Guerra Colonial na Guiné - Louçã - Entrevista Carmo Vicente elemento Paigc
O programa em causa, da autoria de António Louçã, tem como principais protagonistas ENZA SAMBU, guineense que durante a luta de libertação desempenhou funções na área da segurança e de educação no PAIGC, e ANTONIO CARMO VICENTE ao tempo sargento-mor nas tropas paraquedistas portuguesas e com 2 comissões na Guiné.

As imagens iniciais do documentário são da "Conferencia de Solidariedade com os povos das colónias portuguesas de Guiné, Angola e Moçambique", realizada em Roma de 27 a 29 de Junho de 1970, e que foi organizada por 3 centrais sindicais próximas do PCI (Partido Comunista Italiano). Estiveram representadas nesta Conferencia cerca de 171 organizações, nacionais e internacionais, de 64 países. São reconhecíveis nas imagens, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. Um dos principais organizadores da Conferencia foi a italiana Marcella Glissanti, conhecida admiradora de Amílcar Cabral, que conseguiu junto do Vaticano que o Papa recebesse os representantes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas.

E assim, no dia seguinte 01Jul70, esses representantes foram formalmente recebidos pelo Papa Paulo VI, recepção esta amplamente difundida em todos os meios de comunicação mundiais, o que deu uma enorme projecção ao acontecimento e, consequentemente, aos movimentos de libertação das colónias portuguesas, e causou muitos incómodos às autoridades portuguesas. Como se afirma no documentário, são hoje conhecidas as diligências feitas pelo PAIGC junto das autoridades portuguesas antes do início das hostilidades, procurando atrair Lisboa à mesa das negociações. Assim, em 25Set60 foi entregue às autoridades portuguesas um memorando de 4 folhas em que, entre outras reivindicações, o PAIGC solicitava o reconhecimento solene e imediato do direito à autodeterminação dos povos da Guiné e de Cabo Verde. Um outro memorando entregue em Lisboa em Dezembro de 1960 propunha já um plano mais detalhado para a descolonização E em 13Out61 Amílcar Cabral endereçou uma "carta aberta" ao governo português onde fazia alusão "à aspiração de todos os povos à independência nacional, à paz, ao progresso e à colaboração pacífica com todos os povos, o povo português incluído".

A todas estas diligências o governo português não deu qualquer resposta, ou sequer deu indícios que estariam a ser considerados alguns dos pontos suscitados.

Entretanto em 03Ago59 tiveram lugar em Bissau os incidentes de Pidjiguiti. Um dos sobreviventes narra os acontecimentos que presenciou. O entrevistado EMZA SAMBU era então ainda muito novo mas lembra-se de conversas tidas pelo seu Pai com outros elementos da população.

Os incidentes tiveram, naturalmente, consequências imediatas. E assim em 19Set59, um mês depois dos acontecimentos, nos arredores de Bissau teve lugar uma reunião clandestina onde estiveram presentes Amílcar Cabral, Rafael Barbosa, Aristides Pereira, Luís Cabral e Fernando Fortes.

Não há nenhuma acta conhecida desta reunião. Existe apenas uma informação secreta do PAIGC com um programa de acção que, entre outras, preconiza:

- Mobilizar e organizar a população rural, os camponeses que constituem a força principal da luta de libertação nacional;

- Reforçar a organização da população urbana, mas mantendo-a na clandestinidade evitando toda e qualquer manifestação pública;

- Desenvolver e reforçar a unidade de todos os grupos étnicos, de todas as origens, e de todas as camadas sociais do país;

o Preparar o maior número de quadros tanto no interior como no exterior.

Na sequência deste documentário é analisado o apoio internacional aos 2 lados do conflito.

Do lado português, as várias reportagens, e declarações de A CARMO VICENTE, confirmam o uso de napalm, de algum tipo de armamento ligeiro e de aviões NATO pelas Forças Armadas Portuguesas. Por outro lado, segundo declarações do Inspector Pereira de Carvalho da DGS, alguns oficiais do Exército Francês, com problemas em França devido ao seu envolvimento com a OAS na guerra da Argélia, pediram asilo em Portugal e terão oferecido os seus préstimos, já que, alguns, teriam experiência de serviços de informações. Como o próprio confessa, esses oficiais eram por demais conhecidos para poderem ser úteis como infiltrados nos vários movimentos de libertação. Do lado do PAIGC vários Países do Leste, China e Cuba, prestaram auxílio na preparação de quadros e no fornecimento de armamento. Em 1961 foram enviados para a Academia Militar de Nanking 10 elementos, entre os quais Nino Vieira, Chico, Osvaldo Vieira, Domingos Ramos e Constantino Teixeira, que ali permaneceram durante cerca de quatro meses e receberam uma boa preparação militar.

Todos regressaram mais fortes e muito confiantes como confessaram. Assim se compreendem as afirmações de Nino Vieira constantes do documentário, quando manifesta a ideia de atacar imediatamente Bissau e os portugueses, e proclamar logo a independência, ao que Amílcar Cabral os chamou logo à razão.

Todos os dirigentes do PAIGC tiveram uma muito forte influência das doutrinas chinesa, mas também vietnamita, sobre as lutas de libertação, como confirmam Pedro Pires e Amílcar Cabral. É claro que foram muito importantes os ensinamentos de Nguyen Van Tien sobre "que é absolutamente necessário demonstrar a toda a população a necessidade da luta armada envolvendo-a nesse propósito, já que as armas aparecem sempre" e "sem paciência não há revolução possível" .

Ainda de Nguyen Van Tien "Não se pode ser revolucionário superficialmente. A solução da questão da população rural é a mais dura e a mais complexa de obter, mas, se a conseguirem, a vitória é certa. Nunca mais sereis derrotados".

Pôs-se assim, logo desde o início, o grande problema de como convencer as populações rurais, ainda para mais num país com várias etnias, com estruturas sociais muito diferenciadas, com os balantas e manjacos mais receptivos, mas com os fulas e mandingas mais difíceis de convencer. O PAIGC necessitou de mais de três anos de trabalho político antes de iniciar a luta; mas em 1968 ainda havia zonas na Guiné onde as populações não eram receptivas às ideias do PAIGC. Compreendem-se assim as declarações de ENZA SAMBU neste documentário sobre o trabalho político junto das tabancas e dos respectivos chefes e "homens grandes".

Já minimamente organizado, o PAIGC desencadeia a luta armada em 23Jan63 com um ataque ao quartel de Tite. Como refere ENZA SAMBU, nos primeiros tempos o armamento não abundava devido às dificuldades do PAIGC em introduzi-lo no território.

Quando em 1961 a Checoslováquia enviou oficialmente armas para o PAIGC, através do Ministério da Defesa da Guiné Conacri, aquelas nunca chegaram à posse do partido. Entretanto o rei de Marrocos, Mohamed V, autorizou que fossem remetidas armas e munições para a Guiné Bissau. Mas não querendo ser responsabilizado pelo facto, impôs a condição de serem elementos do PAIGC a procederem ao seu levantamento no Estado-Maior marroquino, fazendo-as depois seguir para a Guiné como entendessem. Sékou Touré, Presidente da Guiné Conacri, andava sempre receoso de complots para o derrubarem, e não tinha, ainda, dado autorização para o trânsito de armamento através do seu território.

Em consequência, a recepção de armas para o PAIGC na Guiné Conacri, e o seu encaminhamento posterior para o interior da Guiné Bissau só foi possível inicialmente por métodos pouco ortodoxos de contrabandistas. Até que em 1962 uma caixa de ferro, com indicação exterior de "medicamentos", caiu de uma grua no porto de Conacri e as autoridades portuárias constataram que o seu conteúdo era, antes, de armas e munições. Sékou Touré reagiu imediatamente, mandando prender os responsáveis do PAIGC que estavam em Conacri, tendo então sido presos Aristides Pereira, Luís e Vasco Cabral, Pedro Ramos e Fidélis Cabral.

Só após o ataque a Tite efectuado pelo PAIGC é que Tite Sekou-Touré se convenceu, definitivamente, que as armas eram para o combate na Guiné Bissau, e, após diligencias pessoais de Fidel de Castro e Ben Bella a pedido de Amílcar Cabral, mandou libertar os dirigentes presos. E o fluxo de armas para o interior da Guiné Bissau passou depois a ser feito sem dificuldades.

Na Guiné Bissau haviam armas pesadas soviéticas, armas ligeiras checoslovacas e de outros países de leste, e armas chinesas. Cuba colaborava com instrutores operacionais e técnicos de saúde, e fornecia ainda os uniformes, curiosamente ali confeccionados mas com tecidos chineses oferecidos para o efeito. Dos países ocidentais apenas a Suécia apoiou o PAIGC.

De 13 a 17Fev de 1964 teve lugar em Cassacá, no sul da Guiné, o 1º Congresso do PAIGC onde muito importantes decisões foram tomadas. Foi ali decidida uma profunda reestruturação política do partido, mas principalmente a mudança de estratégia organizativa e operacional militar. Dos muitos grupos pequenos de guerrilha então existentes nas áreas já controladas pelo PAIGC, e que actuavam basicamente a partir das suas "tabancas" de origem em acções de pequena envergadura, como refere ENZA SAMBU nas suas declarações, passou-se à criação de unidades regulares formadas pelos guerrilheiros mais experientes. Dos 2,000 guerrilheiros que se ofereceram inicialmente foram seleccionados cerca de 900 que constituíram as primeiras unidades regulares (bigrupos) que iniciaram a 3ª fase (a fase móvel) da luta de libertação, e que foi decisiva para o desenrolar da guerra.

Em 1965, e anos seguintes, houve um grande desenvolvimento da fase móvel com intervenções importantes e cada vez mais violentas e ousadas sobre as unidades portuguesas. Também a qualidade do armamento usado pelo PAIGC foi aumentando significativamente com a introdução de sistemas de foguetões (os GRADE como referem ENZA SAMBU e o sargento CARMO VICENTE) e finalmente o aparecimento em 1973 do míssil ligeiro antiaéreo russo (STRELA) provocou o abate de 4 aviões portugueses nesse ano.

A situação militar alterou-se, então, significativamente. Entretanto em Maio de 1968 chegava à Guiné o general António de Spínola que assume os cargos de Governador e Comandante-Chefe, substituindo o general Arnaldo Schultz que desempenhava essas funções.

E muitas alterações foram logo introduzidas. Primeiro em termos de conceito: enquanto o general Schultz tinha adoptado um dispositivo fixo que cobria a maior parte possível do território, o que para ocupação dessas áreas levava ao fraccionamento de algumas unidades militares em pequenos destacamentos que eram atacados com frequência, o general Spínola reorganizou o dispositivo concentrando-o, e reconstituiu as unidades que tinham parte das suas forças nesses destacamentos, para possibilitar uma melhor capacidade de reacção a qualquer ataque, mas evidentemente abandonando território, pelo menos temporariamente.

Mas a grande mudança esteve na acção social desencadeada, e na tentativa de conquistar as populações, o que o general Spínola perseguiu intensa e firmemente e de uma maneira muito original e eficaz. Primeiro estudando a situação dos vários grupos étnicos existentes, e da posição de cada um face às outras etnias e em relação à luta de libertação; depois tentando resolver, ou pelo menos atenuar, as quezílias históricas muito antigas entre algumas etnias, nomeadamente entre fulas e mandingas. Em 1970 convocou o 1º Congresso do Povo, para atenuar as tensões entre fulas e mandingas; como conclusão deste Congresso os mandingas passaram a eleger os seus próprios régulos do seu "chão" na região Farim-Oio, e que substituíram os anteriores régulos fulas. Os Congressos seguintes foram abertos a todas as etnias, e aí foi procurado reavivar a consciência tribal ancestral, e restaurar os poderes tradicionais dos régulos no seu "chão", o que naturalmente criava divisões inter-étnicas que iam, evidentemente, contra os objectivos do PAIGC.

Esta estratégia teve algum êxito inicial. Mas o PAIGC deu-se imediatamente conta do perigo que corria. Agravando a situação, ainda em 1970 deu-se um longo processo de negociação entre o Exército e os guerrilheiros que actuavam na frente Norte, com vista à sua integração nas Forças Armadas Portuguesas. Ao ter conhecimento destas reuniões o PAIGC reagiu imediatamente, e os negociadores portugueses, majores Magalhães Osório, Passos Ramos e Pereira da Silva, e ainda alguns militares que os acompanhavam, foram barbaramente assassinados e esquartejados a golpes de catana em Cantchungo no "chão" manjaco.

Ao contrário do expresso no documentário, a operação charme não foi um desastre, já que muita coisa mudou com a chegada do general Spínola à Guiné, como está comprovado por várias fontes. Também o entrevistado ENZA SAMBU confirma que o PAICV sentiu algum receio pelo desenvolvimento dessas acções, narrando mesmo uma conversa com Amílcar Cabral sobre o assunto.

Neste documentário surge também o Presidente Senghor do Senegal a dar conta da sua tentativa de conseguir convencer o general Spínola a negociar com o PAIGC. È conhecido publicamente que foi o Primeiro-ministro Marcello Caetano que não permitiu a continuação das negociações que poderiam ter levado a outro desfecho a guerra na Guiné.

Pergunta-se no documentário quem foi Amílcar Cabral?

Amílcar Cabral nasceu em Bafatá na Guiné Bissau em 24Set24. Era filho de pais cabo-verdianos que para ali tinham emigrado à procura de melhores oportunidades de trabalho. Ao fim de 8 anos a família regressou a Cabo Verde. Só em 1936 é que o pequeno Amílcar se matriculou na escola primária mas nesse ano conseguiu fazer as 4 classes ingressando em 1937 no liceu Gil Eanes em Cabo Verde, que frequentou até ao fim, classificado sempre entre os melhores alunos. Terminou o curso dos liceus com média de 17 valores. Ainda trabalhou na cidade da Praia, até que em 1945 obteve, por concurso, uma bolsa de estudos e vem para Lisboa para o ISA (Instituto Superior de Agronomia), onde conclui brilhantemente o seu curso de engenheiro agrónomo. Como todos os estudantes africanos em Lisboa frequentou com assiduidade a Casa de Estudantes do Império onde conheceu Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto.

Em 1952 chega a Bissau com um contrato de director-adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné. Durante 2 anos fez o recenseamento agrícola da Guiné, o que foi uma oportunidade única de conhecer detalhadamente todo o território, todas as aldeias, as várias etnias e os seus problemas, as características muito específicas do terreno na Guiné. O governador da Guiné na altura era o Comandante Melo e Alvim que tinha um espírito liberal, e que quando tomou conhecimento de denúncias de actividades clandestinas por si desenvolvidas aconselhou Amílcar Cabral a sair da Guiné para evitar problemas. Assim fez regressando a Lisboa onde pouco tempo depois arranjou trabalho em Angola para onde seguiu e se ligou a angolanos que começavam a contestar, também, a presença portuguesa. A independência da Guiné Conacri em Setembro de 1958 foi um acontecimento marcante na sua vida sendo conhecida uma frase que então proferiu "Agora já tenho terra. Posso arrumar as minhas coisas para regressar definitivamente a África".

Um mês depois do massacre de Pidjiguiti deixa Angola e regressa à Guiné, onde entra na clandestinidade e começa a sua actividade política como atrás se refere.

Politicamente muito bem preparado, era profundo conhecedor de todas as lutas de libertação e dos seus principais teóricos. Teve sempre uma enorme preocupação em explicar que a guerra que travavam não era contra o povo português, que era uma guerra justa, e não uma guerra de vingança. Dizia ainda muitas vezes que o PAIGC não era um partido de militares mas antes de militantes armados, e que a Guiné seria libertada não pela via militar, mas sim pela acção política e diplomática. Curiosas são as declarações de ENZA SAMBU que narra, no documentário, conversas que teve com Amílcar Cabral que lhe afirmou "quem está a pensar que depois da guerra vai ocupar as casas bonitas de Bissau, então que saia já, devendo fazer o mesmo aqueles que pensam que depois vão ganhar muito dinheiro". Era a prevenção contra o "Ascensionismo" expressão usada pelos comunistas chineses nas suas guerras de libertação e que correspondia àqueles que se retiravam para a montanha esperando que as circunstancias decidissem quem era o vencedor. Em 20 de Janeiro de 1973 Amílcar Cabral foi assassinado por um grupo de elementos do PAIGC. Muitas hipóteses foram levantadas sobre quem matou Amílcar Cabral, e que são suscitadas na entrevista com Spínola, já depois de 25 de Abril de 1974, e pelas declarações da sua Mulher Ana Maria ambas incluídas no documentário.

A PIDE provadamente teve a intenção de o matar mas em período muito anterior; na altura dos eventos não teria essa capacidade. A Spínola não interessava, de todo, a morte do seu adversário que, antes, tinha tentado conquistar para o seu campo. Outros factores foram entretanto sendo conhecidos, como a antiga tensão entre guinéus e cabo-verdianos, aqueles reclamando porque a maior parte do esforço de guerra caía sobre os seus ombros enquanto os cabo-verdianos na sua grande maioria não andavam em operações; mas também houve o facto de todos os intervenientes terem estado com problemas com o Partido, entre Abril e Setembro de 1971 todos estiveram presos na cadeia do PAIGC em Conacri, a "Montanha"; além disso o autor material do assassínio, Inocêncio Cani antigo comandante da Marinha de Guerra e membro do Comité Executivo de Luta, tinha sido despromovido e ficado reduzido ao comando de uma única vedeta. De qualquer forma a versão oficial da morte de Cabral transferiu para o exterior do PAIGC o ónus da culpa, pacificando o antagonismo intenso entre guineenses e cabo-verdianos.

Entretanto, entre 18 e 22 Julho de 1973, o PAIGC organizou em Ma dina do Boé o seu II Congresso para decidir a sucessão da presidência do partido, tendo sido escolhido para o efeito Aristides Pereira.

E a 24 de Setembro de 1973 em Madina do Boé foi declarada a independência do País durante a 1ª Assembleia Nacional da Guiné Bissau, como documentado no documentário em causa.

J Aparício 05Jan09

Os comentários aos diferentes Documentários foram efectuados em colaboração com a Associação 25 de Abril, e são da responsabilidade de:
Coronel de Infantaria - José Aparício
Coronel de Artilharia – Eduardo Abreu
Coronel Piloto aviador – Villalobos Filipe
Capitão-de-mar-e-guerra – Pedro Lauret
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