Marietje Schaake. O que pensa a antiga estrela do Parlamento Europeu?

por RTP

Marietje Schaake é holandesa e foi, durante dez anos, uma das eurodeputadas mais elogiadas. Decidiu não se recandidatar nas últimas eleições europeias. Num exclusivo do programa "Europa Minha", conversa sobre a decisão de se retirar da política e o equilíbro de poderes no novo Parlamento Europeu.

Raquel Morão Lopes: Foi membro do Parlamento Europeu entre 2009 e 2019, no grupo ALDE; foi considerada pelo Wall Street Journal como a personalidade política mais influente; pela CNN como uma estrela em ascensão; pelo POLÍTICO como um dos membros mais importantes entre 2014 e 2019. Tendo em conta estas impressões sobre o seu trabalho, por que decidiu sair agora do Parlamento Europeu? 

Marietje Schaake: Tive uma grande experiência ao servir as pessoas nos últimos dez anos, mas a realidade é que quando vimos de um país relativamente pequeno e de um partido político relativamente pequeno, vemos o limite até onde podemos crescer. E também me interessa ver como encaro a política à distância. Porque, claramente, estamos todos com dificuldades nas democracias liberais, nas sociedades abertas. Passa-se alguma coisa. E quando estamos lá dentro, é mais difícil vermos estes mecanismos, os desafios, as relações entre os políticos e as pessoas que representam, as mudanças, as polarizações que ocorrem...  

Raquel Morão Lopes: Então este não é um sinal de descrença na União Europeia? 

Marietje Schaake: Não! Não. Acredito mais na necessidade de uma Europa cada vez mais forte, mas também me preocupa a falta de ritmo. Vejo uma grande necessidade mas não uma grande velocidade para chegarmos a essas soluções. 

Raquel Morão Lopes: Como prevê o trabalho do novo Parlamento Europeu, ja que houve uma mudança de equilíbrio? Que temas devem ser abordados com este novo equilíbrio de poderes? 

Marietje Schaake: Tem sempre tudo a ver com a formação de coligações no Parlamento Europeu. Significa que as pessoas têm que trabalhar em conjunto, mesmo que discordem, porque ninguém tem uma maioria absoluta. Terá de haver cooperação e isso será um desafio para os partidos que se manifestam à margem. Fazem oposição sem a vontade de assumir responsabilidades. Penso que uma grande linha divisória existirá entre aqueles que estão dispostos a estabelecer compromissos para bem dos resultados, e servindo a democracia tal como ela funciona na Europa; e aqueles que continuarão à margem, de mãos vazias, mas com mãos limpas, para poderem dizer que fariam tudo de forma muito diferente. 

Raquel Morão Lopes: E como encarou a eleição? Foi uma surpresa? Porque houve algumas surpresas nos resultados. 

Marietje Schaake: Foi algo muito dúbio. No meu país [Países Baixos], fiquei muito feliz por ver que a extrema-direita não teve o resultado que as pessoas receavam (como no meu caso), ou esperavam (no caso delas). Mas é algo incerto. Nalguns países - em Itália, na Polónia, no Reino Unido, em França - penso que os resultados são devastadores. Noutros países há muito mais esperança. Espero que se concentrem, apesar de haver mais diversidade no parlamento. E o foco deverá estar nas grandes questões que são quase sempre consensuais em todo o espetro político. 

Raquel Morão Lopes: Por exemplo? 

Marietje Schaake: A migração, pedidos de asilo, toda a questão da segurança e da defesa, os empregos do futuro... 

Raquel Morão Lopes: Isso pode ser complicado com a ascensão de movimentos de extrema-direita. Prevê alguns desafios específicos? 

Marietje Schaake: Penso que todos são a favor de ter mais segurança, mas talvez vejam uma Europa fechada, ou países fechados, com barreiras, muros ou com defesas mais rígidas contra migrantes, por exemplo. Mas acredito muito mais numa abordagem integrada de uma forte política internacional, que ajude pessoas em países terceiros para que não fiquem desesperadas, para não haver um risco de conflito, para que os seus direitos humanos sejam protegidos. Os desafios sobre as alterações climáticas serão cruciais, pois isso vai determinar a deslocação de pessoas. Isso vai ser um grande desafio. 

Raquel Morão Lopes: Então o crescimento do movimento ecológico no Parlamento Europeu também pode vir a ter um papel importante? 

Marietje Schaake: A minha grande questão é saber o que vão fazer. Por exemplo, numa área como o comércio, onde trabalhei muito - foi a minha principal ocupação nos últimos anos - os Verdes nunca apoiaram acordos comerciais bilaterais e eu esperava que os Verdes escolhessem coligações construtivas e não as que se opõem, tal como a parte mais nacionalista do Parlamento Europeu. 

Raquel Morão Lopes: Como membro do Parlamento Europeu foi também a Presidente da delegação para as relações com os Estados Unidos. E esteve também nas delegações para as relações com o Irão. Como vê a atual situação? 

Mariatje Schaake: Estou extremamente preocupada com o que está a acontecer, com o afastamento da administração Trump de um enorme sucesso diplomático que trouxe o Irão à mesa e levou os seus líderes a comprometerem-se com uma vigilância do seu programa nuclear, que ninguém quer ver militarizado. Mas não darei quaisquer desculpas aos líderes iranianos que culpam agora Trump, reagindo de uma forma muito previsível à questão. Mas é algo indesculpável do lado dos EUA e do Irão. 

Raquel Morão Lopes: Mas nesse caso específico pode a UE intervir mais? 

Marietje Schaake: Não, penso que não podemos. E isso é um problema porque toda esta situação do Irão confronta-nos com a questão crucial. A UE tem de ser um forte interveniente global, tem de ser capaz de projetar poder, pensar estrategicamente e afirmar os seus próprios interesses e a proteção dos seus valores, através da cooperação na defesa. Através de uma muito mais assertiva ligação entre a tecnologia, comércio, Direitos Humanos e segurança. É aí que estão os desafios. Veja-se a ascensão da China, com uma concorrência de sistemas para as nossas crenças e modelos de governação que temos. Temos de organizar tudo e dar grandes passos em frente nesse campo prioritário. 

Raquel Morão Lopes: Veremos. Muito obrigada. 

Marietje Schaake: Também agradeço.