A dor de um combatente que nunca regressou

Marie-Thérèse Duvette, a neta francesa do soldado português António Teles, relata as precárias condições das tropas portuguesas, as razões que levaram o avô a ficar em França e o seu sofrimento por nunca ter regressado a Portugal.

| Portugal na I Grande Guerra

Pergunta: Quem era português na sua família?

Resposta: Era o meu avô, que veio para a guerra com todos os outros soldados portugueses em 1914.

P.: E sabe como ele veio, e o que veio fazer exactamente?

R.: Bem, ele veio para combater, com soldados que creio terem sido ingleses, e o acampamento deles era nos arredores de Blessy. Depois, o meu avô acabou por ficar em Blessy porque tinha conhecido e casado com a minha avó.

P.: O que é que ele fazia durante a guerra? Qual era o posto dele?


R.: Não sei exatamente o que é que ele fazia. Ele foi fotografado com um grupo de soldados, creio que se ocupavam da mecânica ou algo dessa área. Acho, mas não sei mais nada sobre isso.

P.: E chegou a conhecê-lo?

R.: Sim, eu tinha nove anos quando ele morreu.

P.: E que memórias guarda do seu avô?


R.: Era uma pessoa que não falava muito, eu era muito jovem quando ele faleceu e lembro-me que quando vinha cá a casa, e ainda são cerca de 17km a separar as duas aldeias, vinha de bicicleta e no inverno vinha de charrete com a minha avó. Lembro-me muito bem disto.
Há bocado, ao verificar o livrete de família, reparei que quando o meu avô chegou a França já tinha perdido o seu pai, mas ainda tinha a sua mãe e a sua irmã. Sei também que a mãe do meu avô António morreu louca, coitada. Ela gritava pelo seu filho sem parar. Penso que quando o meu avô morreu, aos 59 anos, morreu de sofrimento por não poder ver uma vez mais os seus e por não poder comunicar com eles. É certo que eles tinham cartas e chegaram a enviar muitas ao longo dos anos.


P.: E porque é que ele nunca mais voltou a Portugal?


R.: Porque a minha avó nunca o deixou ir.

P.: E sabe porquê?

R.: Porque ela tinha medo de nunca mais o ver. Foi apenas por isso. O meu avô foi apanhado pelos polícias, quando os seus filhos ainda eram muito pequenos, ele queria partir, mas viria buscar os seus filhos mais tarde. Os meus avós não eram muito ricos, é certo, mas a minha avó poderia talvez ter feito um esforço para que ele voltasse lá pelo menos uma vez na vida. 

P.: Ele casou-se com a sua avó logo depois da guerra ou regressou ao seu país e voltou?


R.: Não, não. Ele saiu do seu país e nunca mais lá voltou, nunca.

P.: Alguma vez teve problemas aqui em França, depois da guerra, devido à sua nacionalidade?

R.: Os portugueses não tinham o direito de, por exemplo, ter pombos-correio, porque eram estrangeiros. A minha avó, quando se casou com o meu avô, tornou-se meio estrangeira porque na sua foto no bilhete de identidade ela está de perfil, como todos os estrangeiros. Ao casar com um estrangeiro ela tornou-se em parte estrangeira também.

Enfim, há momentos atrás perguntou-me qual era o estado de espírito do meu avô, e a minha mãe dizia que o via chorar muito frequentemente. A chorar sozinho. Era a nostalgia do país, a nostalgia da sua família.

P.: Houve muitos portugueses, como ele, que tenham ficado aqui em França?


R.: Sim, repare que existiam associações de portugueses, mas o meu avô nunca lá ia. A minha avó não queria muito que ele fosse.

P.: E sabe de onde veio o seu avô?

R.: De Pedrógão do Alentejo.

P.: Conhece?

R.: Sim. Eu fui lá quando tinha 20 anos e apaixonei-me pelo país. Eu gostei muito, as raízes estão lá. A minha mãe tinha prometido a si própria ir ver onde o seu pai nasceu. Portanto, quando comecei a trabalhar havia um pouco mais de dinheiro e fomos lá as duas.

Fomos muito bem recebidas, apesar de não falarmos a língua. De cada vez que ouço falar português, fico comovida. Ainda mantenho ligação com os meus primos, nós até já fomos a Lisboa, mais concretamente a Almada, e então foi um primo que nos recebeu. De seguida fomos até à aldeia, de comboio, e fomos recebidas lá por toda a família, ali, acolá, por todo lado, vinham ver as descendentes do António. Toda a aldeia sabia que o António tinha ido para a guerra e nunca tinha regressado. E ali estavam a sua filha e a sua neta.

P.: O seu avô correspondia-se com a família?

R.: Ele não podia porque não sabia escrever, sabia contar, assinar o seu nome, tudo isso, mas como não sabia escrever não o podia fazer. 

Portanto a intérprete sempre foi a minha avó, que lhe fazia a tradução do correio que ele recebia e que escrevia também. 



P.: Ele sentiu-se bem recebido, quando ficou em França?


R.: Não muito. Os portugueses não eram lá muito bem vistos, sabe. Um dia disseram-me à mesa: "tu não passas de uma descendente de estrangeiros." A mim. É estranho quando se ouve dizer isso.

P.: E nem o facto de os portugueses terem vindo para combater ao lado dos franceses ajudou a mudar essa opinião?


R.: Não, não, absolutamente nada. Só agora é que há associações que reconhecem o papel que eles tiveram, o que eles fizeram, e isso deixa-me orgulhosa. Mas antes não, a prova é que os portugueses sofriam de fome onde estavam, não havia nada para comer, eles iam arrancar batatas nos campos. Na altura, eram os ingleses antes de todos os outros, e apesar de os portugueses terem vindo com os ingleses, estes eram bem vistos, mas eles não especialmente. É por isso que hoje em dia se lhes presta uma muito justa homenagem, o que me orgulha.

Durante a guerra eles circulavam um pouco por aqui por ali, eram um pouco itinerantes e, se não tinham nada para comer, arrancavam batatas dos campos para comer. Eles tinham fome, muita fome, porque o exército inglês, apesar de ter o dever providenciar o essencial para as suas necessidades, raramente o fazia a tempo e horas. Ele nunca falou sobre isso, era a minha mãe que me contava que eles arrancavam as batatas dos campos para comer.  


(Entrevista traduzida por Mafalda Saraiva)

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