Portugal cada vez mais digital no consumo de informação

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O consumo de informação e entretenimento em Portugal está cada vez mais instalado no ambiente digital e reflete uma transferência de público que afeta de modo aparentemente definitivo os media tradicionais (jornais, rádio, tv). As redes sociais jogam um papel determinante nessa mudança de mercado.

No que toca ao consumo de notícias, quase se poderia dizer que em Portugal, rede social há só uma: o Facebook e mais nenhuma. A ideia peca por excessiva, mas tem sustentação nos 76% de utilizadores da Internet em Portugal que escolhem a criação de Mark Zuckerberg (e, diga-se, de outros que se perderam nas brumas da memória: Saverin, McCollum, Moskovitz e Hughes) para se manterem a par do que se passa no mundo. O Twitter, tão utilizado em países como Estados Unidos, Reino Unido e Espanha, tem uma penetração muito baixa em Portugal, cerca de 7%, contra os 89,9% do Facebook no que refere aos utilizadores de internet.

Estas são algumas informações extraídas do estudo sobre "Públicos, tendências e consumo de Media" executado pelo CIES-IUL, do ISCTE, para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e hoje apresentado em linhas gerais na conferência anual do agente regulador.

O estudo consiste numa adaptação para a realidade portuguesa de uma pesquisa multinacional realizada pelo Reuters Oxford Institute em dez países espalhados pela Europa, América e Ásia, que permite estabelecer uma análise comparativa entre o que se passa dentro e fora do país.

O consumo de notícias a partir de dispositivos móveis (smartphone e tablet) em território nacional é 4% a 5% inferior à média do estudo global. Está a crescer mas, em Portugal, o computador portátil ou de secretária ainda reinam.

Outra das diferenças face ao estudo do Reuters Institute tem a ver com a predisposição para consumo de notícias online pagas: apesar de por cá esse ser um recurso quase nada utilizado (1,8% contra 11% do estudo Reuters), Portugal é, comparativamente, um dos países onde se verifica maior número (ainda assim, reduzido) de respostas afirmativas quanto à possibilidade de pagamento por conteúdos noticiosos no futuro.

São dados que confirmam uma mudança comportamental no consumo de informação e entretenimento: os media tradicionais estão a perder cada vez mais terreno para novos intervenientes já instalados na Sociedade Digital e enfrentam a necessidade de encontrar resposta para essa mudança para continuarem sustentáveis.

Teoria da evolução aplicada aos Media tradicionais

Uma espécie de aplicação das leis de Darwin às empresas de comunicação social – adaptarem-se ou correrem o risco de morrer – foi o quadro apresentado por António Bernardo, membro do Comité Executivo Global da Roland Berger Consultants, perante um painel de representantes das empresas do setor português da Comunicação Social.

Munido de um estudo publicado recentemente pela consultora de que faz parte, Bernardo demonstrou que o produtor de informação e entretenimento, papel tradicionalmente desempenhado pelos jornais, rádios e televisões, foi ultrapassado pelo distribuidor de conteúdos na web na sua relevância junto do público e, por consequência, no volume de negócio. A evolução tecnológica, a Sociedade Digital, provocou uma alteração fundamental naquilo que António Bernardo se refere como a “cadeia de valor”; alterou o comportamento dos consumidores e favorece os novos intervenientes no negócio (tecnologicamente mais ágeis, beneficiando de uma presença no mercado de amplitude mundial), em detrimento dos media tradicionais.

No caso português, mercado pequeno e a atravessar uma crise, a situação é “muito difícil”, ajuíza Bernardo, considerando que a solução vai passar inevitavelmente por uma reestruturação definitivamente orientada para a digitalização e pela redução do número de operadores no mercado - “há demasiados em Portugal”, sentencia, reforçando que “é preciso fechar portas”.

Empresas contra um sistema de "pensamento único"

É com este último e polémico ponto proposto por António Bernardo que discordam as empresas do setor representadas na conferência da ERC. Daniel Proença de Carvalho, em nome da Plataforma de Media Privados (que reúne os grupos Controlinveste, Cofina, Impresa, MediaCapital e Renascença) vê nessa hipotética redução do número de players portugueses uma ameaça ao pluralismo e à diversidade da informação, e até à profissão de jornalista, com um claro prejuízo para os cidadãos. E sublinha que uma solução para o setor não pode passar por uma solução unicamente económica. Proença de Carvalho sugere outras soluções, jurídicas e de âmbito alargado à União Europeia, para combater o que qualifica de “concorrência desleal” dos grandes intervenientes no mercado digital global, como a Google, que não pagam impostos nem direitos de autor aos países e às empresas de onde retiram conteúdo com o qual obtêm grandes lucros.

Beato Teixeira, do Conselho de Administração da RTP, também afasta a ideia da consolidação orientada para um mercado com menos operadores. Seria quase instituir um “sistema de pensamento único”, considera, ao mesmo tempo que defende entusiasticamente - “a 100%”- o aumento da cooperação entre os jornais e as televisões, sublinhando o papel decisivo que a produção de conteúdos tem em todo o processo de consumo de informação e entretimento. O administrador do operador público de media também desdramatiza o quadro desenhado anteriormente por António Bernardo, lembrando a constante evolução com que se caracteriza o mercado específico da Comunicação Social nos tempos que correm e aconselhando a que não se tome por definitivo o cenário que hoje se observa. Sendo certo que qualquer solução que se encontre passará sempre por adequar os custos às receitas.

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