Vencedor do Prémio Agustina Bessa-Luís começou a escrever o romance aos 19 anos

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Tiago Manuel Ribeiro Patrício, 32 anos, vencedor do Prémio Revelação Agustina-Bessa Luís com o romance "Trás-os-Montes", afirmou que começou a escrevê-lo "quando tinha 19 anos" quando tentou melhoria de nota para entrar na Universidade.

Por não ter conseguido entrar no curso de Medicina, Tiago Patrício decidiu melhorar a média de acesso e começou a escrever o romance.

"Foi nesse ano sabático que comecei o meu primeiro romance, onde quis meter tudo, desde a primeira infância até à véspera, com mais de trinta personagens e histórias paralelas dos meus avós e bisavós. Era um texto em que queria justificar coisas, reabilitar-me", contou.

"Havia muitos diálogos ingénuos e sem fulgor nenhum, mas ficou o substrato daquela tentativa de escrever aos 19 anos um longo romance", referiu.

Natural do Funchal, Tiago Ribeiro Patrício considerou nesse ano "aceitável a opção de passar um ano em casa a ler, todos os livros da biblioteca municipal".

"Lia três a quatro livros por semana, daquela coleção `Dois Mundos` [Livros do Brasil], desde Steinbeck, Camus, Hemingway, até Marguerite Duras, André Malraux, Kundera e Vergílio Ferreira, cujo texto `Aparição`, de leitura obrigatória no 12.º ano, intensificou a minha relação com a literatura e levou-me, pela primeira vez, a querer tentar escrever", disse.

No ano seguinte voltou a falhar a entrada na Faculdade de Medicina e foi para a Escola Naval "por questões hereditárias".

"Quase todos os meus tios passaram pela Marinha de Guerra e, além disso, achava que a única maneira de regressar ao Funchal, a cidade onde vivi até aos nove meses, seria a bordo de um navio", disse o autor.

"Durante a infância em Trás-os-Montes, eu era o único que tinha andado de avião, que tinha visto o mar e que tinha nascido fora daqueles 30 quilómetros quadrados em redor da aldeia. Acho que desenvolvi uma certa obsessão pelo Funchal e pela ilha da Madeira e, por vezes, usava isso como ponto de fuga e dizia: `Eu nem sequer sou daqui, o meu lugar é numa cidade grande no meio do mar e não aqui no meio dos montes`. Mas, apesar de rodeado de terra, Trás-os-Montes foi e é ainda um conjunto de ilhas isoladas".

Regressou ao Funchal, aos 20 anos, incorporado na fragata Baptista de Andrade.

Na Escola Naval nas "muitas horas de ócio, aproveitava para voltar à escrita do romance e à poesia". "Havia alturas em que escrevia um poema por dia, sempre em soneto", recordou.

Em 1999, a "carreira definida até ao fim da vida e com todos os privilégios de um oficial de Marinha" não se lhe mostrou atrativa e, em finais de 1999, ingressou na Faculdade de Farmácia de Lisboa. Concluiu o curso em 2007, no meio de "muitos projetos paralelos".

Em 2001 fez escrita criativa na Aula do Risco e realizou vários cursos de aperfeiçoamento em imprensa no CENJOR, entre 2001 e 2003. Integrou a equipa do jornal Os Fazedores de Letras, de 2002 a 2007, e escreveu para o suplemento "DNJovem" durante o mesmo período.

Faz teatro desde 2000 e foi um dos fundadores do Grupo de Teatro Com-Siso, com várias peças apresentadas de 2002 a 2005.

Em 2006, entrou para o Grupo de Teatro de Letras, onde fez formação intensiva com Ávila Costa e com o qual mantém, até hoje, uma estreita ligação.

Poemas seus foram publicados nas coletâneas "Jovens Escritores" do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI), entre 2007 e 2010.

Deixou entretanto de escrever sonetos e adoptou o verso livre, "depois de ler Fernando Pessoa, Ruy Belo, Mário Cesariny, Herberto Helder, João Miguel Fernandes Jorge e Al Berto".

Em 2007, já pai de um filho, fez a sua primeira residência em Praga, através do CPAI, que assegura ter sido "decisiva": "Deu-me a entender que podia viver para a escrita. Mesmo sem saber se seria possível viver da escrita".

"Depois da segunda residência em Praga, no outono de 2010, decidi preparar, finalmente, o meu primeiro romance, porque já era tempo e estava na altura de concorrer ao prémio Agustina Bessa-Luis".

Quanto ao original que o júri escolheu por unanimidade revelou: "Entre as 400 páginas do manuscrito inicial, concentrei-me no final da infância das personagens e, a partir daí, desliguei-me da história biográfica e tentei dar-lhes a autonomia que eu considerava essencial, para construir uma série de momentos de tensão narrativa e de algum fulgor poético".

"Nessa altura já tinha lido mais de dez livros da Agustina [Bessa-Luís] e de [António] Lobo Antunes, já tinha estudado a obra da Maria Gabriela Llansol e analisado quase todos os livros do Gonçalo M. Tavares".

Ao lado das referências portuguesas há "os romances curtos de Peter Handke, Ian McEwan, Samuel Beckett, Virgínia Woolf, Clarisse Lispector, Flannery O`Connor e o teatro de Jean-Paul Sartre, Heiner Müller e George Büchner [que] também ajudaram a tecer as linhas mestras desta narrativa", recordou.

"Desde o princípio que tentei manter uma atmosfera densa mas de leitura fluida e apostar numa riqueza formal, com um trabalho sobre a própria linguagem, sem perder a noção de economia narrativa. Porque em tempos de austeridade é necessário poupar nas palavras, mas sem abandonar o tom que seduz o leitor e mantém o texto à distância da simples ilustração quotidiana".

Tiago Patricio, a par do curso de poesia no Hospital Psiquiátrico do Telhal e da residência artística no Estabelecimento Prisional do Linhó, trabalha na farmácia de Laveiras (Oeiras) e está ainda a preparar um mestrado em Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Lisboa.

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