Um Ano de Revolução - 1974 e 1975
Cronologicamente pode dividir-se este período em dois sub períodos: Até ao 11 de Março e após aquela data.
O primeiro, logicamente, decorre logo a seguir ao 25 de Abril caracterizado, entre outros factos, pela libertação dos presos políticos, ocupação da Sede da PIDE e prisão dos respectivos elementos, pela grandiosa manifestação do 1.º de Maio, pela chegada de políticos emigrados como o Drs. Mário Soares e Álvaro Cunhal que tiveram triunfais recepções à chega a Lisboa e pela abertura das Sedes dos Partidos Políticos.
Entretanto, a acção governativa era assumida após a tomada de posse do General Spínola como Presidente da República, pelo 1.º Governo Transitório: «Mas este não era o Governo indicado para a missão...».
As greves e reivindicações sucedem-se na sociedade civil, enquanto «...a reacção aproveita a situação para levantar a questão do "caos económico"...Spínola serve-se disto para obter o reforço dos seus poderes. Com o mesmo objectivo manobra Palma Carlos».

O MFA opõe-se às pretensões do PR e do 1.º Ministro e «...deixará de ser simples observador. O Coronel Vasco Gonçalves é nomeado 1.º Ministro e vários Ministérios são ocupados por militares. Depois de 18 de Julho Spínola sabe que para impor a sua concepção de governo terá de entrar em conflito aberto com o MFA». Entra-se num autêntico braço de ferro em que o PR procura encontar apoios junto a Unidades militares de particular importância. «É o tempo de contar as espingardas... No plano interno, as contradições eram evidentes. Personalista em extremo mas apesar disso pragmático, Spínola não suportava que o MFA se lhe opusesse».

Na sombra, a reacção ia-se organizando e preparando a grande manifestação prevista para o dia 28 de Setembro em que nas palavras de Spínola, «a maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente dos extremismos totalitários...». Segue-se o episódio da praça de touros do Campo Grande em que Spínola é aclamado enquanto Vasco Gonçalves e o MFA são vaiados, numa encenação preparada por elementos "reaccionários". Estamos em vésperas do dia 28 de Setembro em que se preparava uma manifestação de apoio a Spínola, a qual é abortada pela acção popular. Erguem-se barricadas à entrada de Lisboa e todos os carros que chegam são revistados... Mas na manhã de dia 28 o MFA dominava a situação. Dois dias depois Spínola renunciava à Presidência da República, sendo substituído no cargo pelo General Costa Gomes.

O profundo diferendo entre o MFA e o Gen. Spínola centrado em torno do Processo de Descolonização reconhecido por este como «...o mais importante e o mais delicado dos problemas que terão de resolver-se..» centrava-se em torno do reconhecimento do direito das colónias à independência, uma vez que seguindo a tese que já expusera no seu livro "Portugal e o Futuro" publicado em Fevereiro de 1974, Spínola, embora reconhecendo o direito das colónias à autodeterminação, preconizava a realização de referendos, divergindo neste ponto do MFA. «...Ao encontrar-se com Nixon, Spínola procura apoio internacional para a sua concepção de autodeterminação dos povos...» mas Nixon desiludiu-o ao confirmar que os EU não precisavam de intermediários para prosseguirem a sua política em a África. «Se Portugal tivesse seguido este caminho, teria desempenhado o papel mais caricato da história: perguntar aos outros povos se queriam ser livres e independentes». A Lei 7/74 de 26 de Julho que Spínola promulgada no mesmo dia vem clarificar a posição de Portugal em relação à Descolonização ao contemplar expressamente o «...direito dos povos à autodeterminação e a independência dos territórios de além-mar». Com a promulgação desta Lei parecia que o conflito Spínola/MFA estaria sanado, mas estala uma outra vertente do mesmo quando o General Spínola não levanta problemas relativamente a Moçambique e à Guiné, mas afirma que quem irá conduzir o "assunto Angola" será ele exclusivamente. De novo o MFA se opõe e esta sucessão de desacordos não contribui para a estabilização interna. É na linha desta posição que «...receberá no Sal o Presidente Mobutu».

O processo de Descolonização processa-se agora com mais rapidez porquanto os Movimentos de Libertação perdem a desconfiança que as posições iniciais de Spínola lhe inspiravam. «Em Agosto, Portugal e a ONU acordam o reconhecimento à independência de todas as Colónias. ... Em 26 de Agosto é assinado em Argel o Acordo sobre a independência da Guiné entre representantes do Governo Português e do PAIGCV. Vinte dias depois o novo Estado é admitido na ONU. Entretanto as conversações com a Frelimo viriam a culminar com o Acordo de Lusaka. Na Argélia, Portugal e o MPLSTP assinavam um Acordo para a independência do Arquipélago. No Algarve, finalmente, o MPLA, a FNLA e a UNITA, agora reunidos, assinaram com o Governo Português o Acordo que leva à independência de Angola». Cabe aqui recordar as palavras de Agostinho Neto na cerimónia da assinatura do Acordo do Alvor quando discursou em nome dos três Movimentos de Libertação angolanos: «... Ao quarto Movimento de Libertação, quer dizer ao MFA que catalisou a vontade de Portugal para derrubar o fascismo em Portugal e lançar as bases sólidas para terminar a exploração colonial, espinha dorsal da vontade popular para as transformações democráticas em Portugal, nós desejamos, representantes do FNLA, do MPLA e da Unita, dizer quanto admiramos a sua coragem e firmeza que permitiram, não só libertar o povo português da ditadura Salazarista e Caetanista, não só dar garantias de democracia a este povo português que bem merece, como também tornou uma realidade, tornou possível a realidade da nossa afirmação comum relativa à não existência de ódio entre o povo português e o povo angolano. O sistema é que estava errado».

A data de 11 de Março marca o momento mais crítico do Processo Revolucionário quando: «Subitamente na manhã de 11 de Março a zona do aeroporto de Lisboa é sobrevoada por caças T6 e helicópteros. A surpresa estampa-se nos rostos quando se ouve o estrondo das explosões. O RAL 1 sofria um bombardeamento. Pára-quedistas cercavam o aquartelamento de confiança do COPCON. Quem lhes armara o braço começara muito antes. Spínola, o general que não sabia perder. A presença dos pára-quedistas começara a ser preparada no verão anterior. O trabalho de os enganar começara aí». O diálogo que se trava entre o Comandante da tropa pára-quedista atacante e o Capitão Dinis de Almeida é patético. O primeiro dizendo que tem ordens para atacar e ocupar o RAL 1, mostrando um "panfleto" que retirou do bolso para sustentar a acção; o segundo invocando a sua integração na hierarquia de comando legalmente estabelecida e o seu dever de defender a Unidade e perguntando se o ataque se baseava naquele "panfleto" que desconhecia até àquele momento. A resposta do Oficial pára-quedista é reveladora da origem do golpe contra o MFA que se procurava levar avante: «Não. Atrás disto existem uma série de "altas individualidades" que não estão contentes com a maneira como está a ser conduzida a democracia do nosso país...».A acção termina quando os soldados pára-quedistas sentem que foram enganados pelos seus comandantes e marcham para o RA 1, desarmados, abraçando os camaradas daquela Unidade e dando vivas ao MFA. Porém, não se evitou o bombardeamento da Unidade por parte dos T6 que sobrevoavam o aquartelamento, do que resultara a morte de um militar.

Decorrente deste ataque o MFA toma uma série de medidas de que há a destacar a nacionalização da banca e a institucionalização do Conselho da Revolução em cuja tomada de posse o PR, Gen. Costa Gomes, afirmou: «... Como é público, estes actos políticos estavam previstos mas em relação a eles os acontecimentos do 11 de Março foram o catalisador que veio acelerar um processo indispensável. ... Iremos criar uma Assembleia Geral do MFA que represente em termos progressistas o sentido autêntico de todas as FA, do General ao Soldado».

Este trabalho jornalístico termina com uma referência ao Pacto MFA/Partidos e com imagens dos portugueses a votar nas primeiras "eleições livres" que ocorreram em Portugal após o Movimento Libertador do 25 de Abril.

Os comentários aos diferentes Documentários foram efectuados em colaboração com a Associação 25 de Abril, e são da responsabilidade de:
Coronel de Infantaria - José Aparício
Coronel de Artilharia – Eduardo Abreu
Coronel Piloto aviador – Villalobos Filipe
Capitão-de-mar-e-guerra – Pedro Lauret
  • VIDEOS ACTUAIS
  • VÍDEOS DA ÉPOCA
  • TÍTULOS
RTPA25