Denunciada rutura de urgências hospitalares “como não se via há 20 anos”

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Com equipas insuficientes para dar resposta aos casos diários, os serviços de urgência dos hospitais portugueses estão em rutura, um quadro que se agudizou com a temporada da gripe. A denúncia parte de sindicatos e da Ordem dos Médicos e está esta segunda-feira nas páginas do Diário de Notícias. Ouvido pelo jornal, o bastonário José Manuel Silva afirmou que “as equipas estão a funcionar com pessoas abaixo dos mínimos para cortar nas despesas com recursos humanos”. Mas o Ministério da Saúde apenas reconhece um “pico de procura” que “originou maiores tempos de espera”.

Os serviços de urgência dos hospitais do país estão a experimentar uma rutura “como não se via há 20 anos”. Quem o diz é Mário Jorge Neves, dirigente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), em declarações citadas na edição desta segunda-feira do Diário de Notícias. Para este responsável, o atual quadro “é o descalabro visível da política desastrosa, mas dissimulada, da equipa do Ministério” de Paulo Macedo.Dados recolhidos pelo DN junto da Administração Central do Sistema de Saúde indicam que, de janeiro a novembro de 2013, houve registo de 5,5 milhões de urgências, das quais 8,5 por cento deram lugar a internamentos e 42,6 por cento foram “casos pouco ou nada urgentes”.

Ainda de acordo com o dirigente da FNAM, esta situação resulta, desde logo, “do abandono prematuro do SNS por parte de médicos que pediram reformas antecipadas, da sua não substituição e da falta de liquidez orçamental para garantir horas extraordinárias”. E Mário Jorge Neves deixa um alerta: “Se houver um agravamento das temperaturas e da gripe vai ser o descalabro”.

Também contactado pelo jornal, o bastonário da Ordem dos Médicos conclui, por sua vez, que as urgências hospitalares estão hoje piores “do que há dez anos”. Porque “as equipas estão a funcionar com pessoas abaixo dos mínimos para cortar nas despesas com recursos humanos”. O que se verifica “não só nos médicos, também enfermeiros e auxiliares”.

José Manuel Silva descreveu ao Diário de Notícias o caso das urgências do Hospital de Aveiro, onde pôde ver perto de quatro dezenas de doentes distribuídos em macas pelos corredores, “há mais de três dias”, por falta de lugar nas enfermarias.
“Pico de procura”

Margarida Agostinho, do Sindicato dos Médicos da Zona Sul, reforça as denúncias, ao assinalar que “nos centros de saúde também não tem havido colocações”, pelo que “a situação vai piorar rapidamente”. Os clínicos, enfatiza aquela dirigente sindical ao DN, “sentem-se mal tratados, o que tem levado ao aumento das reformas antecipadas”. Na região do Algarve, particulariza Margarida Agostinho, “os recursos são escassos e havia doentes a queixar-se de 24 horas de espera nas urgências”.

Questionado pelo diário, o Ministério da Saúde quis assegurar que “está sempre a acompanhar a situação” dos serviços de atendimento urgente, mas também que nenhuma unidade hospitalar “deu alerta de rutura”. A tutela prefere falar de um “pico de procura, sobretudo na última semana, devido à gripe, que originou maiores tempos de espera”.Segundo o Boletim de Vigilância Epidemiológica do Instituto Dr. Ricardo Jorge, a atividade gripal da primeira semana de 2014 foi “moderada”, com seis internamentos em cuidados intensivos. A incidência foi de 47,9 casos por 100 mil habitantes.


O jornal coligiu números relativos a atendimentos de urgência de norte a sul do país. Um exemplo de sobrelotação - “tendo em conta o período sazonal”, como tratou de sublinhar uma fonte da assessoria da direção hospitalar – é o do Centro Hospitalar de Gaia, onde a média diária de urgências se aproxima do meio milhar.

Outro caso destacado pelo DN é o das urgências do Amadora-Sintra, que, na semana passada, atenderam mais de 500 pessoas. “Houve um reforço da equipa da urgência para 24 médicos, de forma a fazer face às solicitações inesperadas”, indicou uma fonte do Hospital Fernando Fonseca, num esclarecimento ao mesmo jornal. Ainda assim, o número diário de utentes à espera de internamento oscila entre os 16 e os 30.

“O sistema tem de estar dimensionado para os picos de procura que acontecem todos os anos. Não é admissível que todos os invernos os doentes sejam mal tratados”, contrapôs o bastonário da Ordem dos Médicos.

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