Falta de tempo é principal causa dos problemas de comportamento das crianças

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A falta de tempo e o uso de métodos autoritários herdados são as principais causas dos problemas de comportamento das crianças, defende a psicóloga Cristina Valente, que há anos ajuda pais a compreender e respeitar o poder dos filhos.

Antiga jornalista, formada em psicologia e "mãe tardia", Cristina Valente começou há uma década a fazer consultas ao domicílio para pais de crianças com problemas comportamentais e, em junho, lança o seu primeiro livro sobre as preocupações "mais comuns dos educadores: alimentação, sono, adolescência, monoparentalidade, birras e mau comportamento".

"A esmagadora maioria dos problemas que os pais enfrentam hoje tem a ver com a falta de tempo. É a principal causa dos problemas de educação", disse em entrevista à agência Lusa a propósito do Dia Mundial da Criança, que se assinala domingo.

Para Cristina Valente, a falta de tempo leva a um dos erros mais comuns que os pais cometem na educação dos filhos: compensá-los com "demasiados bens materiais".

A psicóloga que nas consultas ao domicílio apoia sobretudo crianças até aos oito anos, considera também preocupante o excesso de atividades extracurriculares, a que se junta a agenda das festas de aniversário.

"Há miúdos completamente extenuados que não têm um segundo de descanso", sustenta.

Cristina Valente lembra também a pressão para que tenham bons desempenhos académicos.

"É bom ter um filho com bons resultados na escola, mas o que vejo nos pais é que, como sabem que vão deixar um futuro muito incerto[aos filhos], pensam, erradamente, que com o sucesso cognitivo, quando forem adultos, estão safos", adiantou.

O que as crianças precisam é de ter outras competências, nomeadamente saber gerir um conflito ou lidar com as frustrações, defende.

Aprender a resolver as angústias e fazer o luto, quer seja de um amigo, de uma mãe que morreu ou um relacionamento que acabou são outras competências que a especialista considera essenciais.

Ensinar os pais a criarem essas competências nos filhos é a base do trabalho da psicóloga, que segue o método de "educação positiva", onde os castigos não têm lugar e onde a energia das birras deve ser canalizada para ações positivas.

Para Cristina Valente, a palmada não é uma linguagem de comunicação com a criança, apenas um descontrole que os pais têm de ultrapassar.

"A principal técnica que interrompe a maior parte dos maus comportamentos é pedir ajuda [à criança] para fazer qualquer coisa, porque quando estamos a pedir ajuda estamos a dizer que a criança é importante e que vai utilizar o seu poder para uma coisa positiva", sugere.

Adianta que a técnica pode ser usada logo a partir dos dois anos, altura em que as crianças já têm capacidade para fazer tarefas simples.

"Se der atenção ao mau comportamento, de cada vez que a criança quiser atenção vai-se portar mal", considerou.

Os pais devem aceitar que os filhos têm "poder desde que nascem" e que o seu comportamento vai depender da forma como for feita a gestão desse poder.

Trata-se de guerras de poder que, segundo a psicóloga, são muito marcadas pelo uso, ainda hoje, de métodos de educação com laivos de autoritarismo que os pais herdaram e que as crianças não compreendem.

"Os miúdos nascem numa sociedade democrática, numa família democrática [...]. O choque acontece porque estamos a utilizar métodos que já não fazem parte da sociedade em que eles vivem. Não significa que eles tenham os mesmos direitos do que nós, porque eles são os filhos e nós os pais, mas há uma necessidade de igualdade em termos de respeito e dignidade que não cumprimos no dia-a-dia e de que os miúdos se ressentem", acrescentou.

Com idades na casa dos 40 anos, os pais que recorrem aos serviços de Cristina Valente são sobretudo da classe média/alta e têm já alguma consciência "da necessidade de o adulto crescer com a criança", mas a psicóloga reconhece que existe alguma relutância nos pais em pedirem ajuda.

"Pedir ajuda é dizer que não sou suficientemente competente", considera a psicóloga, que admite também que o preço do serviço - 70/80 euros por consulta - pesa na decisão dos pais.

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