Manifestante relata raptos e violência policial durante protesto em Luandal

O jovem alegadamente raptado hoje em Luanda juntou-se novamente aos protestos anti-Governo, depois de largado numa área deserta por "homens armados" que lhe deram "72 horas para morrer", disse à Lusa uma das pessoas envolvidas na concentração, que mencionou um segundo desaparecimento.

Os manifestantes que pediam a demissão do Presidente angolano hoje em Luanda começaram a dirigir-se ao palácio presidencial quando se aperceberam do rapto do jovem, sendo posteriormente agredidos por oficiais à civil, disse à Lusa, através de uma mensagem escrita, um dos manifestantes que se encontra em parte incerta e que não precisou se a concentração foi desmobilizada.

De acordo com este relato, o jovem Pandita Neru terá sido "raptado por civis armados no Bairro Vila Alice", que se localiza perto do largo onde a manifestação estava organizada.

Quando os protestantes se aperceberam do desaparecimento do jovem terão decidido caminhar em direção ao Palácio presidencial e, "ao longo do percurso, membros infiltrados dos Serviços de Inteligência começaram a agredir com pedras e ferros os manifestantes", conta este opositor, que falou sob anonimato.

O protestante disse ainda que dois dos protagonistas "foram atingidos gravemente na cabeça e encontram-se sem assistência no Hospital Josina Machel", tendo alguns manifestantes optado por "apresentar uma queixa contra os agressores", mas devido a "ordens superiores acabaram detidos na terceira esquadra da Polícia".

O jovem que terá alegadamente sido raptado voltou ao Largo para junto dos restantes manifestantes - que decidiram continuar os protestos -- e, de acordo com a mesma fonte, foi deixado numa área deserta onde "homens armados" lhe terão dado "72 horas para morrer".

A mesma fonte disse à Agência Lusa que terá sido raptado mais um jovem, quando se encontrava na concentração.

A Polícia angolana reagiu através de um comunicado publicado pela Agência de Noticias angolana Angop, dizendo que deteve 24 pessoas na sequência da manifestação que pedia a destituição do Presidente angolano em Luanda, tendo ficado feridos três oficiais e um agente da Polícia.

O comunicado da Polícia Nacional de Angola acrescenta que os feridos foram provocados por elementos ainda não identificados perto do Largo Sagrada Família, em Luanda, e que aconteceram quando as autoridades tentavam persuadir alguns cidadãos a não abandonarem o espaço protegido para o referido ato, a fim de evitar a desordem pública.

"Contrariando as orientações da polícia, alguns indivíduos, de forma anárquica, forçaram o cordão de segurança policial, proferindo ofensas verbais contra pacatos cidadãos que circulavam nas redondezas e aos efetivos da Polícia Nacional, alegando que pretendiam dirigir-se ao palácio", diz a Polícia no comunicado citado pela Angop.

As autoridades dizem ainda que foi "o incumprimento da ordem da polícia [que] gerou um clima de violência entre os transeuntes e os manifestantes, que culminou no arremesso de objetos contundentes, que estiveram na causa dos ferimentos", e que terão "obrigado" a polícia a deter 24 pessoas, "para que os órgãos competentes façam justiça", lamentando ainda a situação.

Durante a tarde de hoje, a Agência Lusa falou a partir de Lisboa com um dos responsáveis do protesto, que se encontrava detido com outras 11 pessoas dentro de uma carrinha policial há mais de 30 minutos, estando algumas delas em dificuldades respiratórias devido ao forte calor que se faz sentir em Luanda.

"Fomos presos, estamos numa carrinha há mais de trinta minutos e estamos quase a ficar asfixiados. A Polícia atuou com uma extrema brutalidade, estamos a ser molestados, até estou sem palavras. Está a existir muita brutalidade", disse o manifestante.

"Estamos aqui há mais de trinta minutos, alguns até estão quase a desmaiar. Somos doze e a carrinha não tem sequer um metro. Está um sol muito forte, estamos a ter dificuldades em respirar", explicou.

O elemento da organização disse ainda que estiveram diversos elementos da Polícia "à civil" na manifestação e que inclusivamente aconteceram várias agressões contra os manifestantes, tendo ferido um jovem e detido mais pessoas afetas à organização, que se encontram "em diversas partes" de Luanda, incertas na altura.

Os relatos da manifestação dão conta de vários feridos, pessoas detidas e também da agressão a jornalistas durante o protesto que com o objetivo de "exigir a destituição de José Eduardo dos Santos" e a "democratização dos órgãos públicos", que começou ao início da tarde de hoje, no Largo da Independência.

 

 

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