Correspondente AFP no Burundi ameaçado após críticas do governo ao seu trabalho

por Lusa

O correspondente da Agência France Presse e da Rádio France Internationale no Burundi recebeu hoje ameaças nas redes sociais depois de as autoridades o acusarem de "promover o crime e a violência" com a sua cobertura da crise do país.

Esdras Ndikumana, que foi torturado em 2015 pelas forças de segurança burundianas, ano em que recebeu um prémio francês de jornalismo internacional, é considerado um dos principais especialistas do Burundi e é respeitado através de África.

Receando pela sua vida, o jornalista, de 55 anos, foi forçado a sair do país em agosto de 2015, mas continua a cobrir os acontecimentos no Burundi, a partir do estrangeiro.

Na segunda-feira à noite, o general Alain-Guillaume Bunyoni, ministro da Segurança Interna e a segunda figura mais importante do governo, atacou o jornalista, mencionando-o nominalmente em uma declaração.

"O Ministério condena energicamente todos os que se dedicam a atribuir atos criminosos a quem quer que seja para justificar as suas preferências, os seus interesses e as mal escondidas convicções políticas, como o jornalista Esdras Ndikumana e alguns ativistas das redes sociais, com o objetivo de dividirem os burundianos e promoverem o crime e a violência", afirmou Bunyoni.

Depois da declaração, duas figuras da sociedade civil pró governamentais emitiram sérias ameaças contra Ndikumana no Twitter.

"A AFP considera inaceitáveis estes ataques pessoais ao seu correspondente Esdras Ndikumana, que singulariza e põe em risco um jornalista que faz uma cobertura irrepreensível das notícias do Burundi em circunstâncias muito difíceis", afirmou o diretor do serviço de Notícias Globais da AFP, Michele Leridon.

O Burundi tem estado a viver uma forte crise política desde que o Presidente Pierre Nkurunziza anunciou, em abril de 2015, que ia disputar um terceiro mandato presidencial. E foi reeleito em julho.

Com assassínios das duas partes, ataques à polícia e execuções sumárias, a violência provocou mais de 500 mortos e obrigou mais de 270 mil pessoas a fugirem do país, segundo um levantamento feito para Organização das Nações Unidas.

O governo do Burundi silenciou os jornalistas independentes no país e ataca regularmente a imprensa internacional, acusando-a de fazer parte de uma "conspiração" para o derrubar.

Ndikumana, que começou a trabalhar como correspondente em Bujumbura da agência em 2001 e da rádio em 2002, fugiu do país em agosto último, depois de ter sido detido pelos serviços de segurança.

Enquanto esteve detido, foi agredido e torturado.

A AFP, a RFI e o próprio Ndikumana apresentaram uma queixa-crime pelos maus tratos de que foi vítima.

Até agora, a queixa não provocou qualquer investigação.

 

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