EUA criaram “twitter cubano” para desestabilizar regime de Castro

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Os Estados Unidos orquestraram secretamente a criação de uma rede social em Cuba para iludir o controlo do regime comunista sobre a Internet e minar o Governo de Havana. O projeto, agora desvendado pela agência Associated Press, durou mais de dois anos e atraiu milhares de subscritores, sobretudo jovens cubanos, que as agências secretas americanas queriam empurrar para a dissidência. O “twitter cubano” era implementado por companhias fictícias e financiado através de bancos estrangeiros.

O projeto denominava-se “ZunZuneo”, um dos nomes informais que os cubanos dão aos ruídos produzidos pelo colibri. Os utilizadores nunca suspeitaram que tinha sido criado por uma agência com ligações ao Departamento de Estado dos EUA, nem que empregados ao serviço do Governo Federal norte-americano estavam a recolher dados pessoais dos subscritores, na esperança de que a informação pudesse vir a ser útil mais tarde, para fins políticos.
Mil páginas de documentos
A Associated Press afirma ter obtido mais de mil páginas de documentos sobre o desenvolvimento do ZunZuneo e diz ter verificado de forma independente o âmbito da operação e os pormenores fornecidos na documentação, recorrendo a bases de dados que são do domínio público e entrevistas com fontes governamentais e elementos envolvidos no projeto.

O esquema foi lançado em 2009, depois de Alan Philip Gross ter sido detido em Cuba. Gross era um empregado da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) que foi preso pelas autoridades de Havana por ter introduzido na ilha telefones satélite e computadores [para os membros da comunidade judaica] sem obter as permissões exigidas pela lei cubana.

Acusado de trabalhar para os serviços secretos norte-americanos, foi condenado em 2011 por “atos contra a independência ou integridade territorial do Estado” e encontra-se a cumprir uma sentença de 15 anos numa prisão de Cuba.
Ligações aos EUA foram apagadas
Segundo a AP, a USAID e os seus empregados fizeram um grande esforço para esconder a relação entre Washington e o projeto ZunZuneo.

A agência criou companhias fictícias em Espanha e nas Ilhas Caimão para esconder a proveniência dos financiamentos e recrutou administradores para as mesmas sem lhes dizer que iriam trabalhar num projeto pago pelos contribuintes norte-americanos.

"Não haverá absolutamente nenhuma menção do envolvimento do Governo dos Estados Unidos", lê-se num memorando de um dos criadores do projeto, datado de 2010. “Isso é absolutamente crucial para o sucesso de longo-prazo do serviço e para garantir o sucesso da missão”, acrescenta o documento.

As mensagens dos utilizadores eram encaminhadas através de computadores situados em outros dois países. Em caso algum eram utilizados servidores localizados nos Estados Unidos.
Meio milhão de números de telemóvel
A partir de meio milhão de números de telemóveis cubanos, obtidos, provavelmente, de forma clandestina através de uma fonte dos serviços de telefonia móvel do Estado cubano, os organizadores do projeto começaram a criar uma base de utilizadores.

Os criadores do ZunZuneo pretendiam que este crescesse de forma lenta, para não atrair a atenção das autoridades de Havana. Segundo os documentos obtidos pela AP, esperavam que a rede social primitiva atingisse uma massa crítica, a partir da qual os dissidentes poderiam organizar concentrações de forma quase instantânea, que poderiam transformar-se em protestos políticos ou “renegociar o equilíbrio de poder entre o Estado e a sociedade”.
Anúncios publicitários falsos
Tudo foi feito para que a rede parecesse uma iniciativa comercial legítima, incluindo a criação de um website da companhia, e uma campanha de marketing para que os utilizadores pudessem inscrever-se e enviar mensagens de texto próprias para grupos da sua escolha. “Anúncios publicitários falsos vão dar-lhe a aparência de uma empresa comercial”, lê-se numa proposta escrita obtida pela AP.

Por detrás da fachada, os computadores da rede ZunZuneo iam armazenando e analisando as mensagens dos subscritores e outra informação demográfica, incluindo género, idade, “grau de receptividade" e “tendências políticas”. A USAID acreditava que os dados demográficos da dissidência poderiam ajudar a agência a direcionar os outros programas que mantinha em Cuba e “maximizar as possibilidades, de forma a aumentar o nosso alcance”.
Dinheiro atribuído oficialmente a projeto no Paquistão
Oficialmente, os fundos de cerca de 1600 milhões de dólares atribuídos a este esforço clandestino estavam atribuídos a um projeto não especificado no Paquistão. A AP diz que os documentos não revelam como foi gasto o dinheiro.

Ao longo de mais de dois anos, o ZunZuneo foi crescendo, chegando a captar cerca de 40 mil subscritores, mas os documentos indicam que a equipa responsável detetou indícios de que as autoridades cubanas tentaram localizar a proveniência das mensagens de texto e penetrar no sistema. O “Twitter cubano” desapareceu bruscamente em setembro de 2012. Segundo explicou à AP a USAID, os fundos atribuídos pela Administração dos EUA terminaram nessa altura.
O papel da USAID
A Associated Press diz não saber se a operação contrariava a lei dos Estados Unidos, que requer uma autorização por escrito de qualquer ação clandestina por parte do Presidente e a notificação do Congresso, mas afirma que as ligações agora reveladas lançam uma sombra sobre as atividades da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, que sempre afirmou não estar envolvida em ações clandestinas.

A missão oficial da USAID é a de fornecer ajuda aos pobres e vulneráveis do mundo e, para isso, necessita da confiança e da cooperação dos governos estrangeiros.

Numa declaração enviada à AP, a USAID em que diz “ter orgulho no seu trabalho em Cuba, no que respeita a fornecer assistência humanitária básica, promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais e contribuir para um fluxo de informação mais livre para o povo cubano” . Por seu lado, o governo de Havana recusou-se a comentar a questão.

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