Viver em Tancos III

O que os soldados rasos pensavam do regime de Paulona, como chamavam a Tancos, não sabemos muito bem. Mas queixavam-se que as cartas narrando o que se passava lá dentro, não chegavam ao destino.

Arnaldo Garcez
Arquivo Histórico Militar
| Portugal na I Grande Guerra


A explicação oficial: erro na escrita dos endereços, por exemplo. 
 
O Século - Hemeroteca de Lisboa

O Século - Hemeroteca de Lisboa

Por causa da censura, muitos dos relatos na imprensa forçavam a nota democrática que reinava no acampamento: os “casacas”, vulgo a classe superior calçava tão bem que parecia ter saído de uma sapataria da Baixa. 

A Capital - Hemeroteca de Lisboa

Para estes janotas os exercícios da instrução militar eram até um ‘sport’ divertido. 

A Capital - Hemeroteca de Lisboa

E a república incluía um padre na cozinha que assim se sacrificava pela pátria. 

A Capital - Hemeroteca de Lisboa

Um doutor engraxador…

E um condutor quase milionário, visto o pai ter mais de 400 contos!

Apesar da instrução insuficiente que não preparou as tropas para as trincheiras, nem para um adequado uso das máscaras de gás - na última semana de Julho, há cem anos, cantava-se o Milagre de Tancos numa mega-parada em Montalvo - para português e estrangeiro ver – ficção ou realidade, fizeram-se dois filmes de propaganda muitíssimo aclamados.

 
A Capital - Hemeroteca de Lisboa

O soldado português, esse, mesmo sem saber muito bem para onde ia – sabia que ia para a defesa de Berdum. 

A Capital - Hemeroteca Nacional de Lisboa

Sempre parecia mais útil do que andar à caça de gafanhotos… 

Ilustração portuguesa - Hemeroteca de Lisboa

Os Ridículos - Hemeroteca de Lisboa





Arnaldo Garcez - Arquivo Histórico Militar


In A “corrida” para a guerra das trincheiras da Flandres: do “show” de Tancos ao embarque rumo a Brest
Isabel Pestana Marques


"XXIII Colóquio de História Militar, 4 Novembro 2014

Desde Agosto de 1914, o partido Democrático de Afonso Costa viu a participação militar em terras francesas como a solução para diversos problemas com que se confrontava, enquanto partido republicano de poder. Não chegava enviar tropas para Angola e Moçambique para proteger as colónias da cobiça alemã e britânica. Ignorando a oposição, o Governo desenvolveu um processo de negociações entre gabinetes portugueses, ingleses e franceses, de forma a conseguir que Portugal entrasse na Guerra europeia contra a vontade da Inglaterra.

O velho aliado conhecia bem as dificuldades lusas em concretizar tal projecto. A falta de recursos para a campanha europeia, as divisões político-militares internas e a incapacidade de criar um “espírito de corpo” retardavam o apoio inglês à intervenção portuguesa na Europa. Os aliados, Inglaterra e França, preferiam ver em Portugal um potencial aliado colaboracionista, mero fornecedor de equipamento militar, nomeadamente peças de artilharia para o exército francês, e não um foco de problemas. Mas, desde cedo este papel secundário foi recusado pelos Democráticos que conseguiram impor o envio de tropas a acompanhar o equipamento militar e, assim, forçar uma entrada no palco de guerra europeia.

1915 será um ano de planificação dos preparativos para a instrução, embarque e transporte das tropas para França – processo lento, difícil e nem sempre sereno. Em Agosto, o governo organizou uma Divisão de Instrução, sob o comando do General Fernando de Tamagnini de Abreu e Silva (então Comandante da 5ª Divisão, em Coimbra) 2 com o objectivo de concentrar os militares a mobilizar num só Campo de Instrução, preparatório da campanha europeia – TANCOS. Enquanto se organizava Tancos para receber a concentração da Divisão de Instrução iniciou-se a Instrução Preliminar, entre Fevereiro e Março de 1916, nos quartéis pertencentes a três Divisões (a de Viseu, a de Coimbra e a de Tomar): Lamego, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Covilhã, Abrantes, Leiria, Tomar e Santarém. Aqui reuniram-se os militares recrutados (a maioria) e os voluntários sob as ordens dos oficiais de carreira. Todavia, não foi introduzida qualquer alteração na instrução usual, mais conforme com as originais trincheiras e, por conseguinte, os militares mobilizados não acreditavam numa partida breve, para França.

Tancos foi uma boa surpresa para a maioria que chegou entre Abril e Junho de 1916: nunca se tinha visto tanto militar (cerca de 20.000 homens); um mar de tendas oferecia abrigo às praças; múltiplas construções de madeira salpicavam o campo para acomodar os oficiais, os serviços e o Quartel-General da Divisão de Instrução e as zonas de exercício militar impunham respeito devido à inédita dimensão.

Campo sempre visitado por figuras ilustres, como as altas figuras da política nacional, os militares aliados das missões de negociação, os jornalistas portugueses e estrangeiros, e até grupos de lisboetas que aí rumavam, em verdadeiras excursões de curiosidade. Tancos surpreendeu, entusiasmou, fez brilhar a capacidade organizativa do exército português e do partido no poder ao ponto de ser rapidamente apelidado de “MILAGRE” pela imprensa nacional e pelos ilustres do regime.

A satisfação tomou conta dos oficiais de gabinete e dos políticos que se encantavam com os elogios das missões militares estrangeiras que visitavam Tancos. Só alguns militares, mais conhecedores das exigências da guerra moderna de trincheiras travada em França, tinham a percepção de que era necessário relativizar as dimensões “milagreiras” de Tancos.

Concluía-se, então, que em Tancos pouco de diferente se fazia em relação às restantes unidades do país mas agora num espaço maior e com mais gente, sendo flagrante a má preparação teórica e prática do exército português para instruir tropas de acordo com as novas necessidades da guerra europeia. Nem o próprio ambiente criado no local foi mais propício à mobilização para a campanha militar uma vez que os longos períodos de descanso, contrastantes com as reduzidas horas de instrução efectiva, não aperfeiçoavam técnicas nem criavam um “espírito de corpo” entre os mobilizados, essencial ao sucesso da campanha.

As sugestões de alterações e adaptações a fazer em Tancos encheram-se de pó nas gavetas dos gabinetes do Ministério da Guerra. Em Agosto terminou a instrução dos 1ºs contingentes em Tancos e preparou-se a entrada na guerra europeia. Impunha-se criar e equipar um Corpo Expedicionário com os militares recentemente instruídos. Neste âmbito, o Ministério da Guerra enviou, em Dezembro de 1916, diversas Missões de Instrução a França com o fim de ali se inteirarem das modificações introduzidas na organização e na táctica por exigência da guerra moderna. Todavia, a busca desses conhecimentos era já tardia para o treino das tropas em Tancos e para o Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) que se constitui com a Divisão de Instrução e reforços.

Findo o processo de instrução em Tancos, os militares regressaram às sedes dos seus quartéis permanentes. A incapacidade de acomodar as praças que excediam os quadros de efectivos em tempos de paz levou à concessão de licenças registadas, dispersando-se as tropas nos afazeres civis quotidianos. Longe do ritmo dos quartéis, muitos esqueceram os exercícios de instrução e desvalorizaram as relações de hierarquia militar criadas até então. Todavia, no inverno de 1916, já estavam mobilizados milhares de homens por todo o país, apesar de não concentrados, e receando o embarque para França.

No final do ano intensificou-se um processo de resistência efectiva à incorporação no C.E.P. A proximidade do embarque levou inúmeros jovens a refugiarem-se na vizinha Espanha neutral, a desertarem após a instrução e, quando possível, a escaparem à mobilização subornando as Juntas Médicas de incorporação ou simulando lesões. Para pôr fim a isso, serão dadas ordens para a repressão militar (maior controlo da fronteira terrestre e presídio para os desertores), para a fiscalização (nomeação do General Tamagnini como Inspector e incumbido de percorrer o país, numa tentativa de manutenção do espírito de mobilização) e para a incorporação de homens com doenças ou deformidades graves para preencher os lugares deixados vagos pelos ausentes (presos ou em fuga). A crescente resistência é alimentada pela acção de propaganda antiguerrista que se fazia sentir por todo o país, protagonizada por civis e militares de diversos quadrantes políticos: os jornais, as folhas volantes e os folhetos, as reuniões secretas e, sobretudo, o boato eram utilizados nas ruas, nos cafés, nas tabernas e nos quartéis com o objectivo de desmotivar as tropas mobilizadas a fim de se recusarem a partir para França. "

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