Polícia israelita convidou para sua casa um dos autores do atentado de Telaviv

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Um polícia israelita confundiu um dos autores do atentado com uma vítima e convidou-o para ir a sua casa. Depois notou o erro e prendeu-o. Mas o mal-entendido ilustra problemas de fundo que estão a preocupar as autoridades israelitas.

Quando ontem dois jovens palestinianos disfarçados de judeus ortodoxos abriram fogo dentro de um restaurante, um polícia que estava de folga ouviu os disparos e acorreu ao local.

Segundo um porta-voz da polícia citado no diário Jerusalem Post, o agente encontrou o caos e o pânico no local do atentado. Entre as pessoas que pareciam em choque, chamou-lhe a atenção um jovem, "confuso e assustado", que pedia água. Procurou ajudá-lo, levou-o para sua casa, que fica perto, deixou-o aí com sua mulher e sogros.

O polícia voltou então ao local do atentado, para ajudar a procurar os autores do atentado. Minutos depois, viu um deles, que fora capturado, e notou que trazia uma indumentária muito parecida com a do homem que acolhera em sua casa e deixara com a sua família, nomeadamente a kipa indicadora da religião judaica.

Alarmado, regressou rapidamente a casa e prendeu o homem que lá estava. Avisou a polícia, que veio em força e, ainda por cima, ao entrar no apartamento o feriu com um disparo acidental. A polícia não deu mais detalhes sobre as circunstâncias ou sobre a identificação do agente, mas esclareceu que não abrirá qualquer investigação interna sobre ele.Das células aos antentados individuais
Apesar do desfecho relativamente incruento deste episódio colateral, ele suscita diversas interrogações. Uma delas diz respeito à capacidade dos serviços de segurança israelitas para impedirem potenciais autores de atentados, que encontram novas vias para atingir os seus fins, perante os acrescidos rigores securitários.

A chamada "Intifada das facas", ao longo do último ano, tem-se caracterizado pelo protagonismo de jovens, muitas vezes adolescentes, actuando sozinhos, às vezes por impulso e sem qualquer preparação prévia. O Shin Bet e a Mossad (serviços de informações israelitas) pouco podem fazer na área da prevenção desses atentados.

Por outro lado, na maior parte dos casos, os autores dos atentados falham. A espontaneidade e o improviso andam de mãos dadas com uma ineficiência notória. Soldados de um check point ou mesmo colonos habitualmente com armas e treino militar têm quase sempre boas hipóteses de dominar um adolescente palestiniano. Na "Intifada das facas", os atentados são quase impossíveis de antecipar e prevenir, mas relativamente fáceis de enfrentar.
Um atentado do Hamas?
A novidade - com dois antecedentes apenas - do atentado de ontem consiste no seu grau mais elevado de preparação e sofisticação. Foi também cometido por dois jovens, mas organizaram-se pelo menos entre si.

A polícia israelita procura agora apurar se se organizaram também com alguma outra estrutura. Para esse apuramento, conta com os dados que vier a recolher na aldeia de onde são originários os dois jovens, próximo de Hebron. E conta também com o interrogatório de ambos, visto que desta vez não os executou depois de serem capturados e mesmo o que foi ferido poderá ainda sobreviver.

O Hamas não reivindicou o atentado mas manifestou solidariedade para com os seus autores. O facto de provirem da região de Hebron leva as autoridades israelitas a aventarem a hipótese de terem sido encorajados ou mesmo impulsionados pelo Hamas, que tem nessa região um dos seus baluartes de maior influência na Cisjordânia.

De um ponto de vista político, Ely Karmon, do Instituto Internacional para o Combate ao Terror, da cidade israelita de Herzliya, especula em declarações a Der Spiegel com o interesse que o Hamas poderia ter em provocar uma intervenção em larga escala do Exército israelita na Cisjordânia. Teria a vantagem de poupar a Faixa de Gaza a mais uma ofensiva devastadora, e de criar uma crise política na já impopular Autoridade Palestiniana de Mahmud Abbas.

A identidade dos autores do atentado, possivelmente simpatizantes do Hamas, mas sem antecedentes conhecidos, e originários da Cisjordânia, dá, em todo o caso, aparente verosimilhança a essa especulação.

Por outro lado, as circunstâncias políticas do lado israelita tornam-na mais plausível: até aqui era Moshe Yaalon quem dirigia as Forças Armadas, conhecido pela frieza das suas decisões e pela pouca propensão a embarcar na primeira provocação. Ao ser substituído Yaalon pelo líder da extrema-direita, Avigdor Libermann, conhecido por preconizar a decapitação dos palestinianos-israelitas considerados desleais a Israel, tudo parecia conjugar-se para facilitar uma reacção israelita "desproporcionada", bem à medida daqueles alegados planos do Hamas.

Seja como for, os dois jovens palestinianos que entraram no restaurante, envergando fatos impecáveis e com uma "kipa" na cabeça, foram tomados por judeus e puderam beneficiar do efeito de surpresa. Que até um polícia tenha sido vítima do mal-entendido é um episódio simbólico e, para as autoridades israelitas, altamente preocupante.

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