Falta de antibióticos contra superbactérias pressiona governos e farmacêuticas

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Poucos são os novos antibióticos em desenvolvimento no mundo para combater as chamadas superbactérias, que, estima-se, poderão matar dez milhões de pessoas por ano até 2050. Porque os existentes são ineficazes. A pensar nesta crise, que também suscita preocupações em Portugal, surge a ideia britânica de um fundo de investimento para revitalizar a investigação, no valor de 1,7 mil milhões de euros.

Esta é a proposta do economista Jim O'Neill, ex-presidente do grupo financeiro Goldman Sachs e indicado pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, para combater um problema que está a preocupar cientistas no mundo inteiro, segundo noticiou a BBC.

Nos termos da proposta, é preciso criar um fundo para investir 1,7 mil milhões de euros, nos próximos cinco anos, de forma a estimular a indústria farmacêutica a desenvolver uma nova classe de antibióticos, capazes de eliminar as superbactérias.



"Nós precisamos de relançar o desenvolvimento de fármacos para nos certificarmos de que o mundo tem os medicamentos de que necessita para tratar infeções e para permitir que a medicina moderna e a cirurgia continuem como conhecemos”, disse Jim O’Neill.

Ouvido pelo site da RTP, Constantino Sakellarides, presidente da Fundação para a Saúde e antigo diretor-geral da Saúde, defende que os Estados devem contribuir com financiamento público para a pesquisa de antibióticos, medicamentos menos rentáveis para as farmacêuticas, mas muito necessários.

Entrevista com Constantino Sakellarides, presidente da Fundação para a Saúde

“É na fase precoce da cadeia de inovação que é necessário que os poderes públicos comecem a intervir e não o têm feito tradicionalmente. Têm esperado que o novo medicamento apareça no mercado e depois põe-se a questão do preço, da comparticipação e, nessas alturas, as coisas são mais difíceis”, salientou Sakellarides.



O presidente da Fundação para a Saúde disse ainda que a negociação “não se pode fazer só na altura da comparticipação. Tem que ser feita muito precocemente, na própria produção do medicamento”.

“Se as autoridades públicas não se interessarem em canalizar o investimento para aquilo que é necessário, o investimento será sempre encaminhado para aquilo que é mais rentável”.
As superbactérias resultam do uso exagerado de antibióticos pelas pessoas. Estudos científicos estimam que, até 2050, possam matar dez milhões de pessoas por ano. Há superbactérias resistentes que se estão a espalhar e ameaçam tornar os atuais medicamentos ineficazes, revela o relatório citado pela BBC.

Segundo O'Neill, o mercado está a investir pouco no combate às superbactérias porque ainda não há procura por esse tipo de fármacos. O dinheiro seria enviado para centros de pesquisa e universidades de ponta, para criar novos medicamentos e formas de diagnosticar doenças.
Portugal parceiro nos ensaios clínicos
O objetivo passa também por aumentar a eficácia dos antibióticos existentes, uma abordagem muito menos dispendiosa do que tentar descobrir novos fármacos.

Já o diretor do programa de prevenção e controlo de infeção e de resistência aos antimicrobianos, da Direção-Geral da Saúde (DGS), disse à RTP que Portugal “tem que ser parceiro desta atividade. A nossa área de investigação é relativamente escassa nessa área, mas temos que ser parceiros nesse desenvolvimento, sobretudo, na área de ensaios clínicos”.
Para José Artur Paiva, o “nosso padrão de retribuição na saúde financia muito pouco a prevenção da doença. Temos que mudar o cenário e financiar mais a prevenção da doença”.

“Vive-se num momento a que podemos chamar de crise dos antibióticos, isto é, as bactérias estão a ficar resistentes aos antibióticos e a descoberta de novos antibióticos tem vindo a diminuir ao longo das últimas décadas”, disse este reponsável da DGS.
“Há algumas bactérias que são resistentes a quase todos os antibióticos disponíveis. Temos um cenário, no futuro, não muito distante, de se continuarmos desta maneira, podermos ter infeções para as quais não temos armas adequadas”, acrescentou o responsável.



A Helperby Therapeutics, uma empresa fundada pelo professor Anthony Coates, da Universidade de Londres, criou uma espécie de “disjuntor” de resistência que age contra a superbactéria MRSA (bactéria que se tornou resistente a vários antibióticos, primeiro à penicilina, em 1947, e, logo depois, à meticilina, um antibiótico de pequeno espectro pertencente ao grupo da penicilina e seus derivados.

O composto, conhecido como HT61, vai entrar em breve em ensaios clínicos na Índia, onde está a ser desenvolvido. A equipa disse que este tipo de pesquisa poderia beneficiar o fundo de inovação e ser a chave para que os medicamentos existentes durem mais tempo, avança a BBC.

Jim O'Neill disse que as grandes empresas farmacêuticas devem pagar para o fundo e olhar para além de avaliações de curto prazo de ganhos e perdas.
Portugal acima da média europeia
O consumo excessivo de antibióticos em Portugal é um problema que tem sido assinalado nos últimos anos. Está a diminuir, mas o país continua a situar-se acima da média da União Europeia. O abuso destas substâncias é um problema de saúde pública, uma vez que a sua prescrição e consumo desadequados podem conduzir à emergência de novas resistências a bactérias.

Keiji Fukuda, diretor-geral de Segurança da Saúde da OMS, já tinha afirmado no ano passado que "o mundo caminha para uma era pós-antibiótica, na qual infeções comuns e ferimentos leves, que têm sido tratáveis há décadas, poderão voltar a matar".

O relatório da Organização Mundial de Saúde evidencia que a resistência aos antibióticos se dá de maneira generalizada entre as bactérias, mas atinge, em especial, sete micro-organismos responsáveis por doenças graves e comuns, tais como gonorreia, diarreia, pneumonia, infeções sanguíneas e do trato urinário.

No estudo da OMS conclui-se que o tempo de internamento hospitalar, a gravidade das doenças, a ineficiência do tratamento e a taxa de mortalidade decorrente das infeções tendem a aumentar.

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