Dirigente da Fundação Champalimaud defende investimento em Ciência

| Ciências

O neurocientista Zachary Mainen, que fundou e dirige o Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, defendeu hoje que se deve continuar a investir em ciência fundamental, mesmo quando os fundos escasseiam e a ciência aplicada parece mais importante.

"Do lado de quem apoia a ciência, o que eu pediria seria uma perspetiva de longo prazo. Quando as coisas se tornam mais difíceis, o mais fácil é cortar naquilo que é menos crítico a curto prazo, mas isto perde de vista o panorama a longo prazo. Por piores que as coisas estejam agora, devemos à nossa espécie não ignorar o nosso futuro", afirmou Zachary Mainen.

O neurocientista norte-americano falava à Lusa a propósito da sua intervenção no TEDxO`Porto, que se realiza a 13 de abril, no edifício da Alfândega, que se centrará no "impacto da ciência na sociedade e vice-versa". O investigador falará também "um pouco sobre como a ciência funciona e os desafios que encontramos para a fazer funcionar ainda melhor".

O investigador explicou que "a investigação fundamental (ou básica) não é direcionada, ou seja, não foi desenvolvida para resolver um problema em particular (como por exemplo curar uma doença ou construir uma máquina), mas para percebermos o que nos é misterioso".

A sua função primordial "é, simplesmente, a de explorar o mundo, de revelar o desconhecido. Podemos até pensar nela da mesma maneira que os descobridores portugueses pensaram no Mundo, há mais de 500 anos, antes de existirem mapas. Essas viagens para o desconhecido são, necessariamente, sem fim programado, porque o objetivo não é conhecível. Por outras palavras, a ciência fundamental é principalmente motivada, não por objetivos específicos, mas pela curiosidade humana".

"A ciência funciona sobre uma escala de tempo mais alargada do que aquela onde estamos habituados a pensar ou planear. Funciona sobre escalas de tempo de impérios ou estados e não nas dos ciclos de financiamentos ou eleições", sustentou Zachary Mainen.

O cientista lembrou que "a História tem-nos mostrado que a investigação científica está no cerne de toda a tecnologia humana, da medicina aos computadores, passando pelos automóveis. A investigação aplicada dos dias de hoje está alicerçada na investigação fundamental de ontem. Se não fosse a curiosidade de James Watson e Francis Crick, há mais de 50 anos, a biotecnologia de hoje nunca teria sido possível".

"Se desistirmos da ciência fundamental agora, o mundo não notará durante algum tempo, mas os nossos netos e bisnetos pagarão esse preço", frisou.

Na opinião deste neurocientista, "o que torna a ciência tão especial hoje em dia é o grau até onde ela se tornou um processo coletivo. (...) A ciência de hoje é feita, quase exclusivamente, por pequenas equipas que trabalham juntas e essas equipas estão cada vez mais a tornar-se maiores. Os governos e as empresas estão a reconhecer e incentivar esta tendência, dirigindo os financiamentos para os megaprojetos como o Human Brain Project aqui na Europa".

O "Projeto do Cérebro Humano" (Human Brain Project) -- realizado por 80 instituições, incluindo a portuguesa Champalimaud -- foi um dos dois vencedores de uma iniciativa europeia para desenvolver a ciência moderna. Este projeto visa perceber o cérebro humano reconstruindo-o, peça por peça, através de modelos e simulações produzidas por um supercomputador.

"De um modo geral, a comunidade científica é um dos melhores exemplos de como as pessoas podem cooperar produtivamente, construindo sobre o trabalho uns dos outros, pelo bem de todos. Deveríamos exigir aos cientistas que continuem a dar o seu melhor e a melhorá-lo. Para isso, temos que escolher uma perspetiva científica. Para mim, isso significa que temos que estar recetíveis à mudança, a experimentar novos processos, a criticar e a escolher o que funcionar melhor", acrescentou.

Zachary Mainen estudou Psicologia e Filosofia na Universidade de Yale e fez o doutoramento em Neurociências na Universidade da Califórnia, em San Diego. Ocupou o cargo de docente no Cold Spring Harbor Laboratory, em Nova Iorque, antes de se mudar para Lisboa, em 2007, para fundar e dirigir o Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud. Tem recebido inúmeros prémios, entre os quais o Advanced Investigator Grant do European Research Council.

Serão cerca de vinte os oradores que passarão pelo palco do TEDxO`Porto 2013, com histórias de vida completamente diferentes e ligadas aos mais diversos setores de atividade e da sociedade.

Tópicos:

Advanced Investigator Grant, Califórnia, James Watson, Psicologia, TEDxO, Zachary,

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