Reportagem com participantes nos acontecimentos de 25 de Novembro

por Leandro Ferreira, Maurício Ribeiro

Quarenta anos depois, voltar ao tema significa necessariamente repetir muita coisa que já foi dita. Mas a reportagem de Leandro Ferreira e Maurício Ribeiro ainda recolheu depoimentos onde emergem, aqui e além, algumas memórias inéditas ou pouco conhecidas.

Na origem da crise de Novembro, o coronel Vasco Lourenço admite ter havido sucessivas "provocações" para clarificar a situação: a dinamitagem da Rádio Renascença, a proposta para substituir Otelo por si próprio, Vasco Lourenço, à frente da Região Militar de Lisboa.

O general Loureiro dos Santos admite que a única unidade disponível para intervir do lado do "Grupo dos Nove" era o Regimento de Comandos. E admite ter concordado com o ataque dos comandos à Polícia Militar, de que resultaram três mortos (dois do lado dos comandos e um do lado da PM).

Vasco Lourenço recorda que tinha os "falcões" a pressionar para fazer sangue: para bombardear Tancos e para atacar a Polícia Militar, que era a unidade, em Lisboa, que não se rendia. Relata que havia uma decisão, tomada com Ramalho Eanes, no sentido de se obter a rendição da PM até às 20h, ou então de atacar a unidade.

Não foi apresentado um prazo nem um ultimato, o que dificultou a Vasco Lourenço fazer sentir ao comandante da PM, Campos Andrade, a urgência de encontrar uma solução. Relata também que, a poucos minutos de expirar o prazo, conseguiu finalmente convencê-lo, assumindo em desespero de causa o compromisso de que os oficiais da PM não seriam presos, mesmo sabendo que não podia dar essa garantia.

Chegou a haver fogo dos comandos sobre a PM, já depois dessa rendição que aparentemente não chegou logo ao conhecimento dos comandos. Após uma febril troca de mensagens rádio, finalmente conseguiu-se interromper o confronto, quando já havia três mortos. Vasco Lourenço argumentou depois perante Campos Andrade que, depois de ter havido três mortos, já não podia manter o compromisso de manter em liberdade os oficiais da PM.

Otelo diz que, para obter a libertação dos seus camaradas presos, inventou ter dado a ordem para a saída dos páraquedistas. Fez então esta confissão a Vasco Lourenço, que lhe custou 44 dias de prisão.

Nuno Santos Silva dá números sobre a "purga", muito conisderável, realizada nas Forças Armadas e sobre as circunstâncias em que foi preso, com o oficial responsável pela detenção a dizer-lhe que tinha começado "a caça". Vasco Lourenço utiliza também, noutro momento, a expressão "caça às bruxas" como resumo das intenções programáticas da direita mais extrema do bloco novembrista.

Edmundo Pedro relata que as armas mais tarde invocadas para prendê-lo lhe foram prometidas por Ramalho Eanes - 150 armas para o PS. Na noite de 25 de Novembro, recebeu de Manuel Alegre a indicação de Eanes, no sentido de ir ao CIAAC, em Cascais, buscar aquele lote de armas prometido.

Hoje, Edmundo Pedro queixa-se de ter sido abandonado e, durante os seus seis meses de prisão, mais mal tratado do que pela PIDE., nos dez anos do Tarrafal.

Mário Tomé aponta o contrasenso de se falar em golpe da esquerda, quando as unidades conisderadas afectas à esquerda ficaram nos quartéis e foram os comandos a deslocar-se para atacar outras unidades.