Paulo Dentinho

A sexualidade na política francesa

Começou com um rumor, uma palavra dúbia lançada aqui, retomada ali, divulgada acolá. E assim, a pouco e pouco, a lama da insinuação foi-se instalando, atingindo a sexualidade do candidato à presidência da república francesa, Emmanuel Macron.

Os ingredientes estão lá todos. Está a ter demasiado sucesso, é demasiado jovem (39 anos), é rico e brilhante. E, pormenor altamente conveniente para este "caso", é casado com uma mulher 24 anos mais velha. Mais: Pierre Bergé, esse sim homossexual assumido (foi o companheiro de Yves de Saint-Laurent) é um dos muitos seus apoiantes. O que logo serviu para se acusar o lobby gay de estar com a candidatura de Macron. O argumento tem tanta legitimidade como referir que o jornal "Le Monde" faz parte da esfera gay só porque Bergé é um dos seus principais accionistas.

A verdade é que Macron, com inteligência, varreu o assunto. Assumiu o rumor e desmenti-o com humor.

Mas o rumor ganhou outras formas, colocando interesses russos na sua origem. Como se eles não tivessem surgido há anos, logo que Macron foi nomeado ministro, com base no preconceito que um homem mais novo não pode gostar de uma mulher mais velha. Esqueceram-se, por exemplo, de Theo Sarapo e Édith Piaf, que tinham 20 anos de diferença. E, já agora, esqueceram-se que Sarkozy tinha referido Macron como "um andrógino".

O próprio "New York Times" também aludiu ao assunto, indo às origens do casal, referido que se conheceram quando ele tinha 15 anos e ela era professora, casada e com três filhos. Que ambos venceram preconceitos e resistências, acabando por casar em 2007. Para terminar aludindo à questão da eventual falta de sinceridade de Macron quanto à sua sexualidade.

A verdade é que os franceses não se costumam incomodar com o que se passa entre os lençóis dos políticos. Com excepção do general De Gaulle, todos os chefes de estado tiveram o seu quinhão de histórias de alcova. Pompidou por um alegado escândalo envolvendo a sua mulher em noites tórridas de trocas de casais. Giscard d'Estaing nunca escondeu a sua fama de conquistador. Até mesmo nas suas memórias... Mitterrand chegou ao cúmulo de ter duas famílias, a oficial e a outra.
Para além de vários casos que lhe foram sendo atribuídos, desde a cantora Dalida a uma jornalista sueca. Chirac tinha fama e, diz-se, o proveito de um quase libertino.

Sarkozy, esse celebrou o casamento de um dos mais conhecidos homens de televisão, quando era "maire" de Neully, e não descansou enquanto não lhe roubou a mulher. Que o viria a abandonar quando ele chegou à presidência da república. Ele não demorou a substitui-la por Carla Bruni.

Hollande também catrapiscou a mulher a um amigo, traindo-a depois com uma actriz. O episódio encheu de sorrisos e risos a sociedade francesa, com as imagens do presidente a ir de moto, disfarçado com o conveniente capacete, para os encontros amorosos, com o segurança a ir depois entregar "croissants" ao "nid d'amour".

Quanto à orientação sexual, ela também parece ser agora irrelevante para os franceses. Bertrand Delanoe assumiu na televisão que era homossexual. Foi há várias décadas, quando estava então em luta pela presidência da poderosa câmara de Paris. Ganhou e ainda foi reeleito.

O problema da política não é a sexualidade dos políticos. "Allez! Faut pensée à autre chose".

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