Declarações de Lagarde sobre a Grécia provocam chuva de críticas

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A Grécia reagiu com indignação às palavras da diretora geral do FMI que, em declarações a um diário britânico, acusou uma parte dos gregos de apenas quererem fugir aos impostos. Na entrevista ao jornal The Guardian, Christine Lagarde admitiu também ter mais simpatia pelas crianças da África subsaariana do que pela população de Atenas a braços com a austeridade. Em resposta, o dirigente dos socialistas gregos acusou a responsável do FMI de "insultar os gregos" enquanto que em França, uma porta-voz do governo de François Hollande considerou as palavras de Lagarde “simplistas e estereotipadas”.

Na entrevista publicada este sábado, a jornalista perguntou à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional se apenas pensava em números e se lhe era difícil exigir ao povo grego medidas de austeridade, sabendo que as mesmas acarretam cortes em serviços tão fundamentais como os cuidados de saúde e da assistência social ou cuidados aos idosos. Lagarde respondeu pela negativa e justificou:

"Penso mais nas crianças que andam na escola, numa pequena aldeia do Níger, e que apenas têm duas horas de aulas por dia e são obrigadas a partilhar uma cadeira por três e mesmo assim estão desejosas de obter uma educação (…) porque penso que precisam ainda de mais ajuda do que o povo de Atenas”, disse.
"Aquela gente na Grécia que quer escapar aos impostos"
“Sabe que mais?” No que respeita a Atenas, penso em toda aquela gente que está sempre a tentar escapar aos impostos”, acrescentou, “Toda aquela gente na Grécia que quer escapar aos impostos”.

Questionada sobre os que na Grécia lutam todos os dias para sobreviver, privados de emprego e de serviços públicos, Lagarde disse também pensar neles: “ Acho que se deviam também ajudar a eles próprios coletivamente”, Como? “Pagando todos os seus impostos”, responde.

A dada altura a entrevistadora do The Guardian pergunta a Lagarde se com isto ela quer dizer aos gregos e a outros na Europa que “viveram à grande” e agora “é tempo de pagar a conta” e a diretora do FMI responde que é isso mesmo.

E quanto às crianças gregas, que de forma alguma podem ser tidas como responsáveis? “Bem, os pais são responsáveis não? Por isso os pais devem pagar os seus impostos”, remata a mulher que substituiu Dominque Strauss-Kahn à cabeça do FMI.
Venizelos diz que Lagarde humilhou os gregos
No próprio dia em que foram publicadas, estas declarações provocaram uma resposta irada do líder dos socialistas gregos, Evangelos Venizelos, que durante um comício em Atenas acusou Lagarde de insultar e humilhar os gregos”.

"Ninguém pode humilhar o povo grego durante a crise, e dirijo-me hoje em particular à senhora Lagarde (...), que com a sua posição insultou os gregos", disse o líder do PASOK.

"Peço-lhe que reveja e reconsidere o que queria dizer", acrescentou Venizelos, cujo partido, quando no governo, aplicou o programa de austeridade imposto pela troika em troca do empréstimo internacional e foi por isso cilindrado pelos eleitores nas últimas eleições.
Lagarde tenta explicar-se no Facebook
Logo que a entrevista foi publicada, milhares de comentários críticos, muitos deles vindos de internautas gregos, invadiram a página de Christine Lagarde no Facebook.

Sábado à noite, a diretora do FMI tentou suavizar de algum modo o impacto das suas declarações anteriores, publicando naquela rede social uma mensagem em que se diz "compadecida com a situação dos gregos".

Na sua nota no Facebook, Lagarde explica que "parte importante" do esforço para ultrapassar a crise é "que todos partilhem equitativamente o fardo, especialmente os mais privilegiados e, especialmente, pagando os seus impostos".
Syriza diz que gregos não precisam da compreensão de Lagarde
Já este domingo, o líder da coligação da esquerda radical grega Syriza, , criticou também as declarações da diretora do FMI afirmando que os gregos "pagam os seus impostos" e não precisam da compreensão de Christine Lagarde.

"Os trabalhadores gregos pagam os seus impostos", que são muito pesados e, nalguns casos, "mesmo insuportáveis", afirmou Tsipras.

"Sobre as recentes declarações da senhora Lagarde, a última coisa que a Grécia quer é a sua compreensão", afirmou o líder do Syriza num comunicado.

Em relação à evasão fiscal Alexis Tsipras disse também que Christine Lagarde "devia dirigir-se ao (partido socialista) PASOK e à Nova Democracia (conservadores), para que eles expliquem porque não tocaram no grande capital e andam atrás do simples trabalhador há dois anos".

O Syriza, que ficou em segundo lugar nas eleições de 06 de maio, opõe-se ao programa de austeridade exigido pelos credores da Grécia, entre os quais o Fundo Monetário Internacional (FMI), e pretende renegociar os termos do memorando assinado em troca do empréstimo internacional.
Porta-voz do governo francês diz que declarações são "simplistas e estereotipadas"
As críticas às declarações de Lagarde  vem também do seu país natal, a França.

Questionada sobre as declarações, a porta-voz do governo de François Hollande, Najat Vallaud-Belkacem, respondeu: "Acho-as um pouco simplistas e estereotipadas. Penso que, neste momento, não temos de dar lições à Grécia".

Se a Grécia decidir sair do euro, depois das eleições legislativas de 17 de Junho, "isso seria um mau sinal, sem dúvida uma má escolha, para o conjunto dos parceiros europeus e para o resto do mundo", acrescentou a porta-voz.
Líder da esquerda radical francesa diz que Lagarde se devia demitir
Lagarde já tinha sido anteriormente criticada pelo líder da esquerda radical francesa e ex-candidato presidencial Jean-Luc Melénchon, que considerou as declarações "indignas" e sugeriu que a diretora do FMI se demita.

"Com que direito fala ela desta forma aos gregos?", questionou Mélenchon na televisão France 3. "São declarações indignas. Se houvesse uma moral política, Lagarde devia abandonar o cargo que ocupa", acrescentou.


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