"Se o governo não quer renegociar dívida deve ser mudado"

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O economista e investigador irlandês Tony Phillips disse à Lusa que, "em nome da democracia", se o Executivo de Lisboa não quer renegociar a dívida, os portugueses devem mudar de governo.

"Se o governo (de Portugal) diz que não se pode renegociar a dívida o melhor, é mudar de governo. Não se pode ter um governo a tomar as suas próprias decisões sobre desenvolvimento e, o mais importante, é que não se pode ter o governo a ficar com empresas privadas que entraram em colapso e que foram nacionalizadas, forçando assim a dívida dos privados aos cidadãos. Isso não é democracia", disse Tony Phillips, coordenador do livro "A Europa à beira do abismo", editado em Portugal.

O livro sobre a crise das dívidas soberanas e que conta com textos do Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, da portuguesa Mariana Mortágua, do antigo ministro argentino Roberto Lavagna e da economista grega Christina Laskaridis, entre outros, vai ser apresentado no dia 11 na Fundação Mário Soares, em Lisboa.

Para o investigador irlandês, a situação provocada pela austeridade está a tornar-se insustentável e, por isso, considera necessário "afastar a dívida que - de facto -, não é a verdadeira dívida" e informar os credores que não se pode pagar o que eles exigem.

A complexidade da situação económica na Europa, de acordo com o economista, exige igualmente uma nova definição sobre a Zona Euro e retirar o poder que os privados exercem sobre a moeda única.

"Como é que os governos gerem o dinheiro e quem é o dono do dinheiro? Quem é o dono do Euro? O Banco Central Europeu (BCE)? Eu pensava que o Euro era a nossa divisa nacional, enquanto grupo de nações. Mas dizem que não, dizem que é dinheiro do banco (BCE), o que significa que o banco diz aos governos o que fazer com o dinheiro, o que significa que se trata de dinheiro privado", defende Tony Phililps acrescentando que as democracias não podem permitir a "privatização" da gestão monetária.

"Na verdade, não é dinheiro privado é dinheiro público e, sendo assim, deveria ser gerido de forma democrática. O dinheiro é propriedade dos cidadãos e aqui há um grande problema porque primeiro nacionaliza-se a dívida privada que se transforma em dívida pública e depois entidades externas dizem aos governos nacionais o que é preciso fazer", sublinha Phillips.

"As relações entre o Banco Central Europeu e os bancos nacionais têm de mudar. Não podem dar tudo a um setor privado que é corrupto", acusa.

O economista irlandês diz também que há problemas estruturais na União Europeia e no sistema financeiro e que tudo está relacionado com a forma como o dinheiro circula e como funciona o Banco Central Europeu sobretudo nos países que fazem parte da zona euro.

"Do ponto de visto político, há um grande problema porque é preciso ver quem lidera as políticas. Num sistema transparente e democrático tudo isto devia envolver os cidadãos, a nível europeu, nacional e regional mas nada disto está a acontecer porque o dinheiro está a ser agarrado a partir do topo e, por isso, os governos transformaram-se em fantoches no processo de pagamento de dívidas e tudo isto, em muitos casos, não é legítimo", afirma referindo que, apesar de tudo, a crise pode abrir novos caminhos para a Europa.

"Tudo isto é um desastre - é por isso que se chama crise -, mas eu tenho uma postura positiva porque tudo isto vai ajudar a mudar o rumo do funcionamento da União Europeia. Vai mudar as relações entre países da União Europeia. Tem de ser porque a União Europeia não está a funcionar. Está a trabalhar para uma pequena elite, para grandes empresas. Não está a funcionar para os países pequenos, não está a funcionar para os cidadãos europeus", conclui.

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