O impacto da Guerra - Louça, entrevista 3 deficientes das Forças Armadas
Locutor enuncia que o objectivo do Programa em que decorre a presente entrevista diz respeito às consequências traumáticas da guerra colonial na sociedade portuguesa, as quais, dada a dimensão do país, são maiores dos que as da guerra do Vietname.

São entrevistados três deficientes profundos ligados à Direcção da Associação de Deficientes das F.A., António Calvinho (A.C.), Patuleia Mendes (P.M.) e José Arruda (J.A), sendo a entrevista conduzida por António Louçã.

O primeiro tema da entrevista versa sobre a "Preparação das F.A. para enfrentar aquele tipo de guerra". As imagens que antecedem a entrevista levantam algumas questões importantes que envolviam a guerra colonial.

De facto, era geral o desconhecimento da realidade que os militares metropolitanos iriam enfrentar durante a permanência nas Colónias. «A guerra era qualquer coisa muito distante...Era uma realidade completamente diferente daquela para a qual fôramos preparados» (A.C.); «No início dos confrontos havia a noção de se ir para o desconhecido, o qual conhecíamos apenas através da instrução nas escolas...» (P.M.). Até ao início dos anos 60, África era um Continente muito distante de que se ouvia falar nas escolas numa perspectiva "imperial" de domínio dos brancos sobre as populações negras indígenas, valorizando a leitura histórica das epopeias militares de finais do séc. XIX para domínio e castigo das populações locais que tinham o arrojo de se revoltar. Chaimite e Mouzinho de Albuquerque eram expoentes máximos dessa leitura.

Omitia-se o papel desempenhado durante séculos no horror do tráfico esclavagista, o preconceito da Europa Imperialista relativamente a África que culminou com a partilha do Continente na Conferência de Berlim e a permanente resistência armada das populações autóctones à penetração branca, comum a todos os territórios ultramarinos - da Guiné a Timor - desde meados do séc. XIX (cf.: Pélissier, René, "As Campanhas Coloniais de Portugal - 1844-1941", Editorial Estampa, 2006).

Outro aspecto prendia-se com a crescente necessidade de reforçar em homens os "teatros de operações" que levava à utilização de jovens com reduzida e apressada formação como Capitães e à redução do tempo de preparação militar dos contingentes. «A preparação era tremendamente rápida para o tipo de guerra que íamos enfrentar...» (P.M.). O mesmo se pode dizer em relação à preparação psicológica que era fornecida e aos suportes de propaganda utilizados, como é referido por P.M. a propósito de um póster espalhado pelos aquartelamentos do mato anunciando que éramos «contra o terrorismo, somos pela fraternidade», quando a realidade era bem mais trágica envolvendo mortos e feridos, de parte a parte. E aqui, toca-se um assunto delicado, «questão complexa» (P.M.) que se relaciona com os maus tratos e mesmo eliminação física de prisioneiros que, sendo uma prática rara, estava frequentemente relacionada com reacções emotivas face à morte ou ferimento recente de camaradas e amigos. No entanto, «estas coisas aconteceram e não vale a pena escamotear» (P.M.).

Contrastando com as imagens da recepção calorosa nas Colónias dos militares metropolitanos no início das hostilidades, estes eram acusados de comportamentos posteriores condenáveis, do «tipo ocupante colonial» (Ana Barradas), sendo olhados por alguma população (colonos) com «hostilidade» (P.M.), dando origem a alguns mal-entendidos. Inicialmente a participação dos naturais dos diversos territórios na guerra era muito reduzida, «...eu era muito jovem e a guerra era uma coisa muito longe. Eu era de Lourenço Marques e quem nos ia defender eram os metropolitanos. Entrei na guerra em 1971 (hora de todos irem para a guerra, mesmo os filhos de L. Marques...» (J.A.). Com o arrastar da guerra colonial sem que o poder político encontrasse soluções por via diplomática para por fim ao conflito, os jovens do recrutamento local começaram a ser enviados para as frentes onde se combatia, como é patente das palavras de José Arruda, o que correspondia a um deteriorar da situação, «a guerra estava por um fio...queríamos que aquilo acabasse rapidamente» (J.A.). Os discursos oficiais soavam «...ao canto do cisne...eu sentia já nessa altura com a chegada de tropas de Portugal e o aumento do recrutamento local que a situação se estava a deteriorar. Era o final das coisas. O regime não tinha moral.» (J.A.).

A dureza das condições que rodeavam a guerra colonial, para além das situações de combate, estão bem patentes no final da entrevista: «mais importante do que estes discursos que arrastavam um povo para o suicídio, é que havia 185 mil homens em guerra e cerca de 1/3 de refractários e desertores. A evolução para a democracia não era possível sem o MFA se impor. Os outros países deram as independências. Portugal não viu o sacrifício de toda uma geração.... Hoje, estes jovens que participaram em tudo isto estarão traumatizados ("stress pós-traumático"). Estão todos marcados. É uma geração martirizada por um regime que não soube encarar com realismo histórico o que estava iminente...» (A.C.).

Os comentários aos diferentes Documentários foram efectuados em colaboração com a Associação 25 de Abril, e são da responsabilidade de:
Coronel de Infantaria - José Aparício
Coronel de Artilharia – Eduardo Abreu
Coronel Piloto aviador – Villalobos Filipe
Capitão-de-mar-e-guerra – Pedro Lauret
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