Doris Lessing "foi uma das grandes vozes literárias do século XX"

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A escritora britânica Doris Lessing, prémio Nobel da Literatura em 2007, que hoje faleceu, aos 94 anos de idade, "foi uma das grandes vozes literárias do século XX", na opinião das escritoras Maria Teresa Horta e Lídia Jorge.

O agente da autora, Jonathan Clowes, citado pelas agências internacionais, anunciou a morte da escritora, em casa, durante a manhã de hoje.

Nascida a 22 de outubro de 1919 em Kermanshah, na Pérsia, atualmente Irão, Doris Lessing é autora de uma obra vasta e diversificada com cerca de 50 títulos e ficou conhecida pela militância de esquerda e pelas suas posições anti-apartheid, anticolonialistas e feministas.

Contactada pela agência Lusa, a escritora portuguesa Maria Teresa Horta lamentou o desaparecimento de Doris Lessing: "Quando um escritor morre é sempre uma grande perda, mas sobretudo ela, que era uma das grandes vozes literárias do século XX e até do século XXI".

"Ela é uma referência para mim, não só pela escrita, mas também por razões pessoais", indicou, recordando episódios ocorridos nos anos 1970, no regime salazarista, quando foi insultada e agredida na rua por ter participado no movimento feminista em Portugal.

"Doris Lessing deu-me forças para continuar", disse Maria Teresa Horta, que viria depois a publicar, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, o livro "Novas Cartas Portuguesas", que, na época, gerou forte impacto e contestação no país.

Em 2007, Doris Lessing, então com 87 anos, foi reconhecida com o Nobel da Literatura, tendo sido a mulher mais velha de sempre a receber tal galardão.

Na altura, a escritora foi descrita pela academia Nobel como "um exemplar de experiência feminina que, com ceticismo, fogo e poder visionário, sujeitou uma civilização dividida ao escrutínio".

A escritora tem várias obras publicadas em Portugal, entre as quais "Amar de novo" (1997) e os dois volumes de "Os diários de Jane Somers" (1990).

A obra "Gatos e mais Gatos" (1995) e o "Caderno Dourado" (1962) também foram publicados em Portugal.

Maria Teresa Horta destacou que Lessing "escreveu até ao fim" e que a obra e o imaginário de Lessing "vão permanecer e continuar a ser lidos por muitas pessoas".

A mesma opinião é partilhada pela escritora Lídia Jorge, que considera Doris Lessing "uma memória do século XX, conseguindo fazer um apanhado da relação entre a Europa e o resto do mundo".

Em declarações à Lusa, recordou que, com surpresa e curiosidade, encontrou referências ao papel dos portugueses nesta biografia europeia.

Apontou o "Caderno Dourado" como a obra de Lessing que a tocou particularmente, "por quebrar tabus e lutar pela afirmação das mulheres de forma muito independente".

"Tudo o que li dela era marcado pela vida. Ela escreveu de forma pungente", salientou Lídia Jorge.

Filha de pais britânicos, um antigo oficial do exército britânico e uma enfermeira, Doris Lessing cresceu na Rodésia (atual Zimbabué), onde a família se instalou numa quinta quando tinha cinco anos, tendo este período marcado algumas das suas obras.

Foi impiedosa nas críticas aos governos da África do Sul e do Zimbabué, tendo sido proibida de entrar nos dois países. A interdição na África do Sul durou entre 1956 e 1995.

Tópicos:

Cartas, Doris Lessing, Kermanshah, Nobel, Rodésia, Teresa Horta Lídia,

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