Gaspar admite em evento do PSD que vai antecipar medidas de reserva

| Política

“Teremos que ter particular cuidado com a execução orçamental este ano”, sinalizou o ministro das Finanças durante o evento organizado pelo PSD num hotel de Lisboa
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O Governo prepara-se para antecipar os “efeitos de algumas das poupanças estruturais associadas com a reforma do Estado”, admitiu na última noite o ministro das Finanças. Depois de ter perspetivado, no Parlamento, uma revisão em baixa das estimativas macroeconómicas para 2013, Vítor Gaspar escolheu uma conferência organizada pelo PSD para afirmar que terá este ano “particular cuidado com a execução orçamental”. O que significa “antecipar medidas” que estavam guardadas “como reserva” para responder a “dificuldades orçamentais”. O governante não escapou a críticas na sala do hotel de Lisboa onde decorreu o evento partidário. E ouviu gritos de “demissão” na rua.

Ao anúncio de uma revisão das previsões para o comportamento da economia portuguesa em 2013, com o Governo a calcular agora em dois pontos percentuais a regressão do Produto Interno Bruto, segue-se a perspetiva de medidas de “reserva” a aplicar num horizonte próximo.

É o próprio ministro das Finanças quem o confirma, ao voltar a acenar com a reformulação de cenários macroeconómicos - a definir com a troika na sétima avaliação do programa de resgate financeiro, que tem início na próxima segunda-feira. Sem mais detalhes sobre as medidas a antecipar, o ministro das Finanças diz apenas tratar-se de “poupanças estruturais associadas com a reforma do Estado”.
“A ênfase deve ser posta na estabilização da economia, no primeiro passo, e no lançamento das condições de recuperação num segundo passo”, defendeu o ministro das Finanças, que, por mais do que uma vez, advertiu que a sétima avaliação do programa de resgate português comporta “grandes desafios para Portugal”.



“Significa que temos de ter particular cuidado com a execução orçamental este ano e que teremos de ser capazes de executar, antecipar medidas que guardávamos como reserva para o caso de se verificarem dificuldades orçamentais. Essas medidas serão fundamentalmente medidas de poupança orçamental em execução e a antecipação dos efeitos de algumas das poupanças estruturais associadas com o processo de reforma do Estado”, sinalizou Gaspar, ao intervir durante as Segundas Jornadas da Consolidação, Crescimento e Coesão.

“É muito importante que neste sétimo exame regular saiamos em condições de fundamentar a credibilidade e a confiança e sejamos capazes de promover uma melhoria substancial das condições de financiamento da economia portuguesa. Só dessa forma será possível potenciar a recuperação de investimento que é necessário para melhorarmos as perspetivas da atividade económica na segunda metade deste ano de 2013”, acentuou o ministro de Estado e das Finanças.

Vítor Gaspar sustentaria que a “prioridade imediata deve ser criar condições para recuperação económica, como fase de transição para o crescimento sustentado e criação de emprego”. Promovendo a “atividade privada”.

“Precisamos de investimento no sector exportador, precisamos de investimento no sector dos bens transacionáveis e só a atividade empresarial, só a atividade privada, é que permitirá criar bons postos de trabalho. Bons postos de trabalho com bons salários”, propugnou.
“O abismo”

Foi já numa fase de perguntas que Gaspar se viu a braços com críticas de militares social-democratas. Um deles, testemunhou a agência Lusa, questionou o ministro das Finanças sobre a carga de impostos. Um outro quis ouvir uma palavra do governante sobre “o abismo” de “uma população desempregada de um milhão e meio de pessoas”.

“Quer que a panela de pressão estoire a qualquer momento?”, perguntou mesmo o militante Miguel Couto, citado pela Lusa.



Gaspar lançaria mão dos últimos números do Instituto Nacional de Estatística para situar em 923 mil o número de desempregados. E para elencar como “aspetos mais dramáticos” o desemprego entre os jovens e o desemprego de longa duração. Reconheceria também que “Portugal é um país muito desigual, demasiado desigual”, o que, na sua opinião, está “associado a níveis muito baixos de confiança dos portugueses nas instituições do país”.

Reivindicando o que descreveu como ganhos de “credibilidade” externa, o titular da pasta das Finanças retomou a ideia de que Portugal goza agora de uma perceção mais favorável. “Estávamos associados à Grécia. Agora estamos associados à Irlanda”, insistiu, evocando o retorno aos mercados.

Vítor Gaspar fez questão de citar Paulo Portas: “Parafraseando o ministro dos Negócios Estrangeiros, foi no momento certo, com o mecanismo institucional correto e na companhia certa”.
“Grândola, Vila Morena”

O ministro das Finanças deixaria o local pouco depois da meia-noite. Sem fazer declarações à comunicação social, no interior de um automóvel e pela garagem. Também sob a proteção de uma dezena de elementos das forças de segurança. Nas imediações do hotel, um grupo de manifestantes gritou “gatunos” à passagem do carro.



Entre assobios e vaias, os manifestantes, integrados no movimento “Que se lixe a troika” e na plataforma “15 de Outubro”, entoaram palavras de ordem como “a luta continua, 2 de março está na rua”, “está na hora de o Governo ir embora” e “demissão”.

A polícia obrigara o mesmo grupo a abandonar o passeio do hotel onde decorria o evento do PSD e a posicionar-se no flanco oposto, diante da porta de outra unidade hoteleira. Horas antes, segundo a reportagem da Lusa no local, os manifestantes haviam já cantado “Grândola, Vila Morena”. A acompanhá-los, uma faixa: “Fora Passos, fora Portas”.

Tópicos:

Assistência Económica e Financeira, Exame regular, Execução orçamental, Governo, Manifestantes, Medidas, Militantes, Ministro das Finanças, Programa, Troika, Vítor Gaspar,

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