Fundação Saramago propõe juiz para Prémio Nobel da Paz

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A Fundação Saramago lançou ontem, em Lanzarote, a candidatura do juiz Baltasar Garzón a Prémio Nobel da Paz. Por ocasião do lançamento da biografia do escritor português - "A consistência dos sonhos" - Pilar del Rio, viúva de José Saramago, elogiou o juiz como um homem "comprometido com os Direitos Humanos, que não baixa a cabeça perante artimanhas, nem nenhum poder" e por sempre "se ter colocado do lado das vítimas".

A amizade e admiração mútua entre Saramago e Garzón era pública, tendo o juiz disso dado sinal esta quinta-feira quando revelou emocionado que escassas duas semanas antes de morrer a preocupação de Saramago era a situação que ele atravessava, como o escritor lhe transmitira na última conversa que tiveram por telefone.

Conhecido por levar o ditador chileno Augusto Pinochet perante a justiça, Garzón enfrenta agora ele a Justiça espanhola por ter desencadeado procedimentos com vista a julgar os crimes do franquismo.

Um mês antes da sua morte, Saramago reagia de forma desesperançada à notícia de que o juiz havia sido afastado das funções que mantinha na Audiência Nacional depois de um processo desencadeado pelo Supremo espanhol.

Estávamos a 14 de Maio e o mundo acabava de saber que era um Garzón destroçado que abandonava o tribunal a chorar debaixo de aplausos e incentivos de populares e colegas. Saramago diria que era uma das notícias "mais tristes" que tinha recebido: "Com Garzón sabíamos que as leis e o seu espírito estavam vivos porque os víamos agir".

"As lágrimas do juiz Garzón hoje são as minhas lágrimas. Há anos, tomei conhecimento de uma notícia que foi uma das maiores alegrias da minha vida: a acusação a Pinochet. Este meio-dia recebi outra notícia, esta das mais tristes e desesperançadas: que quem se atreveu com os ditadores foi afastado da magistratura pelos seus pares. Ou melhor dito, por juízes que nunca processaram Pinochet nem ouviram as vítimas do franquismo", sublinhava Saramago num texto publicado pela sua Fundação.

Incisivo como nunca deixou de ser, Saramago escrevia nesse 14 de Maio que, "com o afastamento de Garzón, os sinos, depois do repique a glória que farão os falangistas, os implicados no caso Gürtell, os narcotraficantes, os terroristas e os nostálgicos das ditaduras, voltarão a dobrar a finados, porque a Justiça e o Estado de Direito não avançaram, nem terão ganho em transparência e quem não avança, retrocede".

Era aqui evocada a história do camponês que na Florença da Idade Média fez dobrar os sinos por considerar que a Justiça tinha morrido: "Dobrarão a finados, sim, mas milhões de pessoas sabem reconhecer o cadáver, que não é o de Garzón, esclarecido, respeitado e querido em todo o mundo, mas o daqueles que, com todo o tipo de argúcias, não querem uma sociedade com memória, sã, livre e valente".

Ontem, a admiração que Saramago nutria por Garzón - última grande causa abraçada pelo português Nobel da Literatura - consubstanciou-se nessa proposta para levar o juiz espanhol ao Prémio Nobel da Paz.

Meio milhar de pessoas aplaudiu Garzón à chegada na oite passada à sede da Fundação César Manrique de Tahíche, onde o seu director, Fernando Gomez Aguilera, poeta e ensaísta, apresentou a biografia, de sua autoria, do escritor português.

Num discurso muito aplaudido, Aguilera tomaria as palavras de Saramago para sublinhar que "o grande problema da democracia é permitir que se façam coisas nada democráticas democraticamente".

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