Trincheiras portuguesas - antecedentes, quotidiano e epílogo

A historiadora Isabel Pestana Marques é a autora do livro "Das trincheiras, com saudade", publicado em 2008. Aí refere as peculiaridades da preparação da guerra do lado português, as falhas de previsão sobre a natureza da guerra que as tropas iam encontrar, a originalidade das trincheiras portuguesas, devida ao terreno pantanoso em que se instalaram, e vários outros detalhes altamente reveladores. Concedeu uma extensa entrevista à RTP, no âmbito do documentário "Portugueses nas trincheiras".

| Portugal na I Grande Guerra

Pergunta: Em que condições foram feitos os treinos em Tancos antes de partir para a frente o Corpo Expedicionário Português (CEP)?

Resposta: As tropas foram chegando a Tancos aos poucos e poucos, porque tinham sido recrutadas por todo o país, tinham tido algum treino preliminar nos respectivos quartéis regionais e depois foram concentradas em Tancos. Como chegam aos poucos e poucos, os treinos também vão ser parcelares. Só mesmo no fim é que se vai conseguir concentrar cerca de 20.000 homens e ter um treino de conjunto.

Esse treino vai ser sobretudo à base de marchas para treinar a constituição física, a respiração, que era muito importante por causa do combate dos gases. Vai haver exercícios de tiro, exercícios físicos, subir a corda, etc..

No entanto vai haver pouco exercício de construção de trincheiras, pouco exercício de metralhadoras, e pouco exercício de gases, de resistência aos gases - fundamentais esses três exercícios para a guerra das trincheiras. E é isso que vai falhar em Tancos.



P.: Porque é que isso falhou em Tancos?

R.: Falhou porque os nossos instrutores não estavam preparados para a guerra original das trincheiras. Os portugueses estavam habituados à guerra de África. Aliás já tinham enviado tropas.

A guerra em África era completamente diferente, era uma guerra de movimentos. Na Europa nesta fase em 1916 e depois em 1917 já estávamos noutro tipo de guerra, de guerra parada, em que os homens vão abrir buracos, abrir valas para se entrincheirarem.


P.: E o treino em Tancos era tão inadequado porquê?


R.: Tinham ido alguns grupos de instrutores portugueses a França, mas tinham estado lá muito pouco tempo e não tinham dado grande importância, acharam que mesmo assim a guerra não iria ter essas características.

P.: Que sentido tinha fazer treinos com cavalos, como vemos nas imagens de Tancos?

R.: Houve exercícios sobretudo de Infantaria, este tipo de exercícios que eu indiquei. E também houve muitos exercícios de cavalaria, erradamente, ou seja, a cavalaria não era necessária para as trincheiras.

Em Tancos vai-se treinar muita Cavalaria, que era a arma nobre das tropas portuguesas. Quando chegam a França, vão ter de transformar a Cavalaria em ciclistas, porque não eram necessários os cavalos para a guerra de trincheiras. Quando muito ficavam na retaguarda para algum apoio aos militares. Todas as praças da Cavalaria vão ter de ser ciclistas, portanto vão ter de chegar a França e receber uma nova instrução. Em vez de andarem a cavalo, vão andar de bicicleta para os recados por exemplo, para as transmissões.

P.: E eles depois, em França, não foram treinados outra vez?


R.: Não foi suficiente fisicamente e sobretudo psicologicamente. Ou seja, não criaram espírito de corpo para treinar as tropas para a guerra. Havia que criar um bom moral para que eles começassem a resistir. Quando enfrentam a guerra, há toda a pressão física da morte, da ferida, mas também há o embate psicológico e isso não foi criado em Tancos. Porque foi pouco tempo, e com as tropas dispersas. 

Quando chegaram a França, os aliados exigiram uma nova instrução. Isto que vai acontecer em França vai demorar muito tempo, o que vai provocar, digamos, eles entrarem tardiamente nas trincheiras.

Horário de instrução do CEP em França

Atividades Horas
Alvorada 6h00
Limpeza individual 6h15
Limpeza dos acampamentos 6h45
Revista dos acampamentos 7h15
1ª refeição (café) 7h20
Limpeza dos solípedes 7h30
Revista de Saúde 8h00
Data de água 8h30
Ração 9h00
1º tempo de instrução 9h11
2º refeição 11h30
2º tempo de instrução 13h17
Ração 16h00
3ª refeição 17h30
Limpeza do armamento e equipamento 18h30
Parada da guarda 19h30
4ª refeição 20h30
Recolher 21h00
Silêncio 21h30
Fonte: Isabel Pestana Marques

P.: Foram os défices da instrução de Tancos que causaram inteiramente esse atraso?


R.: A instrução em França também vai ser dificultada devido à vacinação. Eles têm de ser vacinados contra o tifo, contra a varíola, etc.. Não tinham sido cá vacinados e essa vacinação vai provocar uma quarentena e grandes baixas. Ou seja: em vez dos soldados estarem preparados para entrarem nas trincheiras na zona de combate vai tudo para a retaguarda para os hospitais, o que vai provocar um compasso de espera.

Por isso as tropas portuguesas nunca mais estavam prontas para avançar, o que provoca também conflitos com os ingleses, com os franceses. Ou seja, as nossas tropas não estavam devidamente preparadas para enfrentar a linha de combate.

P.: Foi então um problema do Estado-Maior, cá em Portugal não ter entendido que tipo de guerra é que eles iriam fazer em França?


R.: Foi o resultado de uma decisão precipitada, uma decisão governamental. Na altura, na Europa - não eram só os portugueses -, pensava-se que a guerra iria acabar em três meses e então havia uma corrida dos governos para levaram as tropas para o teatro de guerra, para marcarem presença, porque estavam à espera que a guerra acabasse rápido, na esperança das indemnizações.

E portanto quiseram fazer uma instrução à pressa, um embarque à pressa, e colocar lá tropas mesmo que elas não entrassem em zona de combate. Só que enganaram-se, porque a guerra vai demorar muito tempo e portanto era necessário preparar as tropas. 

P.: Com tanta pressa, acabaram então por complicar e atrasar a intervenção que se pretendia?


R.: Como os aliados se recusaram a enviar tropas mal preparadas para as trincheiras, porque seria um massacre, o que vai acontecer é que as tropas portuguesas têm de ter um compasso de espera de preparação.

P.: Em relação a outras tropas estrangeiras também aconteceu isso ou Portugal foi um caso quase único nesse aspecto, de mau treino, de chegar e ter de fazer as vacinações, e isso tudo? 


R.: Não. Era normal as tropas chegarem a França, terem o mínimo de instrução para se adaptarem ao clima, à paisagem, e fazer-se a vacinação de algumas tropas que não tivessem sido vacinadas. Seria uma instrução sumária.

O que aconteceu com os portugueses, mas também aconteceu com outros, foi a instrução ter de ser mais prolongada não só a adaptação ao ambiente, mas toda a instrução  - as tácticas de guerra que eram novas, que os portugueses não tinham treinado cá. 

P.: Quais eram os aspectos decisivos da adaptação àquele tipo de guerra?


R.: Não fazia sentido ir para uma guerra de trincheiras se não soubessem construir e manter a trincheira capaz de resistir. Isso é fundamental, porque a guerra de trincheiras é a espera e é o combate, a espera e o combate, e de facto se não se souber sobreviver numa trincheira não tem sentido.

A vacinação também vai acontecer só que não vai ser feita em Portugal porque não havia tempo e não havia dinheiro, quem vai fornecer as vacinas vão ser os ingleses.

P.: E, quando fala da adaptação ao ambiente, também é a adaptação ao clima, por exemplo, que é completamente diferente? Também isso foi algo de complicado para eles?


R.:- Sim. Os portugueses foram para uma zona da Flandres extremamente difícil, uma zona plana, muito pantanosa o que vai obrigar a que as nossas trincheiras sejam diferentes das dos outros, dos ingleses nomeadamente, porque não se pode cavar muito fundo, porque se encontrava muita água e obrigava a que os homens tivessem água até ao joelho e não podiam progredir.


P.: Como se adaptam as tropas portuguesa a esse terreno pantanoso?

R.: Vão ter de fazer estrados e vão ter de fazer trincheiras em altura. Ou seja, um homem não podia estar em pé, tinha de estar sempre agachado, com as sacas de terra, de serapilheira, a protegerem os homens, para eles não sofrerem os ataques dos atiradores, dos snipers. E portanto a própria geografia do espaço, vai obrigar um outra forma de estar na trincheira. 

P.: Além do terreno pantanoso, havia o clima. Que tipo de problemas coloca o clima às tropas portuguesas?


R.: Estávamos perto do mar, extremamente húmido, muito chuvoso, que vai por exemplo provocar grandes pneumonias. Os portugueses vão ter grandes baixas devido às doenças do clima da Flandres, e não tanto aos ferimentos de guerra.

E os Invernos são extremamente rigorosos, com 30 graus negativos. Há muitos portugueses que pela primeira vez vão ver neve. Há muitos que não vão resistir ao gelo, vão ficar com os membros queimados do gelo que os vai obrigar portanto a ir para a retaguarda. 

E depois estávamos mal equipados a nível de fardamento, que também vai ser outro problema. Portanto nós não vamos estar capazes de resistir tão bem aos rigores do Inverno por exemplo como os nossos aliados ingleses, escoceses, australianos, que combatiam ao nosso lado.

P.: - Voltando um bocadinho atrás, quem eram os soldados portugueses que foram para a guerra, que tipo de pessoas?

R.: A maior parte eram homens recrutados, ou alguns voluntários de todo o país, Continente e Ilhas, a média de idades variava entre os 19 e 25 anos. A maior parte deles eram solteiros, também havia casados; e a maior parte deles eram analfabetos. Ou seja eram homens do campo, porque não nos podemos esquecer que Portugal era um país rural, alguns eram urbanos mas tinham muito pouca escolaridade e portanto era uma massa humana que foi obrigada a ir para a guerra.

P.: E o que sabemos sobre a atitude com que eles encararam a ida para a guerra?

R.: Muitos enfrentaram a ida para a guerra com entusiasmo, como aventura. Era a primeira vez que mudavam de terra, que saíam da sua terra natal e vinham à capital. Para eles foi uma grande aventura: pela primeira vez andaram de comboio, pela primeira vez viram o mar quando foram para França, ou pela primeira vez viram a neve lá em França.

Portanto, o ir para a guerra também tinha o cunho de aventura e de emancipação em relação à família e à terra natal. Misturado com o medo da guerra, claro, de perder a vida ou do sofrimento, de ver os camaradas caírem.

São esses homens que vão para a guerra. Vão deixar cá as namoradas, as mães. Há muitos jovens que de facto depois vão procurar manter a ligação com a família. Não eram militares de carreira, eram militares feitos à pressa, que só nessa altura contactaram com o Estado pela primeira vez através da guerra.



P.: Esse quadro é típico da generalidade dos exércitos na Primeira Guerra Mundial?


R.: - Por exemplo o exército inglês não. O exército inglês era todo militarizado, também havia milicianos, mas de facto tinham uma preparação diferente. Não nos podemos esquecer é que eles já lá estavam desde 14, portanto nós só entramos em 17 e portanto tínhamos uma diferença: tínhamos menos experiência da guerra e a experiência que tínhamos da guerra era a guerra de África, que era completamente diferente, em que ia sobretudo o exército que já tinha preparação, o exército de carreira. 

Agora não: agora foram cerca de 55.000 homens, que pela primeira vez tiveram de pegar numa arma, pela primeira vez tiveram de fazer uma marcha, de ter uma disciplina militar e portanto de enfrentar uma hierarquia militar e uma guerra. Por isso o impacto vai ser diferente.

P.: - E houve casos de insubordinação?

R.: Houve, como em todos os exércitos. Na campanha da Primeira Guerra Mundial, isso foi frequente em todas as forças militares.

No caso português, a ida para a guerra não foi muito bem recebida por toda a gente, foi um tema fracturante. O governo não conseguiu convencer toda a população que era bom ir para a guerra para defender a pátria. Por isso já começaram as insubordinações cá. 

P.: Que insubordinações houve antes da partida para a guerra?


R.: A chegada a Tancos vai ser palco disso, vai haver vários batalhões que se vão recusar a partir para Tancos. Quando chegam a Tancos alguns também se vão insubordinar.

Depois, o próprio embarque em Alcântara também vai ser tumultuoso, porque não tínhamos navios suficientes. Há uma certa descoordenação e portanto eles, em vez de embarcarem rapidamente e irem para França, vão ficar alguns dias dentro do navio. Claro que eles vão querer vir cá para fora para se divertirem um bocadinho antes de irem para a guerra e vai haver alguns tumultos.

P.: E esse ambiente de contestação mantém-se à chegada a França?

R.: - Quando chegam a França, o primeiro ano, 1917, vai ser calmo. Também é um ambiente calmo: a nível de guerra não há grandes combates. Em 1918 vai ser pior, porque a guerra vai ser mais acesa e o desgaste da guerra vai, digamos, consumir o chamado capital de coragem de se manter com uma arma na mão numa trincheira à espera de um ataque. 

E então vai haver insubordinações, revoltas, vai haver alguma reacção portuguesa, primeiro mais pacífica, no segundo caso mais violenta. Vai ser preciso criar um depósito disciplinar para os insubordinados e, quando se fala de depósito disciplinar, é uma maneira de dizer campo de concentração para os revoltosos.

Mas isto vai acontecer com os portugueses, e vai acontecer com os franceses, com os ingleses, etc. - ao ponto de os franceses e os ingleses terem uma série de fuzilamentos para acalmar as tropas.

Portugal não vai ter isso por exemplo. O grau de indisciplina foi diferente, foi numa fase também diferente, e a autoridade governamental também era diferente para tomar uma atitude dessas.


P.: - E como é que se faz depois a viagem: o embarque, o desembarque, onde é que eles desembarcam, como é que isso depois se processa?


R:: As tropas estavam concentradas em Tancos, depois têm de se deslocar até à capital, até Lisboa. Só que depois não havia aquartelamento para tanta gente e então o que é que vai acontecer? Dá-se outra vez a desmobilização, que provoca a tal desmoralização: quem tinha familiares em Lisboa fica na casa das famílias; alguns vão aproveitar para não regressar, vão para a sua terra ou vão para Espanha.


Embarque das tropas / Fonte: Ilustração Portuguesa

Outros não: vão ficar ou nos quartéis ou nas casas à espera de embarque. 
Quando há ordem de embarque, fazem, portanto, o embarque de homens armas, equipamentos, e solípedes - os cavalos, as mulas, os burros, que era necessário levar para servirem de animais de carga.


Embarque das tropas / Fonte: Ilustração Portuguesa

P.: E tudo isso embarca nos mesmos navios? Não há distinção entre navios de transporte de tropa e navios de transporte de carga?

R.: Entra tudo nos navios e depois espera-se a ordem de zarpar. Vai demorar um tempo de facto, devido às condições para avançar. Cerca de dois, três dias, estão em Alcântara, há os tais tumultos, mas depois consegue-se de facto avançar com o embarque e vão atravessar o Atlântico até França, vão desembarcar em Brest que é o porto de desembarque português. Também vai ser depois o americano, o que nos vai provocar alguns problemas. O porto de Brest é onde os portugueses vão desembarcar após uma viagem de 5, 6 dias.

P.: A descoordenação de que falou refere-se à data da partida dos navios, ou também à viagem?

R.: As viagens são extremamente desgastantes porque a organização o sistema organizativo militar não vai ser capaz de distribuir homens, animais e equipamentos de uma forma coordenada e harmoniosa nos navios. Portanto há navios sobrelotados em que vai haver falta de higiene, vai haver falta de alimentação, vai haver doenças a bordo e indisciplina, mas depois há outros navios quase estão vazios. Portanto vai haver uma descoordenação.

P.: Mas quando chegam a Brest não deixaram para trás essa viagem complicada e caótica?

R.: Quando eles chegam a Brest estão ansiosos por desembarcar. Só que estavam lá os navios de todos os aliados, portanto o desembarque era por ordem. Os portugueses mais uma vez vão ter de esperar com a terra à vista para desembarcar. Também não vão gostar e vão-se amotinar alguns. Vão pegar fogo, por exemplo, aos colchões, vão tentar atirar-se para o mar para tentarem desembarcar e então a partir daí os franceses decidem que é melhor desembarcar o mais rapidamente os portugueses, que eles já estão um bocadinho irritados.

Vão desembarcar e vão ser muito bem recebidos pela população, vai haver um bom contacto com a população de Brest. Eles aí vão acampar à espera de ter então embarque ferroviário até à zona do sector português, que era do outro lado já na zona da Flandres.



P.: E como fazem para chegar ao sector português?

R.: Vão embarcar de comboio, vão fazer uma viajem longa, vão atravessar toda a zona da Flandres. Para eles vai ser uma novidade verem aquele tipo de paisagem, porque não conheciam o novo tipo de casas de gentes, etc.. Até que vão chegar até à zona do sector português em La Lys. E é aí que vão desembarcar.

Depois dessa longa viagem, que também não foi fácil, vão ter de marchar até à zona dos vários batalhões. Há uns que vão fazer marcha de dois dias, outros vão fazer marchas de cinco a 10 dias, e são extremamente penosas. Muitos, quando vão chegar finalmente à zona portuguesa, dizem que tinham os pés tintos de sangue, porque de facto era uma viagem muito dura, desde Lisboa até mesmo à zona de La Lys.

P.: O que fazem ao chegar e como se instalam?

R.: Aí vão ter tempo para descansar, poderem alimentar-se. Alguns vão baixar logo ao hospital, outros não. Vai haver uma nova triagem e aí vão receber instruções para a tal instrução preliminar ou aguardarem e depois irem para as trincheiras, mas isso vai ser ao longo do ano 1917.

Porque Portugal não vai ter capacidade de fazer um desembarque maciço das tropas, nós não tínhamos navios, nós dependíamos dos ingleses e vai chegar uma altura em que os ingleses tiram os navios que nos tinham emprestado. Então nós em vez de termos sete navios para enviar tropas, vamos ter só dois e por isso as tropas vão de Janeiro até Junho, gota a gota, a desembarcar em França. E isso vai levantar os tais problemas depois, de organização.

P.: Porquê essa decisão dos ingleses?

R.: - Os ingleses vão estar a enfrentar nos seus mares uma guerra muito importante que é a guerra submarina alemã. Os alemães estão a destruir toda a frota inglesa, eles pediram ajuda aos franceses que também não tinham.

O próprio confisco de navios alemães que acontece em Portugal em 1916, que vai despoletar a declaração de guerra alemã, tem a ver com isso. Os ingleses precisavam dos navios alemães que estavam em Portugal, então pediram esses navios, e Portugal requisitou-os. Em 1917 outros navios tinham sido afundados, e era necessário compensar as perdas.
 
Enfim, os ingleses decidiram que era mais prioritário os navios ajudarem os próprios ingleses do que os portugueses. Por outro lado, no almirantado comentava-se que de facto a organização portuguesa não era das melhores e eles não se queriam responsabilizar por tantas tropas portuguesas em França. Foi uma maneira também de boicotar um bocadinho a presença portuguesa em França. Porque as tropas não chegavam lá rapidamente.



P.: Qual era o motivo para essa vontade de boicotar as tropas portuguesas?

R.: Os ingleses sempre preferiram que só fossem armas e equipamento português para França, como tinha sido pedido pelos próprios franceses - e nunca as tropas.

Os ingleses tentaram tudo por tudo para que as tropas portuguesas, porque estavam mal preparadas, não fossem para França. Eles preferiam ter menos tropas bem preparadas e que de facto pudessem contar do que muitos homens mal preparados e que fossem focos de indisciplina, como vai acontecer. E portanto eles vão tentar a nível diplomático a nível militar que de facto os portugueses não enviassem tão cedo as tropas. Só que o governo português estava decidido e de facto enviou as tropas.

P.: Que factores intervieram na escolha do sector da frente destinado às tropas portuguesas?

R.: - Foi decidido por questões estratégicas. Já lá tinham estado outras tropas e de ano a ano teriam que ser, digamos, substituídas por outras para haver um descanso dos homens, os homens não aguentavam estar tantos anos. Porque a guerra tinha começado em 1914.

E tinha sido decidido diplomaticamente que os portugueses iam estar inseridos num exército inglês. Portanto nós íamos fazer parte de um corpo britânico. E então foi decidido que aquela zona, La Lys, era uma zona calma, que não iria criar grandes problemas militares e portanto poderiam ir para lá tropas, digamos, menos preparadas.

Portanto foi escolhida uma zona que não daria grandes problemas aos portugueses e seria facilmente controlada pelos ingleses. Daí ser escolhida aquela zona. Porque as tropas bem preparadas estavam noutra zona onde havia ataques alemães. De facto, geograficamente não era uma zona muito propícia, porque havia o problema de facto da humidade, dos pântanos, da neve e vai ser muito difícil construir as tais trincheiras de defesa. 
 


P.: Como estava estruturado o sector português?


R.: O sector era dividido em três linhas. Mais junto do mar era a zona da retaguarda, onde existiam os quartéis de apoio às tropas, o Estado-Maior, os hospitais de retaguarda, e portanto havia a chamada base.

Depois havia a chamada a linha de aldeias, assim chamada porque era uma linha onde existia ainda população civil. Os franceses nomeadamente os velhos, algumas mulheres que teimavam em não abandonar as suas quintas, e as suas lojas, as suas tabernas, também serviam de apoio às tropas, vão manter-se nessa zona e portanto era a chamada a linha da aldeias, porque não existiam trincheiras mas existiam pontos militares de protecção dessa população e de protecção da base. 

E depois sim, existia a zona da frente. A zona da frente vai ter também duas linhas: a segunda linha, digamos, fronteira com essa linha de aldeias; e a primeira linha, que tinha à sua frente o inimigo, o alemão. E é nessas duas linhas que existem as tais trincheiras.

P.: Falou-nos há pouco nas trincheiras portuguesas, construídas em altura. O que significava isso, exactamente?


P.: As trincheiras vão ter de ser construídas em altura, ou seja, existe o solo e para cima do solo é que é construído o tal muro de sacas de terra, com o arame farpado para proteger os homens. Porque só se podia cavar poucos centímetros na terra, para não se encontrar a tal água com lama.


Trincheiras portuguesas / Fonte: Ilustração Portuguesa

Enquanto que os ingleses não faziam um buraco em que cabia um homem em altura e dois de lado, os nossos não: os nossos vão ter de estar agachados, às vezes de cócoras a avançar, e dificilmente tinham dois homens de largura.



P.: Como é que isso se reflectia no dia-a-dia das trincheiras?

R.: Primeiro, vai dificultar a progressão. Imaginemos que eles precisam de repente, num momento de ataque, de correr na trincheira. Mais facilmente corria um homem em pé do que um homem agachado, naturalmente.

E mais facilmente também se protegiam dos tiros, dos atiradores, dos snipers, que estavam na "terra de ninguém", nalgum resto de uma árvore, nalgum resto de ruína de tijolo dum muro, em que tentavam fazer pontaria para atacar os portugueses.

Um número de mortes vai acontecer sobretudo devido a isso, devido a as nossas trincheiras serem algo diferentes das outras. 

Horário nas trincheiras

Atividades Horas
A postos da manhã 7h00 (Em geral, uma hora antes do nascer do Sol)
Limpeza da trincheira e do armamento -
Revista geral -
Descanso 8h30
Reparação das trincheiras 13h00
A postos da tarde 18h00 (Em geral, uma hora antes do pôr do Sol)
Limpeza da trincheira e do armamento -
Revista geral -
Vigilância 19h00
Distribuição do Rum 24h00
Vigilância -
Fonte: Isabel Pestana Marques

P.: Era apenas em situações de combate que se fazia sentir a disfuncionalidade das trincheiras portuguesas?

R.: Há a questão da humidade e a questão das chuvas e da neve. Os portugueses durante a campanha e após a campanha vão de facto sofrer muitas maleitas, de pneumonia, reumatismo e isto vai dificultar bastante porque temos de imaginar que há tropas que vão estar seis a nove meses, sempre na linha da frente.

Os nossos aliados eram substituídos de três em três meses. Os nossos não, porque não havia homens e não havia navios para transportar os homens. E portanto vamos imaginar que os homens estão na lama e na humidade e na neve esse tempo todo. As próprias doenças, devido ao clima, vão depauperar esses combatentes para além de todas as outras agruras da guerra, naturalmente.

P.: Os problemas daquele tipo de trincheiras são, portanto, problemas daquele tipo de terreno, daquele tipo de geografia.

R.: O clima e a paisagem, de facto, não vão facilitar. Mas a paisagem também era plana e portanto não havia colinas ou montes para encobrir os portugueses, eles estavam à vista.

Quando os portugueses quisessem fazer um raid, ou seja, um ataque ao alemão, tinham de galgar a trincheira dianteira, ir pela "terra de ninguém" para tentar conquistar a trincheira dianteira alemã. Ou então tentavam ir pelas trincheiras de comunicação, que eram extremamente difíceis.

Na "terra de ninguém", havia crateras onde se podiam proteger mas podiam sofrer os ataques da artilharia e portanto não chegar ao alvo. E portanto era muito complicado.


Terra de ninguém


P.: - E a alimentação? Não houve também um choque com a alimentação?


R.: - Houve. Os portugueses estavam habituados em Portugal a comer o pão de quilo de centeio, a comer legumes, a sopa de feijão, beber o vinho tinto, beber café, estavam habituados em casa, nas suas famílias e nos quartéis portugueses.

Quando chegaram a França, deram-lhes uma ração inglesa porque competia aos ingleses fornecerem a ração. E em que é que consistia essa ração? Em vez do pão tínhamos bolachas, tínhamos o corned beef, que era a tal carne de cavalo enlatada, poderíamos ter carne com feijão enlatados, mas vamos ter sobretudo pickles, mostarda em vez do café, vamos ter o chá, e não vai haver vinho, água.

Ração inglesa fornecida ao CEP




Géneros disponíveis na cantina do CEP, messes de oficiais e de sargentos

Bebidas: Águas minerais portuguesas diversas; vinhos portugueses de mesa, generosos, licorosos e espumosos; chás; cafés de S. Tomé e de Cabo Verde.

Alimentos: Enchidos e queijos portugueses; vegetais secos; fruta seca e fresca; açúcar; massas; chocolates e bombons; peixe fresco; atum e sardinhas de conserva; bacalhão e azeite.

Outros (portugueses e ingleses): Tabaco e cigarros; sabonete, postais ilustrados; fósforos e valores selados
P.: Que problemas práticos levanta essa revolução na dieta alimentar?

R.: Os portugueses vão queixar-se bastante, porque não estavam habituados a outro tipo de alimentação e achavam pouco. Eles queixavam-se que não enxugava o estômago, porque estavam habituados a comer muito, apesar de a ração ser extremamente nutritiva.

Então o que eles vão fazer é comer a ração de reserva, o que vai levantar problemas, porque muitas vezes os homens não podem ir para o combate porque não tinham a ração de reserva.

Outras vezes, nos tempos livres, vão tentar aproveitar esse tempo para se alimentarem melhor. Ou vão às lojas dos franceses e compram produtos; ou vão visitar as quintas dos franceses sem autorização e de facto aí vão surripiar o vinho francês que já gostam mais, o pão, o chouriço, etc., etc..

O governo português vai ter muito receio das insubordinações pela falta do vinho e do café ao ponto que nos navios vai começar a enviar para lá o vinho e o café. O que também vai ser complicado, porque na viagem os barris vão ficar estragados. Mas isto para ver como a alimentação pode decidir uma campanha militar.

P.: Como era a relação das tropas portuguesas com as populações locais?

R.: - Quando chegaram lá a primeira recepção foi muito boa. A população de Brest normalmente recebia muito bem qualquer tropa estrangeira que viesse ajudar os franceses. No entanto não sabiam muito bem quem eram os portugueses, normalmente eram confundidos com os russos, com os italianos e muitas vezes nem sabiam que existia Portugal.

Os portugueses, quando se instalam no sector de La Lys, vão fazer contacto na linha de aldeias com a população local e vão fazer contacto com os aliados, os ingleses nomeadamente, e vai haver relações diferentes.

P.: Eram dadas aos soldados instruções sobre o relacionamento com a população?

R.: Havia politica do exército português, de relacionamento com os franceses. Os soldados portugueses deveriam trabalhar com os franceses, deveriam ir às quintas ajudar os velhos e as mulheres a rachar a lenha, ir buscar água, consertar um telhado. Havia um trabalho, digamos, nas quintas, que os portugueses deveriam um dia por semana fazer.

Isso vai aproximar muito e vai criar relações de amizade entre os franceses e os portugueses. Por isso, existiam os estaminés, que eram as lojas tipo mercearia e taberna, uma mistura, em que as tropas se reuniam - os ingleses, franceses, australianos e os portugueses, para beberem uma cerveja, tentarem beber o tal copo de vinho tão apetecido, um café, havia sempre música, jogavam às cartas, aos dominós e namoriscavam as francesas.

P.: E nesses estaminés, a confraternização com as tropas doutros países era isenta de problemas?

R.: Quanto mais dinheiro os portugueses gastassem no estaminé, mais bem recebidos eram pelas francesas e pelos donos dos estaminés. Mas aí também vão existir focos de tensão com os ingleses e com os escoceses, focos típicos de campanha militar. Poderá haver a zaragata porque estão a decidir se eu fui mais herói que o outro, mas também havia muita rivalidade, devido de facto às francesas, como todos disputavam as mulheres locais, e de facto havia alguma zaragata.


Fonte: Revista Quinzenal Ilustrada "Portugal na Guerra"

P.: Com o correr do tempo, como se desenvolvem estas relações com a população e com as tropas aliadas?

R.: Mais tarde os portugueses vão ter relações mais amistosas com a população. Quando se dá a retirada, após La Lys, muitos portugueses vão ser dispersados pela tal linha de aldeias, vão estar meses a viver com as famílias francesas, e então vão aperfeiçoar o francês que no início era muito mau e vão de facto estreitar relações.

Muitos vão mesmo namorar, casar, vai haver relacionamentos amorosos mais ou menos duradouros, alguns até vão sobreviver à guerra. E vai haver relações de amizade fortíssimas ao ponto de, quando os portugueses regressam a Portugal, manterem o contacto através de cartas, do envio de lembranças, etc..

Com os ingleses a relação já vai ser diferente. Entre praças, ou é uma relação de amizade, camaradagem, ou de rivalidade. Entre os oficiais as relações vão ser muito complicadas. Os oficiais portugueses não vão gostar muito da hierarquia e da disciplina inglesa, porque eram dois mundos diferentes. Eram formas de organização diferentes e para todos os efeitos. Nós estávamos dependentes dos ingleses e aí gera-se uma grande rivalidade que vai por vezes pôr em perigo decisões de combate e vai também criar conflitos diplomáticos entre Portugal e Inglaterra.

P.: Pode dar-nos alguns exemplos em que aconteceu isso?

R.: Por vezes os ingleses é que superintendiam as grandes ordens de combate; os portugueses, até La Lys, vão ter autonomia de comando, ou seja, o general Tamagnini, mais o seu Estado-Maior, pode decidir o que fazer na sua zona, claro, adaptando à estratégia inglesa. Quando acontece La Lys dá-se a reorganização do CEP e os portugueses perdem o comando, a partir daí quem decide são os ingleses.

E aí é que de facto vai haver grandes problemas, porque os ingleses, nomeadamente, vão preferir dar uma nova instrução aos portugueses para que eles, digamos, recuperassem energia para voltar ao combate. Isto vai ser uma hipótese.

A segunda hipótese é colocá-los na construção e no refazer das trincheiras que tinham sido destruídas pelos alemães, para recuperar, porque sem trincheiras não havia resistência à guerra. 

P.: Como reage o CEP a esses dois cenários?


R.: O Estado-maior português e os oficiais portugueses não vão gostar dessa decisão, porque consideram que é uma subalternização das tropas portuguesas e vão recusar. Muitos vêm a Lisboa pedir ajuda ao governo para fazer frente aos oficiais ingleses.

Ora isto vai criar grandes tensões inglesas e portuguesas, ao ponto de os generais ingleses preferirem só contactar com o general Tamagnini. Os ingleses vão chegar a uma altura que vão decidir o que fazer aos portugueses, porque poderiam ser um foco de tensão e de indisciplina.

E então é nessa altura que, de facto, eles vão tomar conta de toda a situação e aí os portugueses não vão decidir nada, dependem dos ingleses em tudo, para fardamento, para alimentação, até para as ordens de combate. E portanto, quando acaba a guerra, vai haver um grande ressentimento em relação aos ingleses.

P: Como era nesse tempo o moral das tropas portuguesas?

R.: O moral das tropas vai flutuar durante a campanha tal como em todos os outros exércitos. Durante o ano 1917 as coisas correm bem, está a haver instrução. Muitos portugueses que estão na zona de combate estão convencidos que não vão chegar à trincheira porque a guerra acaba entretanto.

De facto a guerra não acabou e eles vão ter de enfrentar o combate. Mas não havia grandes combates. No ano de 1917, as coisas estão calmas. No entanto já vai haver algum desgaste, vai haver alguns portugueses que se vão cansar da guerra, vão-se querer vir embora.

Daí o tal episódio daquele português que vai acabar por ser fuzilado porque vai tentar passar para a linha inimiga. Portanto, é sintomático do desgaste do moral, mas um desgaste individualizado.

P.: Aí o moral começava já a degradar-se?

R.: Em 1918 as coisas vão ser pior. Porque em Março de 1918 os alemães decidem tentar tomar a grande ofensiva de vitória da guerra e porquê? Porque estavam com grande medo das tropas americanas que já estavam desembarcadas em França, já tinham feito a instrução preliminar, já tinham feito a vacinação e estavam prontas para entrar na Primavera em combate.

Então o que é que os alemães decidem? "Nós temos que tomar a dianteira, ganhar a guerra em Março para não dar tempo para que as tropas americanas avancem". 

E então, em Março, vão de facto fazer uma grande frente de combate e através de espionagem, através de recolha de prisioneiros, etc. descobrem que a zona portuguesa era mais frágil.

P.: Porquê?

R.: Porque estávamos lá há muito tempo sem substituição. E então no mês de Março vai haver ataques violentíssimos aos sectores portugueses, é aí que vai ser o maior número de mortos portugueses e o maior número de ferimentos portugueses. E o mês de Março realmente vai ser atroz, porque os portugueses vão estar em constante desgaste de artilharia e de combate de gás. Mas vão resistir, vão conseguir resistir, porque tinham ordens para resistir até ao último homem e de facto vão ser extremamente capazes.

P.: Mas essa resistência tem limites. Como se lida no CEP com esses limites?

R.: Os homens não conseguem resistir muito tempo. Um mês de combate significa anos de desgaste. E então o que é que decidem? Decidem, com o acordo governamental português e nomeadamente o general Tamagnini, portanto as altas instâncias militares em França, fazer uma rendição das tropas. Não era uma retirada, era uma rendição, tentar substituir as tropas desgastadas por tropas menos desgastadas.



Chamo à atenção que são menos desgastadas, não são frescas. Porque nós não tínhamos tropas frescas para substituir. E então decide-se para Abril substituir as tropas.

P.: E essa solução é bem acolhida pelas tropas?


R:: Em Abril, de facto, o desgaste era muito grande e de 4 para 5 de Abril alguns batalhões vão-se insubordinar, e como se vão insubordinar e vão pegar em armas e vão decidir que não fazem mais combates e que querem vir para a retaguarda ou vir para casa. Portanto, há uma revolta dessas tropas.

O que é que isto vai provocar? Que o Estado-maior e o general Tamagnini, decidem cercar essas tropas e utilizar meios violentos para sufocar essa revolta. Isto é extremamente grave para uma campanha militar, ou seja, em vez de estarmos a enfrentar o inimigo estamos com problemas de insubordinação dentro da nossa linha. E de facto a revolta é debelada, mas isso vai provocar uma grande desmoralização, porque todo o CEP vai ficar a saber que há homens que se estão a revoltar, que já não estão a aguentar mais. Alguns, dão-lhes razão, outros não. E portanto vai de facto começar a grande desmoralização.

P.: Isso não tornava especialmente urgente a tal prevista rendição das tropas?


R.: Os ingleses tentam de facto acelerar a tal rendição porque não confiam nalgumas tropas portuguesas. Ora é nessa altura que os alemães decidem atacar e vão atacar de 8 para 9 de Abril, quando se estava à espera que houvesse uma rendição a 9 de Abril que não vai acontecer devido ao ataque alemão. 

E então acontece a famosa batalha La Lys, que muita gente fala, muita gente engrandece e por vezes fantasia - uma batalha que foi muito semelhante às outras, o seu desfecho é que vai ser diferente, porque encontra um contexto histórico e militar diferente das outras batalhas.

P.: Que contexto é esse?


R.: Os combates em Março vão ser muito mais violentos do que a batalha do 9 de Abril, com resultados de mortos e feridos muito maiores em Março do que em Abril. Só que em Abril, de facto, vai haver um conjunto de factores que vai decidir a reorganização do CEP e da campanha portuguesa.

E aí vai-se dar a generalização da desmoralização. Porque com a retirada das tropas para a linha de aldeias e para a base, muitos portugueses vão-se recusar a voltar para a guerra, voltar para a linha da frente. E aí vai haver uma série de revoltas, ao todo contei 18 revoltas, algumas tentadas, outras concretizadas. E muitas vezes vão ser sufocadas com o uso de armas, o que é extremamente violento. 



P.: O que sabemos hoje da atitude dos militares que se revoltavam?


R.: A participarem nas revoltas estão são militares que preferem morrer pelas armas das autoridades portuguesas e inglesas do que enfrentarem o inimigo. Isto diz tudo da desmoralização.

Outros preferem insubordinar-se e revoltare-se, para irem para o tal campo de concentração, ou seja, preferem estar presos do que estar a enfrentar a linha de combate. No entanto estes revoltosos não eram a maioria, eram algumas centenas que eram suficientes para desmotivar todos os outros milhares. E por isso é que foi extremamente perigoso o ano 1918, o segundo ano de campanha portuguesa.

P.: - O que foi afinal a batalha de La Lys?


R.: A batalha de La Lys foi o ataque alemão à frente portuguesa, que se inseria na frente britânica. Portanto os alemães vão atacar a zona do sector português e o sector inglês. Não vai haver ali um privilegiar da zona portuguesa - a zona britânica na qual Portugal estava inserido.

O que vai acontecer é que de facto pela madrugada de 8 para 9 de Abril os alemães resolvem atacar em força os portugueses. E o que é que isto significa? Significa que já nos 15 dias anteriores tinha havido uma grande movimentação de tropas alemãs da respectiva retaguarda para a frente de combate. Portanto, iam alinhar várias divisões à frente dos portugueses.
 
P.: E essa movimentação não ocasionou contra-medidas da parte portuguesa?

R.: Os portugueses tinham assinalado alguma movimentação de tropas, mas pensavam que era rendição e não o maior volume de tropas. Não nos podemos esquecer que havia nevoeiro de Março e havia o fumo provocado pelos próprios alemães para camuflar a movimentação de tropas.

Os portugueses foram informando os ingleses, os ingleses sabiam o que se estava a passar, mas estavam a ter muitos ataques a norte e portanto não conseguiam resistir a tudo. Então os portugueses tinham ordens para resistir a qualquer ataque, tal como no mês de Março.

Só que nessa madrugada os alemães resolveram atacar com o maior volume de armas, e munições e os portugueses não se aperceberam da intensidade do ataque. Pensaram que era mais um ataque e portanto não tomaram medidas. Portanto não se prepararam para esse combate porque pensaram que era mais um. Não deram importância.

E também foi significativo o facto dos alemães num curto espaço de tempo interromperem todas as linhas de comunicação, e portanto vão ficar os vários grupos de homens espalhados pela linha de combate, sem comunicação uns com os outros. Portanto, eles só podem tentar descobrir o que têm pela frente. Dificilmente vêem, porque há o nevoeiro e o fumo. Só se apercebem que há alguma movimentação de tropas quando os homens já estão ao pé deles, a atacá-los.

P.: Em termos práticos, que consequências tem esse défice de informação?


R.: Vai haver um grande número de prisioneiros, porque de repente os portugueses vêem-se envolvidos pelos alemães, porque não estavam à espera deles. Também vai haver ataques de artilharia que era costume acontecerem no mês de Março. Os portugueses resistiam nos seus abrigos enquanto existia o ataque de artilharia e depois respondiam. E é isso que os portugueses vão fazer. Mas não se vão aperceber de facto do grau de intensidade.

Não conseguem comunicar uns com os outros e portanto, de acordo com as ordens rotineiras, vão resistir e esperar que alguém venha dar uma contra-ordem. E por isso muitos redutos vão resistir e vão ser apanhados pelo avanço alemão. Aí são feitos prisioneiros e enviados para a retaguarda alemã. Outros vão ser mortos ou feridos, vão tombar, e, quando de facto se percebe que o número de alemães cada vez é maior, que eles conseguem, de facto ultrapassar a linha da terra de ninguém e a primeira linha portuguesa, aí muitos vão procurar fugir, vão fazer a retirada.

P.: Houve então uma debandada geral?

R.: Outros de facto vão tentar resistir, mas vai haver dificuldades. E então há reacções de todo o tipo. Há as reacções de entrega ao inimigo, portanto entrega como prisioneiros. Para outros é a debandada  - fugir por onde podem. Alguns conseguem, outros não, são capturados. Outros suicidam-se. Há casos de oficiais, por exemplo, que vão preferir suicidar-se do que entregarem-se e isto não é muito relatado depois nas memórias.

E outros vão de facto tentar resistir. Vai haver um grupo nomeadamente em La Couture que vai resistir com armas, e mais, vai tentar um contra-ataque. Mas não sabiam que de facto estava a haver uma ofensiva tão grande, porque não havia comunicação. Este grupo vai de facto conseguir fazer um contra ataque, vai fazer uma resistência aos alemães e até vai ganhar algum terreno.


P.: O que é que tem La Lys que a distinga da guerra das trincheiras? O que é que tem para que se lhe possa chamar "batalha"?

R.: A batalha de La Lys teve todas as características de uma campanha típica da guerra de trincheiras. Não foi nenhuma batalha diferente das outras, teve todo o tipo de comportamentos que os aliados também tinham: debandada, prisioneiros, resistência, contra-ataque, mortos, feridos dos dois lados. E de facto isso aconteceu.

O que é que vai marcar e porque é que a batalha de La Lys vai ser tão importante? Os alemães tinham como objectivo em 24 horas ultrapassar a linha do rio Lys e portanto fazer apagar o sector português e os sectores contíguos britânicos. Mas não vão conseguir. Porque apesar de os portugueses não estarem preparados para esse avanço, vão conseguir durante algumas horas resistir. E essas horas vão ser fundamentais para que as tropas britânicas cheguem a tempo para substituí-las. 


Fonte: Ilustração Portuguesa

P.: Que conclusões podem tirar-se de La Lys, num balanço global?

R.: Primeira conclusão: os alemães não conseguem o seu primeiro objectivo, de ultrapassar o rio como queriam. Segunda conclusão: foi mau para os portugueses, de facto foi, se vamos ter uma série de prisioneiros, vamos ter alguns mortos e alguns feridos e vamos ter sobretudo a retirada das tropas e perda de comando de autoridade portuguesa para o comando inglês.

Isto é considerado muito mau para os portugueses, porque os portugueses perdem autonomia. E por isso é que La Lys vai ficar a marcar a memória dos portugueses que estavam lá e a memória dos portugueses que estavam cá. e que vão receber as noticias filtradas pela comunicação social - que na altura tinha censura, mas também tinha muita propaganda.

P.: Que tipo de propaganda?

R.: Havia muitos jornais produzidos pela propaganda alemã que vão ser divulgados cá em Portugal. E o que é que eles vão divulgar? Uma grande mortandade, milhares de mortos portugueses, milhares de prisioneiros, e isso não aconteceu. 

Ora as famílias portuguesas vão ficar muito assustadas perante tal mortandade. E como é que se explica a mortandade? Pela incompetência portuguesa e pelo grande heroísmo alemão, são essas ideias que vão ser passadas em Portugal. E isso vai ficar na memória dos portugueses.
 
Os próprios jornais ingleses, para não demonstrarem que deviam ter apoiado mais os portugueses, preferiam de facto falar da debandada sem resistência. Só mais tarde vão reconhecer o contributo português para resistir aos alemães. Por isso, o que foi escrito na altura e o que vai ser escrito nos anos 20 e 30 com o regresso dos portugueses vai ser escrito a quente, não vai ser analisado.

P.: Que impacto teve a luta política sobre a imagem da participação portuguesa na Guerra?


R.: Os historiadores do Estado Novo reflectem toda essa questão. La Lys ou tinha sido uma grande tragédia para os detractores da Primeira República, ou tinha sido um grande momento de heroísmo português, de grande glória da nação que convinha exaltar todos os 9 de Abril, que era preciso comemorar. 

Por isso é que eu costumo dizer que, de facto, La Lys é uma batalha que convém ser recontada, porque foi uma batalha importante para a campanha, porque dividiu a história da campanha. Antes de La Lys nós temos autonomia, comando, depois de La Lys não temos. Antes temos o moral controlado, e depois de La Lys não temos.

Mas não foi aquele desaire a nível de baixas como se conta, nem foi digamos a má prestação portuguesa. Os ingleses actualmente estão a começar a reconhecer que de facto o contributo português para a resistência naquelas horas foi muito importante.

P.: E qual foi o numero de baixas afinal?

R: A nível de baixas, para termos uma ideia, cerca de 400 mortos durante a batalha - a batalha de 24 horas. Eu não gosto muito de puxar pelos números, porque uma vida humana vale por si. Não interessa muito o número de mortos. No entanto dos tais 400 mortos, dos tais 6.000 prisioneiros é muito diferente para os 14.000 mortos, 20.000 mortos, que vai ser depois noticiado durante o Estado Novo.

Ou seja, os números vão ser engrandecidos por duas questões. Por questões nacionalistas, de propaganda do regime; e, numa tentativa de fazer aumentar as indemnizações, porque quando acaba a guerra, vai ser necessário fazer contas, contar as baixas. E, de facto, proporcionalmente ao número de homens enviados, convinha mostrar um número significativo de perdas.



P.: E o balanço de perdas humanas fica completo com essa estimativa do que aconteceu nas 24 horas da batalha?

R.: La Lys teve um número significativo de mortes, e mortes de facto imediatas devido ao ataque alem&atild

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