O
Programa
Num
livro já não muito recente, o historiador
Georges Duby falava de um tempo em que, como bom
intelectual de uma determinada geração, "desconfiava"
daquele aparelho quadrado a que chamavam televisor.
Mas,
como o mundo dá muitas voltas, antes mesmo de comprar
um, Duby já era chamado a passar-se para o
interior da máquina infernal e a participar num programa
televisivo. A série chamava-se "O Tempo das
Catedrais", era obviamente de História,
baseava-se numa obra do próprio Duby, e foi
um êxito. O historiador ficou rendido.
Desde
então, e o episódio já é antigo,
a História e a Televisão podem
dar-se muito bem, como provam os bons documentários,
as séries e os programas que foram emitidos nas Televisões
de todo o mundo nos últimos vinte anos.



A
experiência tem sido positiva. Os programadores chegaram
à conclusão que havia interesse e um público
ávido para o consumo da História. Essa
avidez cresceu nos últimos anos e a História,
quer na edição de livros, quer no audiovisual,
cresceu de importância ao ponto de quase se transformar
numa moda.
Em
Portugal, até há cerca de seis anos
nenhuma proposta de programa que tivesse como base a temática
histórica conseguiu ganhar corpo. Houve algumas séries,
mas nunca se implantou a ideia de um programa normal como
todos os outros.
Até
que surgiu O Lugar da História, que, às
vezes contra ventos e marés, se tem conseguido manter
no ar desde 1996.
Ao
longo destes anos já foram emitidos cerca de 250
documentários abrangendo temas que vão
da Pré-História à História
Contemporânea.
No que se refere a História de Portugal, O Lugar
da História já tratou de Goa de
Vasco da Gama, da Expulsão dos judeus
em 1496, do capitão Barros Basto, dos boers
que estiveram em Portugal, de Gungunhana o
Vencido, na viagem de Almeida Garrett, de D. Carlos
e dos regicidas, do 25 de Abril, de Gago Coutinho
e Sacadura Cabral, e de Teixeira Gomes, do
cacau de S.Tomé , de João XXI,
o Papa Português, de Ribeiro Sanches, de ex-
votos, da Jerusalém do Norte e do príncipe
Al-Mutamid, dos jesuitas no Brasil, em Os Santos
Padres, no tempo das guerras com a Holanda em Quando
os Portugueses se tornaram Brasileiros, de Eça
de Queiroz, de Aquilino Ribeiro, da história
que o Alqueva tem para contar.



Ao
todo, falámos de mais de trinta assuntos e entrevistámos
alguns dos mais interessantes e conceituados historiadores
do meio académico nacional e estrangeiro.
Quem
nos vê e quem nos contacta? Muita gente. Se O Lugar
da História fosse um livro tínhamos sido
muitas vezes best-seller e já tínhamos batido
muitas das obras portuguesas mais vendidas em todos os tempos.
É que, em Televisão, a mensagem chega
a muito mais gente e a públicos mais diferenciados,
como o próprio Duby confessa, encantado, depois
da sua primeira incursão televisiva.
E
quanto a isso, não nos podemos queixar, desde o jovem
estudante que "complementa" as aulas sobre determinados
temas com documentários exibidos em O Lugar da
História, até à senhora idosa que
nos confessava o seu desânimo por, numa altura em
que o programa era emitido depois da meia-noite, não
conseguir esperar até tão tarde.
Tal
como Georges Duby foi vencido nas suas desconfianças
pelo medium que passou a conhecer, achamos que vencemos
algumas suspeitas de que os temas históricos são
"demasiado pesados" para Televisão.
A esses já respondemos.
Afinal,
que outro meio nos poderia mostrar de forma séria,
mas "ao vivo e a cores" , por exemplo, a Lisboa
que não conhecemos antes do terramoto se não
tivesse havido um casamento feliz entre a História
e a Televisão?
Maria Julia Fernandes