Portuguesa do século XIX foi primeira-dama na Argentina

| Cultura

Uma cantora lírica portuguesa do final do século XIX encantou um abastado político argentino, acabando por se tornar na primeira e única estrangeira a ocupar o lugar de primeira-dama daquele pais.

A história de Regina Pacini, pouco conhecida em Portugal, é contada pela escritora argentina Ana Maria Cabrera no livro "Regina e Marcelo, um dueto de amor".

"Gostava muito de publicar o livro em Portugal onde não se conhece a obra de Regina Pacini, uma cantora excelente e que muito contribuiu para ajudar as artes no meu pais (Argentina)", disse a escritora à Agência Lusa.

Regina Pacini, que no final do século XIX/principio do século XX foi aplaudida nos melhores teatros da Europa, era filha de Pietro Pacini, um italiano que exerceu o cargo de director cénico do Teatro S.Carlos, em Lisboa, e de uma espanhola.

A cantora nasceu a 06 de Janeiro de 1871 na rua do Loreto, em Lisboa, e estreou-se aos 17 anos no então Teatro Real de S.Carlos (hoje Teatro Nacional de S.Carlos), na presença da Rainha D.Amélia.

"Era uma excelente soprano, famosa em toda a Europa, e por quem Marcelo se apaixonou quando a ouviu cantar no Teatro Politeama de Buenos Aires", contou Ana Maria Cabrero.

A sua ligação à Argentina surge através do casamento com Marcelo Torcuato de Alvear, que entre 1922 e 1928, ocuparia o cargo de presidente da Republica do país.

"Ela, nascida em Portugal, foi a primeira e única estrangeira primeira-dama na Argentina e deixou o seu país e a sua arte por amor a um homem", realçou a escritora.

Conta Ana Maria Cabrera que Marcelo Alvear, filho de uma família rica e aristocrática, "encantou-se pela voz e pela mulher, deixando nos camarins rosas brancas e vermelhas, um gesto que repetiu na passagem de Regina pelos melhores teatros da Europa".

Filho de uma família rica e aristocrática, Marcelo Alvear era considerado "o solteiro mais cobiçado da Argentina" e por quem "suspiravam as mais belas herdeiras" do país.

Em 1901, quando a cantora volta à Argentina para actuar, Marcelo pediu Regina em casamento, o que na altura implicava o fim da sua carreira artística.

Regina Pacini aceitou o pedido na condição de poder cantar por mais quatro anos, e a 29 de Abril de 1907, na igreja de Nossa Senhora da Encarnação, no Chiado, Marcelo Alvear casou-se com a consagrada soprano portuguesa.

A sociedade de Buenos Aires, explica a escritora Ana Maria Cabrera, era muito conservadora e não aceitava que uma estrangeira e artista fosse esposa de um político de renome.

Contudo, acrescentou, Marcelo enfrentou a sociedade argentina e casou-se com Regina, uma mulher que respondeu à hostilidade com generosidade e "muito fez pela cultura na Argentina".

Segundo a Ana Maria Cabrera, Regina Pacini, a emigrante portuguesa que hoje dá nome ao Teatro Regina na cidade de Buenos Aires, criou a Casa do Teatro, um espaço que albergava os artistas e que ainda hoje existe na avenida de Santa Fé.

"É única no mundo porque os artistas não pagam nada. O pai de Regina Pacini morreu pobre e ela não queria isso acontecesse a outros artistas. Quis ampara-los. Como argentina, orgulho-me desta mulher e sinto-me muito emocionada por ter descoberto esta figura", disse.

Regina Pacini morreu na Argentina em 1965, aos 95 anos, muitos depois da morte do marido.

Nunca mais regressou a Portugal e todos os meses levava ao túmulo do marido rosas brancas e vermelhas que ela própria cultivava.

Escrever sobre personagens históricas e sobre o amor é uma das especialidades de Ana Maria Cabrera, professora universitária e autora de outros livros do género, um deles "Felicitas Guerrero, a mulher mais bonita da República", prestes a ser adaptado ao cinema com o apoio do governo espanhol.

"Escrevo histórias a partir do que é mais importante na vida de cada um, que é o amor, e sobre mulheres que não eram conhecidas porque estavam sempre um passo atrás dos homens", afirmou.

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