Primeiro-ministro da Síria troca regime de Assad pela Oposição

Primeiro-ministro da Síria troca regime de Assad pela Oposição
legenda da imagemUma declaração atribuída a Riyad Hijab e reproduzida por um porta-voz afirma que o ex-primeiro-ministro se juntou “às fileiras da revolução da liberdade e da dignidade”
Youssef Badawi, EPA

O regime sírio abriu esta segunda-feira uma nova brecha com o abandono de funções do primeiro-ministro Riyad Hijab, nomeado para o cargo em junho após eleições parlamentares vistas como uma farsa pelos opositores de Bashar al-Assad. A televisão estatal, alvo de um atentado à bomba durante a manhã, noticiara que Hijab, um antigo ministro da Agricultura tido como próximo do Presidente, havia sido demitido. Mas um porta-voz do ex-governante veio entretanto garantir que se trata de mais uma dissidência para denunciar um “genocídio coletivo”.

“Anuncio hoje a minha deserção da matança e do regime terrorista e anuncio que me juntei às fileiras da revolução da liberdade e da dignidade. Anuncio que sou a partir de hoje um soldado nesta revolução abençoada”. É este o teor de uma declaração atribuída a Riyad Hijab e reproduzida a partir da capital da Jordânia, Amã, por um porta-voz identificado como Mohamed Otri. O diário governamental Techrin assinalava nas últimas horas que Riyad Farid Hijab participara ontem em duas reuniões no Ministério da Administração Local com vista a decidir “medidas para reorganizar regiões purificadas de grupos terroristas”.

A dissidência de Riyad Hijab - um muçulmano sunita oriundo da província de Deir al-Zor e apparatchik do partido Baas - é uma das mais significativas até ao momento na composição do regime.

A saída do primeiro-ministro foi precedida das deserções de três responsáveis dos serviços secretos, entre os quais dois irmãos do clã do vice-presidente Farouk al-Chareh, que partiram para a Jordânia.

Outra figura de relevo, o general Mohammad Ahmad Fares, primeiro cosmonauta sírio, refugiou-se na Turquia.


A televisão estatal da Síria havia noticiado durante a manhã que o até agora primeiro-ministro fora afastado por decisão da cúpula do regime. E substituído interinamente por Omar Ghalawanji, vice-primeiro-ministro e ministro da Administração Local.

O líder do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, Rami Abdel Rahman, viria depois contradizer as informações difundidas pelos órgãos de comunicação oficiais, asseverando que Hijab havia “desertado”.

Em declarações citadas pela agência France Presse, Rahman admitia que eram “contraditórias” as informações sobre o paradeiro do ex-primeiro-ministro: “Alguns afirmam que conseguiu chegar à Jordânia e outros que foi capturado antes de fugir”.

Já uma fonte oficial de Amã afiançou à Reuters, a coberto do anonimato, que Riyad Hijab se encontra “na Jordânia com a sua família”.

Ouvido pela France Presse, um elemento da Oposição síria na Jordânia disse, por seu turno, que o ex-primeiro-ministro se encontra desde domingo naquele país, acompanhado de outros dois ex-ministros e três oficiais do Exército. O porta-voz do político limitou-se a dizer que o ex-governante e a família estão em “local seguro”.
Atentado à bomba contra a televisão do Estado
A notícia da saída de cena de Riyad Hijab foi conhecida após um atentado contra a sede da televisão estatal da Síria – a detonação de uma bomba atingiu o terceiro piso do edifício, provocando ferimentos a pelo menos três trabalhadores da estação.

O ataque às instalações da televisão, onde funcionam também os estúdios da rádio estatal, acontece dois dias depois de as forças militares do regime de Bashar al-Assad terem anunciado que tinham recuperado o controlo de toda a capital do país. De acordo com o ministro sírio da Informação, a explosão terá causado importantes danos materiais. Mas a emissão não chegou a ser interrompida.

Numa diatribe apontada a Israel, Qatar e Arábia Saudita, o ministro Omran al-Zoubi apareceu perante as câmaras a inspecionar os estragos do ataque. “Nada pode silenciar a voz da Síria ou a voz do povo sírio. Temos milhares de locais de onde podemos emitir”, clamou.

Entretanto as forças leais ao regime mantêm os bombardeamentos contra vários bairros da cidade de Aleppo, o coração económico da Síria. Pelo menos oito civis e um chefe dos combatentes rebeldes terão morrido durante a manhã, segundo um balanço do Observatório Sírio dos Direitos Humanos. A mesma organização acusou as tropas do regime de terem “massacrado” 40 civis em Harbnafsa, na província central de Hama.

No sábado, um grupo de homens armados raptou 48 iranianos às portas de Damasco. As autoridades de Teerão afirmaram que seriam peregrinos que viajavam de autocarro entre o subúrbio de Sayeda Zeinab e o aeroporto da capital síria. Num vídeo difundido pela televisão Al-Arabiya, os captores alegaram, no entanto, que pelo menos um dos homens é um oficial da Guarda Revolucionária do Irão e que o grupo estaria a efetuar uma “missão de reconhecimento”.

O Governo iraniano é um aliado próximo do regime de Bashar al-Assad, que é dominado pelos alawitas, um ramo minoritário do xiismo.

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