O 11 de Março 40 anos depois: Luís Costa Correia conta como foi de táxi para o local dos confrontos

| 11 de Março - o golpe

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Luís Costa Correia, hoje Capitão de Mar e Guerra reformado, liderou em 26 de Abril de 1974 a força de fuzileiros incumbida de obter a rendição da PIDE e de deter os seus agentes. Em 11 de Março de 1975, teve uma intervenção relevante diante do RAL-1, o quartel atacado, intermediando um diálogo entre sitiantes e sitiados (à esq. na foto, com Diniz de Almeida, ao centro, e Sebastião Martins, à dir.).


Em depoimento que publicou no seu blog, no domingo, 8 de março deste ano, refere que se encontrava numa reunião no Estado Maior da Armada, dirigida pelo almirante Vilarinho. Aí relata que na reunião se soube do golpe através de telefonemas das famílias de alguns oficiais, que residiam próximo do RAL-1. Deste relato parte a primeiro pergunta da nossa entrevista.

Pergunta: Não o surpreendeu que o Estado Maior da Armada tivesse conhecimento de um golpe de Estado por uma via tão doméstica e caseira? Não havia no Estado Maior da Armada nenhum alerta de serviços de informações sobre movimentos em curso desde o início da manhã? Não havia ainda, nesse momento, apelos à resistência através da RTP ou da Emissora Nacional?

Resposta: Eu estava numa reunião que nada tinha a ver com a actividade do Estado-Maior da Armada, organismo ao qual eu não pertencia, nem os oficiais que participavam no citado encontro, que se destinava apenas à avaliação de condições de promoção, pelo que desconhecia (e ainda desconheço) se o Estado-Maior da Armada tinha sido informado de algo sobre o movimento militar.

E não sei a que horas é que a notícia do assunto surgiu nos meios de informação pública radiofónica.

Ao tomar conhecimento do golpe em curso, a decisão do almirante Vilarinho foi, aparentemente, a de suspender a reunião. Não teria sido mais expectável que o Estado Maior da Armada imediatamente colocasse todas as unidades de prevenção?

Aquela reunião agregava oficiais de diversos organismos, não constituindo portanto uma Unidade. O Almirante Vilarinho indicou portanto que os participantes deveriam regressar às suas Unidades, sem saber se estariam ou não de prevenção.

Quando decidiu meter-se num táxi e dirigir-se ao RAL-1, não estranhou que a sua resposta ao golpe ficasse, afinal, entregue a uma iniciativa individual da sua parte? Não devia ter sido o Estado Maior da Armada a emitir ordens precisas para todos os militares da Armada sobre a resposta a dar ao golpe?

Não sei, ou não me recordo, se o Estado-Maior da Armada - neste caso, o próprio Chefe do Estado-Maior da Armada - emitiu ordens em tal sentido. A minha iniciativa de me dirigir ao local de confronto foi provocada pela estranheza que senti face à notícia dos ataques aéreos, algo que de modo algum esperava viesse a suceder.

O condutor do táxi que o levou ao RAL-1 já sabia da existência do golpe? Foram pelo caminho a ouvir alguma emissão de rádio?

O condutor do táxi não sabia do movimento militar, quando entrei na viatura - aliás eu também não, e não me recordo se tinha rádio no carro. Penso que lhe dei a conhecer as razões da nossa deslocação - isto é, o que me tinha sido informado quanto à existência de ataques aéreos, e a minha curiosidade em procurar saber o que ocorria.

Ao chegar às imediações do RAL-1, que juízo pôde fazer, se é que pôde fazer algum, sobre a relação de forças existente e sobre as perspectivas de desfecho do confronto?

Não me consegui aperceber da presença de outras forças que não a de páraquedistas, tendo apenas visto o então Capitão Diniz de Almeida que se deslocava a algumas dezenas de metros do local onde eu estava (junto aos páraquedistas), pelo que me dirigi a ele e lhe sugeri um diálogo de esclarecimento.

Naquele momento não podia fazer avaliações sobre eventuais desfechos, pois nada conhecia além da existência de meios aéreos aparentemente hostis ao RALis, e de uma Força relativamente pequena de sitiantes.

Quando falou com o oficial da força pára-quedista sitiante, capitão Sebastião Martins, soube se ele esperava alguma delegação do RAL-1 para parlamentar? A presença de Diniz de Almeida nas imediações da força pára-quedista era já com esse propósito?

 Creio que não esperava. Não sei se tinha contacto rádio com os meios aéreos envolvidos, que lhe pudessem indicar se teria êxito nalgum assalto - admito que não, pelo que lhe terá parecido mais prudente parlamentar.

Quanto à presença de Diniz de Almeida nas imediações - e tão perto do "inimigo" - poderia ser indiciadora de um propósito de diálogo. Mas sem uma escolta mínima ? Estaria a organizar uma defesa a partir dos edifícios que rodeavam a força de pára-quedistas? Só dele, ou dos militares dele mais próximos, é que poderão provir respostas.

Como se vê, a História do "11 de Março" - e de outros episódios, ainda está por completar...

Foi sua a proposta de que os comandantes Leal de Almeida, do RAL-1, e Mensurado, da força pára-quedista, conferenciassem telefonicamente com Otelo e com Rafael Durão, no gabinete do chefe de Estado Maior da Força Aérea, general Mendes Dias. Recorda-se onde ficava esse gabinete, a quanto tempo de distância do RAL-1, e como chegaram lá esses oficiais? Acompanhou-os no percurso e nos contactos telefónicos?

Não. A minha sugestão foi dirigida aos dialogantes, Capitão Sebastião Martins e Capitão Diniz de Almeida, que possivelmente a transmitiram aos seus superiores hierárquicos - que se dirigiram, provavelmente separados, para o gabinete do General Mendes Dias, em Alfragide (a cerca de 20 minutos em viatura militar).

E sem a minha companhia - eu regressei no táxi de Henriqueto Henriques Tomé, que se apercebeu de que eu talvez o pudesse ajudar numa pretensão que há longos meses tinha: tinha sido legionário, e por tal motivo era obrigado a apresentar-se diariamente na Comissão de Extinção da Legião, ou na PSP, e queria ser dispensado de tal obrigação que enquanto motorista de táxi lhe prejudicava o trabalho... Eis porque fixei o seu nome!).

Os contactos telefónicos não permitiram "desempatar" a divergência entre os dois comandos, mas permitiram que no terreno as condições se fossem alterando sem haver mais derramamento de sangue. Essa alteração foi favorável ao RAL-1 e desfavorável ao golpe. No momento em que fez a proposta de diálogo, tinha a noção de que ela iria pesar nesse sentido?

Claro que se houvesse uma interrupção do movimento atacante este perderia parte do seu impulso, como aliás viria a acontecer, em especial porque desapareceria o efeito de surpresa provocado pelos ataques aéreos.
(Na foto: confraternização entre páraquedistas e soldados do RAL-1)

Pôde aperceber-se do contacto da população civil com os militares em confronto? O que recorda dessa interacção? Em que sentido pesou ela sobre o desfecho da jornada?

Retirei-me logo que percebi que tinha havido uma trégua, pelo que não tive a oportunidade de constatar a interacção civil-militar.

Um último tema: ao descrever o ambiente tenso e emotivo da assembleia da noite de 11 para 12, não deixa de sublinhar no seu recente depoimento que o tema da pena de morte apenas foi lançado por uma personagem de pouca relevância. Como explica que o tema acabasse afinal por ser tão marginal, quando uma das justificações invocadas para o golpe era precisamente a chamada "matança da Páscoa"?

Foi o que me relataram, pois apenas cheguei à Assembleia bastante tempo depois de ter começado, não assistindo portanto aos diálogos travados.

O que referi no meu texto foi que se a tal "matança" estivesse mesmo prevista ela teria provavelmente sido decidida em tal assembleia, ou pelo menos teria sido acesamente discutida, o que me parece não ter sido o caso. Mas outros, presentes no início certamente se recordarão do sucedido.

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