"Maldição" do petróleo atinge São Tomé e Príncipe

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O petróleo nem sempre é chave para o desenvolvimento e aumento do bem-estar das populações, defende o investigador Pedro Vicente, que fez um estudo sobre São Tomé e Príncipe, em que vinga a "maldição" dos recursos naturais.

Radicado no Reino Unido, o português Pedro Vicente, do Centro de Estudos e Economias Africanas da Universidade de Oxford, apresenta hoje em Lisboa, no Instituto de Investigação Científica Tropical as conclusões do "trabalho de campo" que realizou em São Tomé e Príncipe, onde a descoberta de jazidas de petróleo em águas profundas, por volta de 2000, acentuou o tráfico de influências, uma forma de corrupção.

Em declarações à Agência Lusa, num contacto telefónico para Oxford, Pedro Vicente explicou que o trabalho que realizou nos últimos dois anos, em parceria com outro elemento do centro de estudos, visou perceber quais os mecanismos da "maldição dos recursos naturais" que leva os governos de muitos países em desenvolvimento a desperdiçarem a oportunidade de vencer a pobreza e conquistarem um melhor nível de vida para a população em geral.

O "trabalho de campo" - é essa a designação que o investigador lhe dá - centrou-se em duas realidades bem conhecidas dos são-tomenses: a atribuição de bolsas de estudo e a compra de votos, o chamado "banho", uma presença incontornável nas eleições dos últimos anos, sobretudo nas legislativas e presidenciais realizadas em 2006.

Relativamente à compra de votos, o estudo centrou-se nas presidenciais realizadas em Julho de 2006, tendo como referência o que se tinha passado na campanha das legislativas, em Março do mesmo ano, e decorreu, com o apoio da Comissão Nacional de Eleições, a par de uma campanha de esclarecimento, tentando interiorizar nas pessoas que o voto é um acto da consciência de cada um, que nenhum dinheiro pode comprar.

"Não podíamos dizer às pessoas que não aceitassem o dinheiro, porque em muitos de casos coloca-se uma questão de sobrevivência" explicou à Lusa Pedro Vicente, insistindo que o mais importante era que todos compreendessem que mesmo recebendo dinheiro, o acto de votar, em quem votar, continuava a ser uma decisão individual.

Escolhida uma amostra de 1 034 pessoas, estas foram entrevistadas antes e depois da votação e os resultados analisados numa base científica, nos moldes reconhecidos internacionalmente.

"Dos resultados apurados pudemos concluir que o `banho` leva as pessoas a votar e que a compra de votos é efectiva: os eleitores votam em quem lhes pagou", adiantou o investigador, deixando claro que estas eleições não são livres, já que é o dinheiro que compra o poder e que a riqueza do petróleo alimenta toda esta corrupção.

No caso das bolsas de estudo, os resultados da investigação, que teve um período mais alargado (1994 a 2006) também foram preocupantes. Nos dois inquéritos feitos à população, em 2004 e 2006, sobressaiu a ideia generalizada de que as bolsas são para as elites e pouco têm a ver com as classificações obtidas pelos estudantes no final do secundário.

"A questão das bolsas em São Tomé e Príncipe é muito importante e faz a diferença entre um futuro de pobreza e uma vida de oportunidades, em que o curso superior é garantia de um estatuto, quer no estrangeiro quer no próprio país, onde os que ali voltam já são elite", afirma Pedro Vicente.

Por isso, 80 por cento dos inquiridos dizem que "o melhor que pode acontecer a uma pessoa é receber uma bolsa e ir para o estrangeiro", prossegue o investigador, alertando para a distorção existente entre as notas e a atribuição das almejadas bolsas.

Da análise feita, a relação entre as notas e a atribuição de bolsas surge distorcida, pois os escolhidos não são os que obtêm melhores classificações, mas os filhos das elites, neste caso através do tráfico de influências, de corrupção.

O que já acontecia em 1994 relativamente a umas dezenas de bolsas então atribuídas, sofreu um aumento de 10 por cento a partir de 2000, com o número de bolsas a atingir em 2003 as centenas (cerca de 300).

Ainda no que respeita à atribuição de bolsas, foi possível apurar uma forte identificação quanto aos apelidos dos bolseiros e dos detentores do poder, apontando uma clara influência do "status" no país numa escolha que se pretende criteriosa e transparente.

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