“Que se lixem as eleições”, diz Passos aos deputados do PSD

| Política

“Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições. O que interessa é Portugal”, clamou Passos
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O primeiro-ministro fez ontem à noite uma advertência ao grupo parlamentar social-democrata, reunido para um jantar na Assembleia da República, afirmando aos deputados do seu partido que “nenhum” deles “foi eleito para ganhar as próximas eleições”. Numa intervenção em que prometeu também uma reação “muito diligente” aos “riscos orçamentais” e acusou a Oposição de não ser capaz de apresentar “um caminho alternativo”, Pedro Passos Coelho asseverou que, “para responder ao país”, admite ignorar os resultados do PSD nas próximas legislativas. “Que se lixem as eleições”, disse.

No jantar do grupo parlamentar do PSD que marcou o termo da sessão legislativa, Passos Coelho quis responder a vozes que consideram que “já chega de ser bom aluno” e de impor “sacrifícios”, quando já se recortam no horizonte político os próximos combates eleitorais.

“A verdade é que nenhum dos senhores ou das senhoras foi eleito para esse mandato. Nenhum dos que aqui estão foi eleito para ganhar as próximas eleições, ou para ajudar a ganhar as autárquicas, nem as regionais deste ano nos Açores, nem as europeias que aí vêm a seguir. Não foi para isso que fomos eleitos. Foi para responder ao país”, advertiu o primeiro-ministro.

“Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições. O que interessa é Portugal”, clamou Passos, que insistiria no bordão de que o Governo está “a seguir o único caminho” possível: “Se queremos vencer esta situação difícil, só há uma forma de o fazermos, é cumprir as nossas obrigações”.

Houve também críticas aos partidos da Oposição, acusados de não conseguirem fazer passar “uma visão sobre o futuro que pudesse representar aquilo a que se chama um caminho alternativo”. Sem isolar nomes, Passos Coelho fez um ataque genérico àqueles que, “com muita demagogia”, procuram “marcar pontos ou granjear mais simpatia sublinhando o nível de desemprego que se atingiu, o número de falências que se tem vindo a observar, as dificuldades no financiamento à economia, as dificuldades adicionais que as famílias passaram a ter”.
Uma “conflitualidade que é promovida”
Diante dos parlamentares laranjas, da presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, e de alguns membros do Executivo – estiveram no jantar Miguel Relvas, ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, o ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, e os secretários de Estado da Segurança Social, Marco António Costa, e da Igualdade, Teresa Morais -, o primeiro-ministro procurou ainda desvalorizar recentes manifestações de descontentamento com o desempenho governativo. Não existe, para Passos Coelho, uma grande “conflitualidade na sociedade portuguesa”.

Segundo Passos, haverá uma “diferença muito grande entre opinião pública e a opinião publicada”. Assiste-se “claramente”, na avaliação do primeiro-ministro, “a um dos momentos em que essa divergência é mais gritante”.

“Os portugueses que veem essas imagens, que leem essas opiniões ao fim do dia, não devem senão pensar qualquer coisa parecida com isto: aonde é que está essa conflitualidade que é promovida, aonde é que existe esse exacerbamento do país? Eles não veem”, concluiu Pedro Passos Coelho, num tom que fora já empregue, pouco antes, pelo líder parlamentar do PSD.

Também Luís Montenegro quis reivindicar que “a maioria do povo português está a compreender as decisões deste Governo”. No entender do presidente do grupo parlamentar social-democrata, a contestação parte de “algumas minorias” com “uma postura mais hostil” que querem “dar a ideia de que o país se revê nessas posturas, mas, ano após ano, o país tem sabido distinguir essas percepções das suas vontades livre e democraticamente expressas”.
“Riscos para o Orçamento”
A fechar o dia em que foi divulgada a execução orçamental dos primeiros seis meses de 2012, Passos Coelho deixou aos deputados social-democratas a garantia de que a resposta aos “riscos orçamentais” vai ser célere.
Os dados da execução orçamental do primeiro semestre mostram que foi a redução das despesas com pessoal que mais contribuiu para um défice do Estado inferior em mais de 200 milhões de euros ao teto definido com a troika.

O défice orçamental das Administrações Públicas foi de 4137,8 milhões de euros em contabilidade pública. O programa negociado com o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia estabelecia como objetivo um défice de 4400 milhões de euros.

Segundo as contas da Direção-Geral do Orçamento, as despesas com pessoal estavam a regredir 7,3 por cento até maio. Em junho já caíam 16,8 por cento, em comparação com o primeiro semestre de 2011. Esta evolução reflete, em larga medida, o corte de subsídios a trabalhadores do Estado.

No capítulo da receita fiscal líquida, o cenário levanta mais problemas ao Executivo. Houve um decréscimo de 3,1 por cento no primeiro semestre de 2012. O que representa, mesmo assim, uma melhoria de 0.4 pontos percentuais face à quebra de maio.

“Estamos a ajustar mais depressa, mas isso traz riscos para o Orçamento e nós estamos a considerá-los. Podem ter a certeza de que o Governo será muito diligente na forma de responder a estes riscos orçamentais”, afiançou.

Quanto aos números da Direção-Geral do Orçamento, o governante destacou “dois dados que saltam à vista”: o comportamento da despesa, “que o Governo controla”, e a receita fiscal, que o Executivo “não controla” e que está “aquém daquilo que era a necessidade”.

“Nós não fazemos de conta, nem pintamos isto de cor-de-rosa, nem andamos aqui a ocultar, nem a desfazer, nem a dizer que não é bem assim. Nós sabemos que é assim. A receita fiscal não está a ter o comportamento que era necessário. Não depende do Governo, evidentemente”, advogou o primeiro-ministro, para quem a quebra nas receitas fiscais decorre de fatores que “não são todos maus”: “Significa que nós também estamos a ajustar mais depressa, apesar de essa não ter sido a nossa vontade”.

Quanto à despesa, Passos salientou que “está abaixo” das metas que estavam fixadas, “qualquer que seja o ângulo por que se veja”. “Agora há gente que vê sob todos e mais alguns para ver se encontra um ângulo em que não esteja. Sob todos os prismas, a despesa pública está a cair. As notícias que vêm sendo reveladas significam que nós estamos a fazer aquilo com que nos comprometemos”, sustentou.

Outra das promessas deixadas por Pedro Passos Coelho no evento partidário foi a de que o Governo vai mostrar ainda em 2012 poupanças com as parcerias público-privadas e nos apoios a fundações. “É um ponto de honra, não haverá privilégios que fiquem intocados”, aventou.

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