Há 100 anos, trégua de Natal espontânea na Frente Oeste

| Cultura

Soldado alemão com o boné de um britânico, em Warneton, Bélgica, na trégua de Natal de 1914
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Soldados ingleses e alemães que uma semana antes se matavam aos milhares baixaram as armas para se abraçarem, para jogarem futebol e para trocarem cigarros. Fez na quarta-feira um século que as armas se calaram na frente ocidental da Primeira Grande Guerra, contra a vontade dos Estados-Maiores dos dois lados das trincheiras.

O centenário foi comemorado pelos correios do Reino Unido, com a publicação de uma carta relatando a inesperada trégua. A carta do capitão Alfred Dougan Chater não é, aliás, documento único e vem juntar-se a uma série de outras missivas também publicadas pelos correios britânicos.
Uma carta reveladora
Na mensagem, que chegou à mãe de Chater depois de passar o crivo da censura militar, relata-se: "Acho que assisti hoje a um dos espectáculos mais extraordinários que se pode imaginar. Por volta das 10h da manhã, vi do meu posto de observação um alemão que agitava os braços e mais dois que saíam das suas trincheiras e se dirigiam a nós".
Perdas de vidas até ao Natal de 1914
Reino Unido - 160.000
França         - 300.000
Alemanha    - 300.000

Era, de facto, uma cena extraordinária e os militares britânicos começaram por não entender o que significava: "Nós já íamos disparar sobre eles, quando notámos que estavam desarmados; de modo que um dos nossos homens foi ter com eles, e dois minutos depois soldados e oficiais saíam das das trincheiras dos dois lados, apertavam-se as mãos e desejavam uns aos outros feliz Natal".

E prossegue: "Trocámos cigarros e apresentámo-nos pelos nomes, e outros tiraram fotografias", em que aparecem representados lado a lado os inimigos da véspera (na foto: os soldados britânicos à esquerda e os alemães à direita). A trégua também tornou possível recolher e sepultar os mortos de ambos os lados, que até aí era demasiado arriscado ir buscar à "terra de ninguém" entre as duas linhas de trincheiras.

As fotografias tiradas nesse momento constituíam, por outro lado, uma esperança de prolongamento da trégua, como Chater logo notou: "Não sei por quanto mais tempo isto [a trégua] irá continuar - de qualquer modo, as armas terão de calar-se novamente no Ano Novo, porque os alemães querem ver as nossas fotografias".

Chater foi ferido com gravidade, pouco tempo depois, e evacuado para Inglaterra. Aí casou com a noiva que deixara ao ser mobilizado e viveu até 1974. Quando os correios britânicos começaram a publicar cartas sobre a trégua de Natal de 1914, a sua família ofereceu-lhes a carta que tinha conservado.A trégua que irrompeu ao mesmo tempo em vários lados
O jornalista e historiador Michael Jürgs, que se debruçou especificamente sobre o tema da trégua de Natal, citou no seu livro o depoimento de um veterano da guerra que, 60 anos depois, dissera que todos queriam pôr fim às hostilidades: "De um lado e de outro, todos sofríamos com os piolhos, a lama, o frio, os ratos e o medo da morte".

Este sentimento era tão generalizado que a trégua se impôs ao mesmo tempo em numerosos pontos da Frente Ocidental - como se estivesse meticulosamente combinada. Jürgs chamou-lhe, por isso, "uma insurreição espontânea vinda de baixo". E sustenta que "nunca na História da guerra tinha havido uma paz como esta, vinda de baixo. E nunca mais voltou a haver outra assim".

Essa trégua visível em vários pontos da frente, tinha começado de formas diversas em cada um deles. Num, foram os soldados alemães a sairem desarmados da sua trincheira, como relata Chaters. Num outro, foram os soldados alemães a enfeitarem pequenas árvores de Natal e a entoarem canções de Natal. Depois, os britânicos aplaudiram e pediram bis. E finalmente saíram ao encontro uns dos outros. Um jovem oficial alemão citado por Jürgs disse: "Sentíamo-nos felizes como crianças".A censura tenta silenciar a trégua
Apesar da iniciativa da trégua, que parece ter partido com mais frequência dos soldados alemães, foi a censura alemã que mais se empenhou em impedir que chegassem à imprensa da retaguarda ecos deste facto singular. As poucas fotografias que surgiram na imprensa alemã vinham sempre acompanhadas de algum comentário que procurava interpretá-las como sintoma da desmoralização e pouca vontade de combater nos arraiais do inimigo.
Obras publicadas sobre a trégua de Natal
Malcolm Brown, Shirley Seaton - Christmas Truce, 1984
Modris Eksteins - Rites of Spring, 1990
Stanley Weintraub - Silent Night, 2002
Michael Jürgs - Der kleine Frieden im Großen Krieg: Westfront 1914, 2005

Já a imprensa britânica publicou com mais frequência imagens recolhidas no campo de batalha, dando conta da trégua - sempre ilegalmente, porque as primeiras câmaras fotográficas mais ou menos portáteis eram proibidas na frente.

Uma das fotografias conjuntas (acima), de soldados alemães e britânicos, fez mesmo manchete do Daily Mirror em 8 de Janeiro de 1915.

E também hoje a comunidade investigadora britânica tem uma produção muito mais fértil sobre a trégua do Natal de 1914 do que a sua homóloga alemã.
Quando era preciso mais do que uma trégua
Em todo o caso, a hierarquia militar alemã decidiu cortar cerce a qualquer nova tentativa de trégua de Natal. Em 1914 não instaurou processos disciplinares a ninguém, mas no ano seguinte ameaçou fazê-lo antes que ocorresse algo semelhante. Registaram-se, mesmo assim, em 1915, manifestações isoladas de confraternização entre soldados inimigos. Em 1916, nada disso se repetiu.

Voltou a haver confraternização entre as tropas em 1917. Mas aí a guerra já tinha feito 16 milhões de mortos e era preciso algum acontecimento mais impactante do que uma árvore enfeitada ou um cântico de Natal para transpor o abismo que se tinha cavado entre os dois bandos beligerantes. O acontecimento foi a revolução russa de Outubro, que decretou imediatamente um cessar-fogo e apelou abertamente à confraternização. Para os militares cansados da guerra, Vladimir Ilich Lenine era nesse dobrar do ano de 1917 o que mais parecia assemelhar-se ao Pai Natal.

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