"Discussão gravíssima" entre Soares e Sócrates antecedeu pedido de resgate

| Política

“Os anos que nós vivemos, desde o 25 de Abril, foram de grande prestígio e desenvolvimento económico e político e com gente muito boa. De repente, aparece uma geração de medíocres”
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Mário Soares recuou esta noite às horas que precederam o pedido de resgate de Portugal à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional para revelar que o então primeiro-ministro, José Sócrates, “acabou por ter de ceder à evidência” do colapso financeiro depois de uma “discussão gravíssima” entre os dois. Na Figueira da Foz, onde apresentou um novo livro, o antigo Presidente da República arrasou as atuais lideranças políticas da Europa: “Uma geração de medíocres”.

O pedido de intervenção externa que conduziu o país ao programa de resgate financeiro da troika foi anunciado a 6 de abril de 2011. Numa intervenção a partir de São Bento, José Sócrates responsabilizava a Oposição, que inviabilizara o Programa de Estabilidade e Crescimento. As forças políticas à esquerda e à direita do Governo socialista, acusava Sócrates, haviam “deitado fora” uma oportunidade de evitar o recurso às instâncias internacionais: “Lutei por outra decisão. É preciso dar agora este passo em nome do interesse nacional”.

Mário Soares afirma agora que José Sócrates só “cedeu à evidência” do garrote financeiro após uma “discussão gravíssima” que ambos mantiveram. “Eu queria que ele realmente pedisse o apoio e ele não queria”, disse ontem à noite o antigo Chefe de Estado, recordando que Sócrates “achava que podia ter feito um acordo” com a chanceler alemã, Angela Merkel. Uma solução que “não foi possível”: “Tinha que se fazer aquilo que se fez, é evidente”.

“Discutimos brutalmente, mas amigavelmente, eu sempre a convencê-lo e ele a não estar convencido. E depois o ministro das Finanças interveio, mais tarde, e ele acabou por ceder perante a evidência das coisas”, adiantou Soares, que falava no Casino da Figueira da Foz, onde apresentou o livro “Um Político Assume-se”.

O antigo Presidente da República rejeitou, por outro lado, a ideia de que José Sócrates “fugiu” para Paris na sequência da derrota do PS nas eleições legislativas de junho. “Não podia era continuar ali. Foi atacado por toda a gente da pior maneira”, disse.
“Uma geração de medíocres”
Numa avaliação da atual direção socialista, Mário Soares considerou que o sucessor de José Sócrates, António José Seguro, “tem conduzido bem o partido”, revelando, na sua opinião, “muita competência” e “muita prudência”.

Ao mesmo tempo, todavia, o antigo Presidente da República não poupou nas críticas às atuais lideranças políticas da Europa e, por arrasto, de Portugal, falando mesmo de “uma geração de medíocres” de que o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, seria o melhor exemplo.

“Os anos que nós vivemos, desde o 25 de Abril para cá, foram anos de grande prestígio e desenvolvimento económico e político e com gente muito boa. De repente, aparece uma geração de medíocres. Se vir por exemplo o Sarkozy, bem, o Sarkozy é uma pessoa que todos os dias muda de opinião e que não tem nenhum nível. Se o ouvir falar – eu ouvi, eu conheço-o -, fica admirada”, ilustrou Soares durante a sessão da noite de quinta-feira, moderada pela jornalista Cândida Pinto.

O antigo Presidente questionaria também a distribuição de lideranças e de pesos políticos na União Europeia, assim como o papel desempenhado pelo presidente do Executivo comunitário, Durão Barroso. Adiante, pronunciou-se sobre as críticas do alemão Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, à aposta do Governo português no investimento angolano. “O menos que se lhe pode chamar é idiota, porque não tem autoridade moral para dizer o que quer que seja nessa matéria”, atirou.

Tópicos:

Chefe de Estado, Fundo Monetário Internacional, Governo, José Sócrates, Mário Soares, Presidente da República, Primeiro-ministro, Resgate financeiro, Troika, União Europeia,

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