Nobel de Mo Yan agrada ao regime chinês

| Cultura

Peter Englund, da academia sueca, ao anunciar hoje a atribuição do Nobel da Literatura
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Os primeiros comentários à obra de Mo Yan denotam um alargado consenso sobre o seu valor literário mas, também, fundas reservas sobre a sua atitude de cumplicidade para com a ditadura de Pequim. Ao atribuir-lhe o Nobel, a academia sueca acabou por poupar às autoridades chinesas um embaraço anunciado.

O embaraço que causava em Pequim mal-estar e nervosismo era a atribuição do Prémio da Paz do livro alemão ao escritor dissidente Liao Yiwu, que pagou o tom crítico da sua obra literária com quatro anos de cadeia e com o exílio, para si e para a sua família. Liao irá receber esse prémio no próximo domingo, mas agora não causará surpresa que todos os holofotes estejam apontados para o seu compatriota galardoado com o Nobel.
O escritor "sem fala" O escritor agora laureado com o Nobel, com o nome de baptismo Guan Moy, adoptou esse outro nome que depois lhe ficou para a carreira literária: Mo Yan - segundo a tradução, "o que não fala" ou "o sem fala". Os biógrafos de Mo Yan dizem que foi inspirado por sua mãe que, durante as atribulações da Revolução Cultural, em 1966, o aconselhava a ficar calado para não ter problemas.

O conselho dado para aqueles tempos ficou-lhe gravado para a vida. E, ao iniciar a sua carreira literária muitos anos depois, em 1981, iria assinar sempre Mo Yan. Os seus críticos mais severos dizem que o nome é bem escolhido, porque Mo Yan continua sem falar contra as prepotências.

Escreve - e a sua escrita com frequência se refugia no passado, mesmo que esse passado seja próximo e por vezes ainda politicamente sensível. Assim, o seu principal romance, datado de 1987, "A seara vermelha", tem como cenário a guerra sino-japonesa dos anos trinta.
Inspiração camponesa e ajuda oficial Outros romances seus inspiram-se na tradição oral camponesa, com escassas referências literárias, mas com uma plasticidade de linguagem que os conhecedores comparam à vitalidade do realismo fantástico latino-americano. O diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung compara a sua escrita rica de imagens a um quadro de Hieronymus Bosch.

Mo Yan foi beber a inspiração para a sua obra a uma infância aldeã, numa época de grandes fomes e de pouca ou nenhuma liberdade política. De si próprio diz, segundo citação de Der Spiegel: "Não cresci com a grande literatura e sim com histórias de camponeses. Na nossa região havia alguns magníficos contadores de histórias, que à noite podiam contar os episódios mais extraordinários. Eu antigamente sonhava com o modo como estes camponeses podiam contar histórias horas sem fim".

Mo Yan deixou a escola aos doze anos para trabalhar no campo e acabou por só fazer estudos mais completos, em Sinologia, na Academia Militar. Foi oficial do Exército durante boa parte da vida adulta e hoje, aos 57 anos, continua a receber uma pensão de reforma como oficial.

O sucesso da sua obra não se deve apenas à qualidade que lhe é geralmente reconhecida, mas também a algum favorecimento oficial: "A seara vermelha" tornou-se muito conhecida e popular por ter sido transposta para o cinema quase ao ser publicada em livro.
Uma controversa visita a Frankfurt Há três anos fez parte de uma delegação oficial chinesa que viajou à Feira do Livro de Frankfurt e acompanhou também a delgação quando esta, em sinal de protesto, abandonou ostensivamente um simpósio em que tomaram a palavra dois escritores dissidentes, Dai Quing e Bei Ling.

Mo Yan viu-se depois obrigado a explicar o seu comportamento e fê-lo com as seguintes palavras: "Eu não tinha escolha. Recebo um vencimento do Instituto de Investigação para os Artistas do Ministério da Cultura e tenho aí a minha segurança social e o meu seguro de doença. Esta é a realidade na China. No estrangeiro toda a gente tem os seus próprios seguros. Mas na China, se não me puser na fila, não posso dar-me ao luxo de ficar doente".

Não surpreende portanto o comentário de Ai Weiwei, o mais destacado dissidente chinês da actualidade: "Dar este prémio a um escritor que consicentemente se dissociou das lutas políticas da China de hoje? Acho que é quase intolerável". E deixava também a pergunta: !Como separar um escritor de ser também um intelectual moderno, que respeite os valores universais de direitos humanose liberdade de pensamento e de discurso?"

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