amália a arte de dizer | Rui Vieira Nery
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»Com Pedro Homem de Mello, cerimónia de entrega de Disco de Ouro.
Grémio Literário, Lisboa, 1973 (Col. Fundação Amália Rodrigues)
E que até nem é um poema triste.”12 Independentemente da maior ou menor pertinência desta profissão de suposta “ingenuidade popular” – que Amália, diga-se de passagem, gostava de glosar recorrentemente a seu respeito, a muitos níveis, e que acaba por ser pouco sustentável face à capacidade rara de percepção muito lúcida da realidade envolvente de que sempre deu provas – esta descrição transmite bem o que é a sua faculdade única de entrar no coração do poema e de encontrar aí a essência da sua interpretação.

Igualmente polémico se revela o segundo grupo de escolhas poéticas que marca a colaboração entre Amália e Oulman e que recai sobre alguma da melhor poesia portuguesa do passado, dos trovadores a Camões, e deste à lírica romântica do século XIX. Com alguma prudência, evitando de início fazê-lo no formato maior do LP, ambos lançam no formato menos arriscado do EP de 45 rotações Amália Canta Luís de Camões (1965) e Amália Canta Poesia Medieval Portuguesa (1968). Oulman põe em Fado a Ermida de São Simeão, de Mendinho, Nós, Meninas, de Pero de Vivães, a Cantiga Partindo-se, de João Roiz de Castelo Branco, o Malaventurado, de Bernardim Ribeiro, o Com que Voz, a Dura Memória, a Lianor e o Perdigão Perdeu a Pena, de Luís de Camões, e ainda o Pedro Gaiteiro, de António Feliciano de Castilho. A reacção não se faz esperar, sob a forma, simultaneamente, de uma nítida estranheza por parte de sectores do circuito fadistas que – mais uma vez – não vêem suficiente Fado nesta poesia culta do passado, e dos intelectuais mais conservadores (tanto da Direita como da Esquerda, entenda-se bem), que se escandalizam com uma suposta banalização degradante do mais importante ícone da Língua Portuguesa, Camões. Amália comenta, a este respeito, com o seu habitual bom senso: “Um poeta é para ser cantado, porque isso é sintoma que não fez uma obra para ficar na biblioteca, que é para toda a gente.”13

12.Vítor Pavão dos Santos, op. cit., pp. 150-151.
13.Idem, p. 154.