real. 
(...) Desde o início que pesa uma maldição sobre «o espírito», a de estar «manchado» por uma matéria que se apresenta aqui sob a forma de camadas de ar agitadas, de sons, de linguagem em suma. A linguagem é tão velha quanto a consciência - a linguagem é a consciência real, prática, existente também para outros homens, existente também igualmente para mim mesmo pela primeira vez, e, tal como a consciência, a linguagem só aparece com a necessidade, a necessidade de comunicação com os outros homens. (...) A consciência é portanto, desde início, um produto social, e assim sucederá enquanto existirem homens em geral."

Karl Marx, in 'A Ideologia Alemã'


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por : Raquel Bulha

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2014-02-19 17:23:58

O Cheiro!

O Cheiro!

 Italo calvino "Sob o Sol Jaguar" -O nome, o Nariz-

Excerto:

  • Mas como poderia descrever com palavras a sensação lânguida e selvagem que tinha experimentado na noite anterior ao baile de máscaras, quando a minha misteriosa companheira de valsa, com um gesto preguiçoso, deixara escorregar o xale de musselina que separava seus ombros brancos dos fios do meu bigode e uma nuvem estriada e arrebatadora me agredira as narinas como seu eu estivesse aspirando a alma de um tigre?"
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por : Raquel Bulha

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2014-02-19 17:19:06

O teste do beijo.

O teste do beijo.
"Olá
Hoje no vosso programa referiram o teste do beijo. O que é?  Gosto muito do vosso programa. Tenho aprendido muito. Um dia gostava de me sentar a conversar com vocês. (utopia) Ou talvez vos escreva. Beijiinhos


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por : Raquel Bulha

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A Hora do Sexo MP3 2014-04-15
A Hora do Sexo MP3 2014-04-14
Este é o blogue do programa "A Hora do Sexo". Aqui encontras muitas das dúvidas relacionadas com a sexualidade, mas mais importante do que isso, os devidos esclarecimentos e respostas. Bem-Vindo!

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