"WikiLeaks" publica 90 mil páginas de relatórios secretos

por RTP
Os parceiros da NATO são por vezes os últimos a saber das operações secretas dos EUA no Afeganistão Maurizio Gambarini, Epa

A plataforma digital "WikiLeaks" entregou a vários jornais dos EUA, da Grã-Bretanha e da Alemanha mais de 90 mil páginas de relatórios secretos da guerra no Afeganistão. As histórias que aí se revelam são embaraçosas para o Pentágono. O conselheiro de segurança nacional dos EUA, general James Jones, apressou-se a condenar a publicação. Mas não desmentiu o conteúdo dos documentos.

De nada serviu ao Pentágono mandar prender o analista de inteligência militar Bradley Manning, de 22 anos, acusado de passar informação a WikiLeaks. A plataforma digital voltou agora à carga, com muito mais informação. E promete voltar novamente, porque, além das 90.000 páginas publicadas, afirma ter em  seu poder mais 15.000, que não publicou ainda por conterem informação que, a não ser filtrada, poderia pôr em causa uma outra fonte.

Numa guerra que dura há cerca de nove anos, os documentos abrangem um período de seis: de Janeiro de 2004 a Dezembro de 2009. A sua divulgação foi energicamente condenada pelo conselheiro para a Segurança Nacional james Jones, que não pôs em causa o seu conteúdo: em palavras citadas pela Al Jazeera, Jones verberou "a revelação de infromação classificada por pessoas e organizações que poderiam pôr em risco as vidas de americanos e de parceiros nossos e [poderiam] ameaçar a nossa segurança nacional".

E, como a relativizar as denúncias feitas e a despojá-las de conteúdo actual, Jones lembrou também que o período a que se referem os documentos coincide em grande medida com o segundo mandato de George W. Bush, ao passo que Obama anunciou em Dezembro de 2009, "uma nova estratégia com um aumento de recursos substancial para o Afeganistão e mais focada nos santuários da al-Qaeda e dos taliban no Paquistão".

"Task Force 373": um esquadrão da morte

Entre as operações secretas reveladas nos documentos, contam-se as da "Task Force 373", na prática um esquadrão da morte. A unidade de elite norte-americana escapa à cadeia de comando da ISAF, a força multinacional que ocupa o Afeganistão, e obedece directamente ao Pentágono. As suas operações são altamente secretas - ou eram-no, até à divulgação dos documentos pela WikiLeaks. Elas são ocultadas aos próprios parceiros dos EUA na força da NATO.

O secretismo explica-se pelo carácter das operações, que facilmente cairiam sob a alçada de um tribunal internacional para crimes de guerra. A unidade 373 estuda, espia, observa a vida de afegãos suspeitos de ligação aos taliban e depois procede à sua captura ou eliminação - conforme entender melhor.

Assim, procedeu, segundo um dos documentos, em Junho de 2007, ao observar durante vários dias a actividade de uma escola corânica e ao decidir bombardeá-la para liquidar Abu Laith al-Libi, um alegado membro da al-Qaeda. O bombardeamento realizou-se e, em vez do alvo visado, foram mortas sete crianças. Os aliados dos EUA na força de ocupação, aparentemente, apenas souberam do fiasco pelos jornais.

A "Task Force 373" tem uma lista de cerca de 2.000 nomes - a JPEL (Joint Prioritized Effects List). Dela fazem parte pessoas consideradas com ligação aos taliban ou à al-Qaeda, e que a unidade especial decidirá abater ou capturar.

A guerra robotizada

Muitos dos bombardeamentos de concentrações civis (casamentos, por exemplo) têm resultado do uso indiscriminado dos "drones", os aviões não-tripulados em cujas informações se faz fé para decidir operações mortíferas, afinal contra a população civil. Os documentos agora divulgados são ricos em detalhes sobre o papel que tem desempenhado este novo protagonista duma guerra robotizada.

Os protóptios dos "drones" andavam havia algum tempo a ser ensaiados pelo Pentágono, mas não eram ainda considerados "maduros" para a utilização no terreno. Os atentados de 11 de Setembro vieram precipitar essa utilização e submetê-los a um baptismo de fogo para que não estavam preparados. Essa é, pelo menos, a justificação de Travis Burdine, um dos responsáveis pelos "drones", para desculpar os constantes massacres que têm originado entre a população.

Para além dessa acção contraproducente do ponto de vista político, os "drones" (de tipo "Reaper" e "Predator") têm-se revelado, segundo os documentos, uma armadilha mortífera para as próprias tropas da NATO. Com uma autonomia de voo de 20 horas, eles recolhem uma grande quantidade de informação valiosa. Essa acresce ao custo astronómico do próprio aparelho: entre 3,7 e 5 milhões de dólares cada um. Os 38 "drones" que até agora se despenharam ou foram abatidos no Afeganistão representam, portanto, um prejuízo considerável.

Ora, os taliban aperceberam-se do valor dos aparelhos e sistematicamente passaram a tomá-los como alvos (outra informação revelada pelos documentos, e que o Pentágono tem denodadamente procurado ocultar, é a existência em mãos dos taliban de mísseis terra-ar guiados pelo calor). E as instruções das unidades que controlam cada um dos "drones" são, em caso de despenhamento, para tratarem de recuperá-los. Assim se pretende impedir ao menos a captura do seu conteúdo de informação pelo inimigo.

Os documentos reflectem exemplarmente como estas instruções se aplicam, ao relatarem o caso de uma patrulha que, em 17 de Outubro de 2009, foi organizada para ir resgatar um "drone" a apenas 300 metros da base. A patrulha era composta por seis soldados norte-americanos e 40 soldados afegãos. Estes, porém, suspeitaram que os taliban tivessem montado uma emboscada e recusaram-se a sair. Acabou por organizar-se uma patrulha de composição exclusivamente norte-americana, mas também esta saiu e abreviou o regresso sem ter encontrado o aparelho, por recear a dita emboscada.

Apesar dos numerosos fiascos e dos reconhecidos inconvenientes, a utilização dos "drones" tem registado uma escalada nessa guerra em que os aparelhos não tripulados custam muitas vidas de civis locais, mas são supostos poupar vidas de militares ocupantes. Assim, no pouco que ainda vai do seu mandato, Barack Obama já tem na conta mais do dobro das utilizações de "drones" do que o seu belicoso antecessor, George W. Bush.

A fiabilidade do aliado paquistanês
Um dos aspectos mais irritantes que a publicação dos documentos apresentou para a Casa Branca e o Pentágono tem que ver com a fiablidade do seu aliado paquistanês na luta contra os taliban. A ISI (Inter-Services Intelligence, os serviços sercretos paquistaneses) participara com a CIA na organização das forças islâmicas que combateram a ocupação soviética dos anos 80 e agora pretendia-se que obedesse sem pestanejar à mesma CIA que lhe ordena perseguir a sua criatura de então.

Acontece que, segundo os documentos revelados por WikiLeaks, o Paquistão continua a ser o santuário para as guerrilhas taliban e a sua fronteira o lugar de passagem para toda a sua logística, para o material de todo o tipo e para os novos recrutas das mais diversas proveniências. E nada disto é combatido pela ISI - bem pelo contrário.

Nos documentos surge, por exemplo, citado o coronel Muhamad Yusef, da ISI, que terá estado presente em 21 de Agosto de 2008 numa reunião de comandantes insurrectos em que se decidiu um atentado contra o presidente afegão, Hamid Karzai. Yusef terá mesmo incitado o dirigente taliban Maulawi Izzatulah a matar Karzai.

Alguns dos antigos quadros responsáveis da ISI já eram, aliás, conhecidos como propagandistas públicos dos taliban e não teriam precisado da divulgação dos documentos por WikiLeaks para ganharem essa fama e esse proveito: era o caso de Hamid Gul, antigo chefe do serviço secreto paquistanês, que não tem feito qualquer segredo das suas simpatias.

O que era segredo, e surge como forte possibilidade nos documentos, é que no exercício desse cargo Gul tenha feito importantes entregas de material de guerra aos taliban: uma coluna de 65 camiões carregados de munições, um milhar de motociclos, 7 mil armas, incluindo kalashnikovs, morteiros e roquetes de tipo Strella. Ele terá, além disso, ordenado atentados suicidas. Gul reagiu entretanto às revelações com um enérgico desmentido.

O Times, um dos jornais a quem WikiLeaks entregou os documentos comentou a este respeito que deles resulta a ideia de que o Paquistão "permite a representantes dos seus serviços secretos encontrarem-se directamente com os taliban em sessões secretas de discussão estratégica e organizarem redes de grupos militantes".

O embaixador paquistanês nos EUA, Husain Haqqani, reagiu nervosamente às revelações e sustentou que "os EUA, o Afeganistão e o Paquistão são parceiros estratégicos e empenham-se conjuntamente em derrotar a al-Qaeda e os seus aliados taliban, militarmente e politicamente".

Episódio de uma deterioração
Seja qual for o conteúdo de verdade dos documentos, na parte que se refere ao Paquistão, a verdade é que o secretário norte-americano da Defesa, Robert Gatesm tinha afirmado no ano passado que "os contactos da ISI com [grupos extremistas] são um real motivo de preocupação para nós, e demos directamente a conhecer aos paquistaneses essas preocupações".

Entretanto, multiplicam-se os indicadores de uma deterioração galopante do quadro da guerra. O seu sintoma mais visível foi sem dúvida o mal-estar que cuolminou na demissão do general Stanley McChrystal. Mas os números também se tornam cada vez mais expressivos: o mês passado foi o mais mortífero para as tropas da NATO desde o início da ocupação, em 2001, com mais de cem militares mortos.





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