Sarkozy recorre à justiça para negar financiamento líbio em 2007

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"O poder em exercício prefere insultar os jornalistas cujas informações o incomodam a responder às questões que eles colocam", retorquiu o diretor do portal Mediapart
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“Infâmia” é o termo escolhido por Nicolas Sarkozy na reação à notícia, difundida no fim de semana, de um alegado envelope de 50 milhões de euros que teria saído dos cofres de Muammar Kadhafi para apoiar em 2007 a campanha presidencial da conservadora União por um Movimento Popular (UMP). Na abordagem aos últimos dias do combate pelo Eliseu, com o socialista François Hollande a persistir à cabeça das sondagens, o candidato à reeleição anunciou a intenção de apresentar queixa contra o portal Mediapart, que publicou um documento atribuído à cúpula do regime líbio que constituiria a “prova do financiamento”. O diretor da publicação online, Edwy Plenel, contrapõe: “O sarkozysmo não gosta decididamente da independência dos média”.

Soma já 48 horas a ofensiva política sem tréguas que a engrenagem da UMP está a mover contra o portal francês Mediapart. Depois de o primeiro-ministro François Fillon ter associado a publicação a supostos financiamentos de “amigos ricos” do adversário socialista de Nicolas Sarkozy, o próprio Presidente cessante acusa-a agora de estar “ao serviço da esquerda”. Hoje mesmo Sarkozy prometeu, na estação televisiva France 2, levar o caso à justiça.

Em causa está a divulgação de um documento que, segundo o portal de informação, provaria o aval do ex-líder líbio Muammar Kadhafi à atribuição de 50 milhões de euros para a campanha presidencial de Nicolas Sarkozy em 2007. Trata-se de uma nota que teria sido assinada pelo então chefe dos serviços secretos líbios, Moussa Koussa, e que seria endereçada a Bachir Saleh, antigo presidente do Fundo Líbio de Investimentos Africanos.

Moussa Koussa, que se encontra atualmente no Qatar, afiançava ontem que “todas estas histórias” foram forjadas. E também Saleh quis garantir que “jamais” foi “destinatário de um tal documento”. Sarkozy apoia-se nestas declarações: “Apresentaremos queixa contra a Mediapart. Esse documento é uma falsificação grosseira. As duas pessoas na Líbia que supostamente o teriam enviado e recebido desmentiram-no”.
“Caso gravíssimo”
Ouvido pela rádio Europe 1, o adversário de Sarkozy na segunda volta das presidenciais francesas preferiu sublinhar que compete à justiça apurar a credibilidade das informações avançadas pela Mediapart. “Se for falso, o site será condenado. Se não for falso, nesse momento haverá explicações a dar”, afirmou.

Quanto às acusações de laços entre a liderança socialista e o portal, François Hollande devolveu: “Esse site é um site de investigação, de informações, que implica algumas vezes personalidades da esquerda. Não vejo como é que pode ser estabelecido que haveria como que uma relação, uma confusão entre os socialistas e esse site de informação, que, recordo, é composto de jornalistas reconhecidos”.

“Podemos gostar deles ou não, mas são jornalistas que, em vários assuntos, demonstraram a sua competência”, insistiu Hollande, para deixar uma pergunta: “Acreditam que eu precisaria que houvesse jornais que fizessem sair casos, pensam que é assim que penso ganhar a eleição presidencial?

“De cada vez que há um escândalo que toca o poder, nunca é bom para a democracia e jamais é bom para os partidos de governo”, concluiu o candidato presidencial, já depois de o porta-voz do Partido Socialista, Benoît Hamon, ter manifestado a expectativa de que a justiça fizesse “o se trabalho o mais rapidamente possível”, tendo em conta que se trata de “um caso gravíssimo”.
“Revelações legítimas e fiáveis”
A partir de um documento redigido em Arábico, a Mediapart escrevia no sábado que “o regime de Kadhafi decidiu desbloquear uma soma de 50 milhões de euros para campanha presidencial de Nicolas Sarkozy em 2007”. O então número um dos serviços secretos do regime líbio evocaria, no texto, “reuniões preparatórias” com Brice Hortefeux - político próximo de Sarkozy que desempenhou funções governativas entre 2007 e 2011, nomeadamente o cargo de ministro do Interior - e “o intermediário Ziad Takieddine”.

O alegado destinatário do documento e antigo tesoureiro e diretor do gabinete de Muammar Kadhafi, Bachir Saleh, está atualmente em França, como confirmou já o seu advogado, Pierre Haïk, citado na edição online do jornal Le Monde. Saleh, assinala o diário francês, está debaixo de sanções económicas da Administração norte-americana e é visado por um “alerta vermelho” da Interpol com vista à sua extradição para a Líbia, sob acusações de “fraude” - a agência France Presse avançou ter apurado, em Tripoli, a autenticidade de fotografias publicadas pela Interpol na Internet; Bachir Saleh aparece, no entanto, identificado com o nome Bashir Al Shrkawi, nascido em 1946 em Agadez, no Níger, e detentor da nacionalidade líbia.

O primeiro-ministro francês afiançava esta segunda-feira não ter conhecimento de qualquer mandado de captura contra Bachir Saleh. Sublinhou também que Saleh tem um “passaporte diplomático do Níger” e que, “a esse título, está protegido pela imunidade diplomática”. Em março, uma alta patente militar do Níger, o coronel Djibou Tahirou, indicara à France Presse que o passaporte do antigo presidente do Fundo Líbio de Investimentos Africanos lhe fora entregue “sob conselho e pressão de um país europeu”. Que ficou por identificar.

Mostrando-se convicto de que o alegado documento líbio é “falso”, François Fillon acusou o diretor do portal Mediapart, Edwy Plenel, de ser “reincidente”: “Ele tinha feito a mesma coisa com o Partido Socialista, ele tinha publicado [no diário Le Monde] um documento que dizia que o PS era financiado por Noriega [antigo ditador do Panamá]. Le Monde teve de se desculpar. Se o senhor Plenel tem documentos, que os remeta à justiça”.

Numa resposta às acusações de Fillon e Sarkozy, Edwy Plenel escrevia hoje na Mediapart que “o sarkozysmo não gosta decididamente da independência dos média” e que o “demonstra com as suas reações” a “novas revelações sobre os seus segredos líbios”. “Como em 2010 no caso Bettencourt, o poder em exercício prefere insultar os jornalistas cujas informações o incomodam a responder às questões que eles colocam. A Mediapart não retira nenhuma das suas revelações, tão legítimas quanto fiáveis”, enfatizou o ex-diretor de Le Monde.

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Edwy Plenel, Financiamento, França, François Hollande, Líbia, Mediapart, Muammar Kadhafi, Nicolas Sarkozy, Presidenciais, Regime,

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