um encontro/desencontro com o cinema | António Rodrigues
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»João Guedes e Pierre Vaneck. Cena de As Ilhas Encantadas,
1965 (Col. Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema)

Em todos os sentidos, As Ilhas Encantadas (1965) é o completo oposto de Fado, História de uma Cantadeira. É um filme a cores, à altura da sua ambição artística, situado no século XIX, falado essencialmente em francês, que conta uma história que nada tem a ver com Portugal, especialmente com fados, guitarras e “bairros típicos”, um filme em que ninguém canta. Trata-se da adaptação de uma história de Herman Melville, The Encantadas or Enchanted Isles (1854), publicada no mesmo volume que Bartleby e Benito Cereno. Mas apesar de pertencerem a dois universos cinematográficos totalmente diferentes e apesar da diferença abissal de qualidade artística, Fado, História de uma Cantadeira e As Ilhas Encantadas têm um ponto em comum: ambos exploram a intensidade do rosto de Amália Rodrigues, que no filme de Carlos Vilardebó é ainda maior, por ser quase sempre silenciosa. Como é dito em As Ilhas Encantadas a propósito da personagem encarnada por Amália Rodrigues: “Havia algo de estranhamente altivo na expressão daquele rosto, embora a sua expressão fosse de infelicidade. A natureza orgulhosa subjugava a natureza torturada.” Cheio de elementos simbólicos, o conto de Melville, dividido em várias partes e narrado no passado pelo protagonista, é uma obra-prima literária à qual Vilardebó faz jus. O realizador soube transmitir algo que está no cerne da narrativa: o jogo de equilíbrio entre o que é rememorado, o que é imaginado e o que é real, assim como o contexto naval e insular, com opções de realização que nada têm a ver com o cinema-espectáculo, com o filme de aventuras. Encantadas, em espanhol, foi um dos nomes usados e inglês para designar as Galápagos, mas esta referência específica não existe no filme, onde estas ilhas são “paragens desoladas e foi sem dúvida por irrisão que alguns as chamaram encantadas”.