PAIGC - Documentário Francês
O presente documentário trata, de uma forma muito eficaz, toda a estratégia de luta do PAIGC a partir de 1964. Com efeito, tendo como base as declarações de Amílcar Cabral em três blocos, o documentário sublinha e enfatiza com imagens, as grandes linhas de força saídas do Congresso de Cassacá (na proximidade da Ilha de Como e da fronteira com a Guiné-Conacri) realizado em Fevereiro de 1964.

Este Congresso foi a primeira grande reunião do PAIGC com a presença da quase totalidade dos quadros responsáveis. A grande importância das decisões ali tomadas teve a ver, especialmente, com:

- a necessidade de definir muito claramente a subordinação da estrutura militar ao poder politico; Amílcar Cabral fez sempre declarações em diferentes ocasiões afirmando explicitamente que o PAIGC era um partido de militantes armados e não de militaristas;

- a criação de uma nova estrutura militar operacional, os "bigrupos", com uma chefia bicéfala com um comandante militar e um comissário politico; estas unidades eram constituídas por 40 elementos bem armados e em constante movimento, dando assim início a fase da guerra de movimento;

- a orientação para a organização das zonas libertadas, dotando-as de recursos básicos essenciais, nomeadamente de saúde, educação e justiça, que foi, evidentemente, o projecto mais importante e conseguido para o controlo e apoio das populações.

Ilustrando o que se acima se refere, o documentário inicia-se com uma formatura militar de um bigrupo com os militares bem fardados e com o normal equipamento de combate, sendo visíveis as armas individuais (Kalashnikovs, metralhadoras ligeiras Degtyarev, e lança granadas RPG 7).

A formatura é apresentada militarmente ao seu Comandante, que depois dá a palavra ao Comissário político.

As frases proferidas são elucidativas "as armas na mão são para liquidar a dominação colonial portuguesa, e não para lutar contra o povo português, alguma família portuguesa, ou contra um português".

O grande dilema do comando militar português na Guiné, que Amílcar Cabral caracteriza com muita clareza e objectividade, foi definir qual o dispositivo mais adequado para fazer face a situação militar. Assim, em meados da década de 60, o dispositivo militar (conceito operacional do general Shultz) baseava-se na ocupação militar da maior parte possível do território.

Tal solução, por escassez de efectivos, obrigava a desmembrar as companhias operacionais para colocar pequenos destacamentos em mais locais e cobrir assim um maior espaço geográfico; era a "quadrícula" territorial, com as tropas especiais de comandos, paraquedistas e fuzileiros navais, e ainda algumas companhias de caçadores, como reserva operacional para as grandes operações. Em consequência, o PAIGC não necessitava de grandes meios para flagelar, e mesmo atacar, com sucesso diversos aquartelamentos desses locais isolados, que normalmente apenas tinham capacidade para defenderem as suas posições.

Quando em 1968 o general Spínola assume o Comando Chefe da Guiné, adoptou outro conceito, concentrando as unidades para garantir melhor a sua defesa, e ainda ter condições para mais acções ofensivas.

A implementação deste conceito teve como consequência o abandono de algumas áreas do território, que eram logo ocupadas pelo PAIGC. Eram as chamadas "zonas libertadas".

No documentário é exibido um ataque ao aquartelamento de Enxalé que se enquadra na situação inicial. É visível o cuidado no planeamento da acção sobre um esboço do aquartelamento e da povoação, calculando distancias ao alvo para assegurar a eficácia aos morteiros a utilizar. De notar a informação transmitida de que às 07:00 ainda ninguém tinha saído do quartel, o que evidencia o conhecimento pelo PAIGC dos hábitos da guarnição portuguesa. Assiste-se depois à preparação para o ataque chegando à frente as armas pesadas, nomeadamente 2 canhões sem recuo de 82mm B10, uma arma muito eficaz e facilmente transportável, sobre um trem com rodas quando longe, ou a dorso na aproximação ao local de tiro. Vê-se depois a montagem do dispositivo final. À voz de "fogo" é desencadeado o ataque violento, findo o qual se assiste a retirada em boa ordem.

Este foi o tempo das flagelações aos aquartelamentos, em que a sua tomada ainda não era considerada muito importante. Como Amílcar Cabral refere nas suas declarações iniciais sobre a situação militar, as forças portuguesas foram assim sendo flageladas cada vez mais vezes e em mais locais e em diferentes zonas. Quando pela decisão militar atrás mencionada foi decidido concentrar o dispositivo, foi abandonado território logo ocupado pelo PAIGC que começou a organizar uma vida nova na zona, ali instalando as estruturas de apoio a população conforme a decisão tomada no congresso de Cassacá já mencionado.

Com toda a razão Amílcar Cabral afirma que a nova situação criada, face ao reajustamento do dispositivo e naturalmente ao aumento e melhoria da capacidade operacional do PAIGC, inverteu a situação militar existente desde o início da luta armada.

Confirmando a mudança de situação, o documentário exibe de seguida a vida corrente nas áreas libertadas com a confraternização da população com as unidades militares do PAIGC, e o funcionamento dos "armazéns do povo", com a entrega, pesagem e registo de géneros agrícolas, transaccionados ou entregues, e até o funcionamento de um tribunal com 3 juízes, o presidente com o gorro tradicional dos balantas, com o cerimonial adequado, juramento de testemunhas, apresentação da acusação, da defesa dos réus e a leitura das sentenças.

Em comentário realça-se a importância dada então na aplicação da justiça tendo em vista o controlo dos civis sobre os militares do PAIGC e, sobretudo, o controlo das chefes tradicionais por vezes críticos ou pouco colaborantes.

O documentário contempla depois o funcionamento dos serviços de saúde nas zonas libertadas com consultas normais em que são mostrados os casos mais comuns dos problemas das populações locais, nomeadamente na visão (tracomas e glaucomas) e de tuberculose, mesmo na população infantil, e para os quais não havia medicamentos suficientes.

Mostra depois o apoio médico aos combatentes, o funcionamento de um hospital de campanha onde se fizeram operações, como extracção de projécteis ou de estilhaços e também de queimados por napalm.

A "contra propaganda" é também exibida com declarações de professores e catequistas de Catió, que dali fugiram para aderir a luta de libertação, sobre as "mentiras" transmitidas pela rádio portuguesa sobre o numero de baixas dos portugueses e condições de vida nas zonas libertadas.

A educação nas zonas libertadas é depois mostrada com as imagens de uma escola em funcionamento normal, bem como a evacuação levada a cabo pelos combatentes quando um avião a sobrevoa.

Finalmente o documentário mostra como se fazia o reabastecimento das zonas libertadas em munições, géneros e demais artigos necessários. Assim uma embarcação do PAIGC chegava junto da margem e descarregava a sua carga para canoas para os locais de acesso fluvial, ou para a margem onde população e combatentes procediam ao seu transporte a dorso ou à cabeça.

Terminando o documentário, Amílcar Cabral exibe o seu conhecido pan-africanismo quando afirma que o PAIGC lutando pela libertação do seu território, contribui igualmente para que outros povos possam também libertar-se do domínio de potencias estrangeiras.

Lisboa 01.02.2009


Os comentários aos diferentes Documentários foram efectuados em colaboração com a Associação 25 de Abril, e são da responsabilidade de:
Coronel de Infantaria - José Aparício
Coronel de Artilharia – Eduardo Abreu
Coronel Piloto aviador – Villalobos Filipe
Capitão-de-mar-e-guerra – Pedro Lauret
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