Município quer tornar barranquenho dialecto oficial e Património Linguístico Nacional

Luís Miguel Lourenço, agência Lusa

Barrancos, Beja, 09 Dez (Lusa) - Considerados "portugueses de manhã e espanhóis à noite", os barranquenhos lidam touros até à morte, cantam modas alentejanas e sevilhanas, comem açordas e tortilhas e falam um dialecto peculiar, que o município quer tornar Património Linguístico Nacional.

Na vila raiana de Barrancos, no limite do distrito de Beja e junto à fronteira com Espanha, o modo de falar barranquenho é a mais notória característica da identidade étnico-cultural de um povo marcado por uma mistura de costumes e tradições dos dois lados da fronteira.

Em Barrancos ouve-se falar português (a língua oficial), espanhol (sobretudo entre os mais velhos e na literatura oral tradicional) e um misto peculiar destas duas línguas, conhecido como "falar barranquenho" e maioritário nas bocas das gentes da vila.

"Queremos preservar e valorizar o barranquenho que é um dialecto único e um elemento de valor incalculável e indispensável para conhecer e entender a identidade da terra e das gentes de Barrancos", disse à agência Lusa o presidente da Câmara Municipal, António Tereno.

O município de Barrancos, em parceria com os congéneres espanhóis de Cedilho e Herrera de Alcántara, localidades da província de Cáceres e onde também se fala um dialecto misto de português e espanhol, e as universidades de Évora e da Extremadura espanhola, vão desenvolver um projecto para "estudar, preservar e valorizar as falas destes povos".

Após uma primeira reunião preparatória, os parceiros vão assinar um protocolo para "materializar o projecto", que deverá arrancar no terreno no início de 2008.

Quanto ao barranquenho, "o primeiro passo será candidatar o dialecto à classificação de Património Linguístico Nacional", junto do Ministério da Cultura, disse António Tereno.

Em paralelo, o projecto vai "actualizar os estudos sobre a história, o vocabulário e a gramática do barranquenho", adiantou à Lusa a vereadora da cultura do município de Barrancos, Isabel Sabino.

"O objectivo é conseguir que o barranquenho seja reconhecido oficialmente como um dialecto, para que possamos introduzi-lo como disciplina opcional na Escola Básica Integrada de Barrancos", explicou a vereadora.

"Mais do que a classificação como Património Linguístico Nacional, o reconhecimento oficial como dialecto, o estudo e o ensino nas escolas é a melhor forma de preservar e prolongar o barranquenho nas bocas das gerações vindouras", defendeu António Tereno.

O novo estudo vai partir de outros já realizadas sobre o barranquenho, como os do filólogo português José Leite Vasconcelos, nas décadas de 30 e 50 do século XX, e da filóloga espanhola e docente da Universidade Complutense de Madrid (UCM) Victoria Navas, que investigou o dialecto, após várias estâncias prolongadas em Barrancos, entre 1987 e 1990.

A investigação de Victoria Navas, que a autora diz ser "apenas um primeiro esboço para uma análise mais detalhada", resultou no artigo "O barranquenho: um modelo de línguas em contacto", publicado na Revista de Filologia Românica da UCM, em 1992.

A proximidade com Espanha e o isolamento de Barrancos "tornaram possível a criação de um dialecto transfronteiriço, falado em contexto plurilingue e produto do contacto linguístico prolongado entre habitantes de duas línguas diferentes: o português (variedade alentejana) e o castelhano (variedades andaluza e extremenha)", explica a investigadora no artigo.

Esta mistura, que inclui vários arcaísmos e originou novas palavras, até agora só registadas em barranquenho, torna este dialecto difícil de compreender aos "ouvidos alheios" ao falar dos naturais de Barrancos.

Lusa/Fim


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