Economistas assinam manifesto contra obras sem reflexão

| Economia

"O Governo diz que há estudos, mas aqueles que eu conheço não me convencem muito", sublinha Silva Lopes
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Um grupo de 28 economistas publica este sábado um manifesto em defesa da reavaliação das obras preconizadas pelo Governo de José Sócrates. Entre os subscritores do documento figuram os antigos ministros das Finanças Luís Campos e Cunha e José Silva Lopes. Ambos defendem "um amplo debate" sobre custos e benefícios de "grandes despesas".

Chamar o poder político para a causa de uma "reavaliação" de grandes investimentos é o objectivo dos 28 economistas que assinam o manifesto a lançar este fim-de-semana para o espaço público. Entre os quais o primeiro titular da pasta das Finanças no consulado de José Sócrates. Luís Campos e Cunha garante que o documento "não é contra as grandes obras públicas", antes "a favor de uma reavaliação".

"Sou um dos subscritores deste manifesto porque considero que as grandes obras públicas devem ser reavaliadas tendo em conta o novo contexto e deve ser feito um amplo debate sobre estes investimentos", propugnou Campos e Cunha em declarações à agência Lusa.

Por seu turno, José Silva Lopes, outro dos subscritores do manifesto, espera que a iniciativa contribua "para que se pense mais na necessidade de ser criado um organismo que faça a avaliação dos grandes investimentos públicos".

"Gostaria que se fizessem análises mais profundas, mais satisfatórias do que aquelas que existem e estão disponíveis na Internet", argumentou à agência de notícias o antigo ministro das Finanças, que foi também governador do Banco de Portugal. As grandes obras públicas, reforçou o economista, "devem ser objecto de uma avaliação bastante rigorosa e de análises de custo-benefício de grande qualidade".

Governo deve "olhar mais" para a "análise técnica"

Silva Lopes admite que alguns investimentos "são necessários", nomeadamente a reabilitação do parque escolar e demais equipamentos sociais. Mas insiste na necessidade de o poder executivo "olhar mais para a parte da análise técnica" dos projectos de monta. Desde logo a alta velocidade ferroviária, que o ministro das Obras Públicas já remeteu para a próxima legislatura.

"O Governo já decidiu e muito bem adiar isto. O que penso é que o Governo devia olhar melhor para a parte técnica destes projectos. O Governo diz que há estudos, mas aqueles que eu conheço não me convencem muito", vincou o economista, que falava em Lisboa à margem de um colóquio sobre a "moderna gestão financeira pública", integrado nas comemorações dos 160 anos do Tribunal de Contas.

"Alguns desses investimentos acabarão por ser necessários, não tenho dúvidas nenhumas, mas penso que as análises que têm sido feitas até agora sobre eles são bastante controversas, são diferentes de vários lados, e penso que essas coisas deviam ser esclarecidas, pois não tem havido suficientes esclarecimentos sobre isso", reiterou.

País tem "poucos recursos"

O processo de reavaliação, defendeu Silva Lopes, poderia passar pela criação de "um organismo de análise de custos e benefícios das grandes despesas", de forma a aclarar "em que aspecto é que essas grandes despesas contribuem para a melhoria da competitividade portuguesa a longo prazo ou na conjuntura actual para o combate ao desemprego".

"Temos poucos recursos e os recursos que gastamos no TGV a comprar máquinas em França ou equipamentos em Espanha ficam a faltar para dar emprego a portugueses", concluiu.

Quanto à iniciativa partilhada por perto de três dezenas de economistas, o antigo ministro das Finanças admitiu ter "algum receio" de que o manifesto "seja explorado para a luta política": "Rejeito esta manipulação. O meu objectivo é puramente técnico".

A última iniciativa do género remonta a Julho de 2005, quando 13 economistas - entre os quais o fiscalista Henrique Medina Carreira, o antigo secretário de Estado do Tesouro António Nogueira Leite e o presidente executivo da Vodafone António Carrapatoso - fizeram publicar um manifesto a pôr em causa a pertinência de grandes obras públicas.

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Economistas, José Silva Lopes, Luís Campos e Cunha, Manifesto, Obras públicas, TGV,

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