Peças do período romano desapareceram do acervo do Museu Regional de Arqueologia

O responsável pelo acervo do Museu Regional de Arqueologia de Arganil, à guarda da autarquia, denunciou hoje o desaparecimento de peças militares do período romano, no seguimento de uma perícia efectuada pelo Ministério da Cultura.

Em Janeiro deste ano, João Castro Nunes, responsável e proprietário do acervo, denunciou também o desaparecimento de uma valiosa ara romana "dedicada à divindade da indígena Ilurbeda e proveniente do concelho de Góis", que era "internacionalmente conhecida e objecto de várias publicações".

O seu desaparecimento foi notado há cerca de um ano, dando origem a uma queixa que corre no Tribunal de Arganil, mas só no dia 20 de Janeiro deste ano se efectuou uma perícia ao acervo por dois peritos do Ministério da Cultura.

"Na perícia efectuada verificou-se também o desaparecimento de cerca de centena e meia de projécteis de catapulta, em ferro, e aproximadamente três centenas de pontas de ferro de dardos catapultários, únicas em Portugal", disse hoje à agência Lusa João Castro Nunes.

O investigador revelou que estas peças foram descobertas no acampamento militar romano da Lomba do Canho, situado nas cercanias da vila de Arganil e datado do século primeiro antes de Cristo, durante escavações realizadas entre 1977 e 1983 sob a sua responsabilidade.

"As peças não deixam dúvidas quanto ao potencial bélico das legiões romanas, sendo de um interesse arqueológico extraordinário, para além do seu valor histórico incalculável", sublinhou João Castro Nunes.

Segundo este professor jubilado das Universidades Clássica Nova e Lusíada de Lisboa, o acampamento da Lomba do Canho "é o único que resta em todo o mundo romano, do período tardo-republicano, o que lhe confere um estatuto de património da Humanidade", embora esteja presentemente ao "abandono pela edilidade arganilense".

O responsável pelo acervo do Museu Regional de Arqueologia de Arganil crê que a instalação do acampamento romano naquele local resultou da sua "posição estratégica no coração da Lusitânia" e da "riqueza mineira da região, sobretudo do ouro, largamente explorado na localidade".

O local está selado pelo Ministério da Cultura mas, segundo João Castro Nunes, "ainda ali há muito que explorar em termos arqueológicos, faltando, por exemplo, encontrar o cemitério do acampamento".

O acervo do Museu Regional de Arqueologia de Arganil, que oficialmente ainda não foi constituído, resultou das investigações, recolha e aquisições de João Castro Nunes, que o tinha confiado à guarda da Câmara Municipal.

Confrontado com o desaparecimento de peças do espólio, o presidente da autarquia de Arganil, Ricardo Alves, disse à Lusa que não se pronuncia por se tratar de uma "matéria em segredo de justiça que exige reserva".

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