Como os banqueiros brincaram com o dinheiro dos contribuintes

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Como é que os banqueiros em risco de bancarrota sabem quanto pedir a um governo para manter o sistema bancário a salvo de uma crise como a de 2008? As gravações agora reveladas das conversas de dois chefes do Anglo Irish Bank da Irlanda dão uma ideia muito negativa de como líderes da banca chegam às faturas a apresentar, em última instância, aos contribuintes.

“Esse número [os 7 mil milhões iniciais pedidos pelo Anglo Irish Bank ao governo] tirei-o do rabo” (picked it out my arse), responde John Bowe a Peter Fitzgerald, os dois executivos envolvidos na conversa que agora vem a público. A revelação destas gravações é do Irish Independent.

Mas a conversa ganha contornos criminais quando os 11 minutos de gravação são frequentemente pontuados por sonoras gargalhadas, embrulhando os argumentos num gozo que não corresponde à situação gravosa em que se encontrava quer a instituição bancária, quer o próprio país, que, fruto das falhas com o sistema bancário, estava já à beira do resgate financeiro.

O governo de Dublin preparava-se para meter mil milhões de euros no Anglo Irish Bank. Seria, contudo, a primeira injeção de capital. Neste momento o Estado irlandês tem investidos no banco em questão 30 mil milhões de euros. Investidos é como quem diz. Bowe e Fitzgerald deixam bem claro nesta conversa que tudo o que entrar no banco não é para ser devolvido ao Estado - que é o mesmo que dizer aos contribuintes.

Começando por pedir uma soma relativamente razoável, a ideia do banco era fazer novos pedidos, sempre com o argumento de que era necessário proteger aquele capital inicial e não deixar que o banco se afundasse, o que resultaria na perda definitiva do dinheiro dos contribuintes.
Levar o governo a entrar em jogo
A estratégia do Anglo Irish Bank era clara desde o início da crise: “Yeah, o número é sete. Mas a realidade é que precisamos de muito mais do que isso. Mas sabes qual é a estratégia. Tens de os puxar para dentro disto e obrigá-los a passar um cheque gordo. Depois, já sabes, eles têm de fazer por salvaguardar o seu dinheiro”, argumenta Bowe.

Com o banco à beira da destruição completa, a sua jogada centrava-se nos números a apresentar ao governo do Fianna Fáil então no poder: “Se lhes atirares com um número grande demais, eles podem pensar que têm escolha. Sabes o que quero dizer? Podem dizer que o custo para os contribuintes é demasiado alto. Mas, se o colocarmos apenas como um número grande, grande o suficiente para ser um problema [sistémico], mas não o suficiente para que arrase com tudo, então acho que temos aí uma hipótese”.

Entre gargalhadas estridentes, este executivo explica nessa conversa de 2008 que é fundamental neste processo de capitalização justificar as injeções de capital com a necessidade do contribuinte de proteger o seu dinheiro. Fundamental, ouve-se entre as gargalhadas, é igualmente não deixar que ninguém perceba que nunca mais vai ter o seu dinheiro de volta.

Os dois banqueiros manifestam ainda a sua esperança de que o banco seja nacionalizado. Para quê? Para que possam manter os empregos. Confrontados com as gravações, John Bowe e Peter Fitzgerald negaram já qualquer intenção de enganar os governantes da altura.

Tópicos:

Dublin, Fianna Fáil, Irlanda, John Bowe, Peter Fitzgerald, Resgate, Anglo Irish Bank,

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