Começar pela Cultura
- João Carlos Alvim
Com que direito? - perguntarão alguns. Com
que legitimidade? Um manifesto? Manifestos são coisas de partidos
ou, pelo menos, de grupos cívicos organizados. Pois um simples
indivíduo (e quero bem sublinhar a palavra "indivíduo"),
que não é representativo de coisa alguma a não
ser de si próprio e nem sequer dispõe de bandeira ou ao
menos de logotipo, sente-se, sem mais nada, autorizado a desfechar-nos
assim à queima roupa um manifesto? A dizer-nos que pensa e, suma
sobranceria, a comunicar-nos o que pensa? Estaremos nós guardados
para receber num próximo futuro um manifesto por cada criatura
isolada ou por cada grupo de amigos?...

Para uma Sociologia dos Partidos
Políticos - Robert Michels
A edição deste clássico da
sociologia constitui, em Portugal, um verdadeiro acontecimento e como
tal deve ser assinalado. Comecemos, porém, pelo princípio.
Robert Michels foi um alemão (nascido em Colónia, em 1876),
militante socialista (no Partido Social Democrata Alemão, primeiro,
e depois no Partido Socialista Italiano, tendo-se mais tarde aproximado
do sindicalismo revolucionário para finalmente, em 1923, se inscrever
no Partido Nacional Fascista (Itália).
Escrever - Virgílio
Ferreira
A edição de mais uma obra inédita
de Vergílio Ferreira deveria ser um acontecimento, num mercado
onde os livros sérios não são tão abundantes
como isso e onde o género leve (hélas!, tão leve
que chega por vezes a ser leviano) porventura impera. Mas é claro
que, num universo em que apenas as vendas (de preferência muitas
e rápidas) contam, a tal obra inédita não pesa.
De modo que aconteceu o aparentemente absurdo: Escrever surgiu nos escaparates
numa época do ano de todo desadequada para o efeito (Junho) e
foi lançado quase em total silêncio pela sua editora.
Começar pelos Fins
A nova questão comunista - Lucien Sève
Quando o Muro de Berlim ruiu e os vários
regimes comunistas da Europa Central e do Leste começaram a dissolver-se,
uns após outros, houve no Ocidente um frémito de entusiasmo.
Não era só porque a Guerra Fria tinha chegado ao fim (na
verdade, não deve ter sido mesmo por isso, visto que as potências
que supostamente tinham saído vitoriosas da contenda se apressaram,
em pânico, a arranjar novos «inimigos», não
fosse a indústria de armamento entrar em crise...), era sobretudo
porque a proclamada agonia do comunismo anunciava, isso sim, a «definitiva»
vitória da ideologia neo-liberal. Além disso o
que não deixava de ser uma espécie de saborosa cereja
a encimar o bolo anteviam-se já chorudos negócios
com a «abertura» dos mercados do Leste.