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Mundial à parte

Blogue da Rita Marrafa de Carvalho que vai estar a vaguear por terras africanas a mostrar o mundial do lado de fora dos campos.

Rita Marrafa de Carvalho

2010-06-04 23:52:35

Jornalistas "fora de jogo"

O processo de acreditação para  Mundial de Futebol  é complexo mas curioso. Na Soccer City, assistimos a uma fila "siberiana". Tão longa quanto assustadora. Prevenimo-nos. Aquela fila em nada era comparável com a pequena e célere que encontráramos no dia anterior.

Mas é perceptível a inexperiência da África do Sul, o que não significa impreparação, para um evento desta dimensão. O funcionário que se certifica quem somos, se somos quem somos, e de onde somos, concede-nos um número escrito à mão, num pequeno papel e direcciona-nos para umas cabines de "captação de imagem". Inseri-me na fila. Vejo-o, pesado, a encerrar o computador, a dirigir-se a uma das cabines, a sentar-se. Abre um outro computador e manda-nos entrar. Reencontrei-o aí. Sorri. Sentei-me. Perguntou de onde era. Ouviu e sorriu. Ready? Tirou-me uma dramática fotografia digital para a minha credencial. Não vi, mas aposto que, após algum enfado ou aumento da fila exterior, regressou ao computador para escrever números em folhinhas de papel.



São centenas os jornalistas que se movimentam na Soccer City.  Colocaram a RTP no pavilhão da América do Sul. Como se a reflexão óbvia fosse... Falam português? Ah, então deves estar perto do Brasil. Assim foi.

O refeitório tem pretensões a Torre de Babel. Almoçamos ao lado dos holandeses. Os japoneses estão atrás de nós, repletos de gadgets informáticos. Dizemos hola aos espanhóis.

Estive, talvez por isso, atenta ao jornalismo que por aqui se faz. E surpreendeu ver o correspondente sul-africano no Zimbabue, vestido dos pés à cabeça com o equipamento da selecção da África do Sul, enrolado num cachecol com as cores da bandeira... Isto, afinal, ainda acontece. Tenho grandes reservas sobre a intervenção de jornalistas em demonstrações de apoio às selecções nacionais. Pensei seriamente na questão. África do Sul, à imagem de Portugal, é um país de imigração. Temos fortes comunidades estrangeiras. Brasileiros, Angolanos, Moçambicanos, Russos, Ucranianos... sou jornalista para todos eles. Para todos aqueles que me ouvem, que me vêem, em Portugal ou através da RTP Internacional, devo-lhes isenção e imparcialidade. Devo-lhes a minha honestidade. Na verdade, como jornalista, tenho essa obrigação deontológica. A minha missão é informar. Apoiar algo que é ambivalente, que não é generalizável, está absolutamente fora das minhas metas, quer profissionais, quer pessoais.   E deveria ser para qualquer jornalista.

Mudo de canal... um directo. O repórter tem na cabeça um boné dos Bafana Bafana. Desisto...



por : Rita Marrafa de Carvalho

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Casada. Uma filha.
Licenciada em Ciências das Comunicação, pela Universidade Nova de Lisboa. Anda a vaguear pelo Mestrado de Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias. Na RTP há 13 anos. Viciada em gadgets. Autora de três livros.
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