"Não havia `yes men` no banco" -- João Talone

| Economia

O antigo administrador do BCP, João Talone, garantiu hoje em tribunal que os responsáveis do banco não obedeciam cegamente ao então presidente, Jardim Gonçalves, considerando "inconcebível" serem verdadeiras as acusações que recaem sobre os nove antigos gestores visados no processo.

"Não havia `yes men` no BCP. Nenhum de nós é um `yes man`", assegurou o responsável, na qualidade de testemunha, perante a juíza que decide o processo de recurso apresentado pelos antigos gestores do banco contra as acusações da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

"Diz-se que só quem mandava era o Eng.º Jardim Gonçalves e os companheiros da Opus Dei. Mas só havia mais um responsável da Opus Dei [na administração do BCP]. Não nos pediam o cartão à entrada", afirmou João Talone, que desempenhou vários cargos de topo no BCP durante 10 anos (1991-2001).

E reforçou: "Os administradores não estavam lá só para dizer ámen".

Questionado pelos advogados de defesa dos arguidos sobre a sua opinião acerca das acusações feitas pelo supervisor contra os nove responsáveis que se sentam no banco dos réus, Talone foi taxativo.

"Não acredito em teorias da conspiração. Estas pessoas terem montado uma cabala para chegar ao fim e terem ordenados e prémios mais altos é inconcebível", disse.

"Para isso acontecer era preciso que houvesse reuniões secretas. E depois fazerem teatro nas reuniões", considerou, sublinhando que participou em inúmeras reuniões de trabalho do conselho de administração do banco e que nunca se apercebeu de qualquer `esquema` de adulteração dos resultados.

"Era impossível montar esse teatro ao longo destes anos todos. Se não, não era um banco, era um teatro alegórico", frisou.

Segundo Talone, "nem sempre o que parece é. E, neste caso, se parece, não é de certeza".

O antigo administrador garantiu que, durante os 10 anos em que esteve no BCP, "foram seguidas as melhores práticas da altura" ao nível da governação do banco.

"Era tudo feito com rigor", realçou, referindo-se aos métodos seguidos para o apuramento dos resultados consolidados do Grupo BCP.

"Quando havia alguma alteração dos critérios contabilísticos, erámos informados que tinha mudado o perímetro de consolidação" das contas, explicou, recordando que só para a companhia de seguros do grupo, que liderou, eram consolidados os resultados de mais de 20 empresas.

Ainda assim, a testemunha afirmou que "por mais controle que haja nas atividades bancárias e seguradoras, se houver uma pessoa que quiser esconder alguma coisa, consegue fazê-lo".

Talone foi arrolado como testemunha por Francisco Proença de Carvalho, advogado de Christopher de Beck, elogiando em tribunal as qualidades humanas e profissionais do seu antigo colega na administração do BCP.

"Era uma das pessoas que tinha bons conhecimentos de contabilidade e que perguntava muitas coisas. É das pessoas mais corretas que conheço. É leal e diz sempre o que pensa", revelou.

João Talone foi ouvido no 2.º Juízo da 2.ª Secção de Pequena Instância Criminal, no Campus da Justiça (Parque das Nações), em Lisboa. Neste processo, a entidade de supervisão acusa nove membros da anterior gestão do banco de terem prestado informação falsa ao mercado entre 2002 e 2007.

Em consequência dessa acusação, a CMVM aplicou coimas aos nove ex-administradores e decretou a inibição da atividade bancária a oito deles pelo máximo de cinco anos, mas os visados recorreram da decisão.

Como alvo destas acusações estão Jorge Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Christopher de Beck, António Rodrigues, Alípio Dias, António Castro Henriques e Paulo Teixeira Pinto, assim como Luís Gomes e Miguel Magalhães Duarte, ainda em funções no banco.

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BCP, Instância, Jardim Gonçalves Pinhal Christopher, Magalhães, Proença, Talone,

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